Crise no setor: 160 mil motoristas devolvem carros para as locadoras

  • Cesar Colleti
  • Publicado em 17 de maio de 2020 às 22:01
  • Modificado em 8 de outubro de 2020 às 20:44
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Motoristas de aplicativos ficam sem ter trabalho e devolvem carros alugados, fazendo cair preço da locação

​Responsáveis por terem puxado os ganhos das locadoras de automóveis nos últimos anos, cerca de 160 mil motoristas de aplicativos devolveram os carros por causa do baixo movimento após a crise do novo coronavírus.

Sem ter espaço, empresas estão alugando áreas de estacionamento. Para frear devoluções, o preço da locação foi reduzido à metade. E para quem insiste na entrega do carro, são oferecidas até tarifas de R$ 10 por semana para mantê-lo, ainda que parado.

“É como se a empresa alugasse minha garagem e eu ainda tenho de pagar”, diz Daniel Marcílio, de 42 anos. Motorista do Uber desde outubro, ele aluga um modelo Fiat Argo da Localiza e pagava R$ 494 por semana, preço que caiu para R$ 247.

Ainda assim Marcílio quis devolver o carro, pois estava fazendo em média cinco corridas por semana. Antes da crise eram dez por dia. 

“Me ofereceram ficar com o carro por R$ 10 e decidi esperar mais um pouco. Mas, se a situação não melhorar, vou devolver na próxima semana.”

Paulo Miguel Junior, presidente do conselho da Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis (Abla), confirma que os pátios estão lotados.

Muitas empresas tiveram de alugar pavilhões e fazer acordos com estacionamentos e supermercados que estão com áreas ociosas para guardar parte das frotas. O setor abriga cerca de 10 mil empresas, com 75 mil funcionários.

“Temos frota de 997 mil veículos que normalmente estão em circulação, e ninguém estava estruturado para essa situação inusitada”, diz Miguel. 

Segundo ele, só para uso de aplicativos havia 200 mil carros alugados, e 80% foram devolvidos. A locação diária, para consumidores comuns, caiu 90%. Para frotas terceirizadas, a queda foi de 20%.

Segundo o executivo, cada empresa passou a adotar estratégias de acordo com seu fluxo de caixa, mas, mesmo com promoções como a de tarifas de R$ 15 a R$ 50 para locação diária o movimento segue fraco.

A Localiza informa apenas que “conta com estrutura logística robusta para alocar sua frota” e que “em sua rotina de atividades já utiliza espaços de terceiros para abrigar temporariamente parte de seus carros em função da sazonalidade de demandas”. 

Em relação às tarifas, afirma que a média diária por carro caiu de R$ 69,22 no primeiro trimestre para R$ 47 em abril.

Freio no crescimento

A pandemia também vai frear o crescimento das locadoras. O faturamento do setor saltou de R$ 13,8 bilhões em 2016 para R$ 21,8 bilhões no ano passado. 

Neste ano, o resultado deve, no máximo, repetir o de 2019. A previsão inicial era crescer até 10%, diz o presidente da Abla.

Maior locadora do país, com frota de 323,3 mil carros, a Localiza divulgou que obteve lucro de R$ 230,9 milhões no primeiro trimestre, 9,5% superior ao de igual período de 2019. 

Mas admite que abril já foi fortemente impactado pelos efeitos da pandemia. A frota média alugada no mês passado teve redução de 33% em relação à média do primeiro trimestre, caindo para 105,2 mil veículos. 

O número de carros seminovos vendidos baixou de 38,3 mil ao mês no primeiro trimestre para 2,46 mil em abril. No período, várias das 652 lojas do grupo ficaram fechadas.


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