Entenda por que o real foi uma das moedas que mais se desvalorizaram este ano

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  • Publicado em 1 de fevereiro de 2020 às 14:52
  • Modificado em 8 de outubro de 2020 às 20:19
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A moeda brasileira teve uma desvalorização perto de 8% só no mês de janeiro deste ano

O dólar se valorizou quase 7% em janeiro em relação ao real. Ao final desta sexta-feira, 31, o dólar custava R$ 4,2858. No último pregão do ano passado, a moeda americana era negociada a R$ 4,01. 

Visto por outro lado, a moeda brasileira teve uma desvalorização perto de 8% — a base é diferente — só no mês de janeiro. 

Na comparação com outros países emergentes, como Chile, México e África do Sul, o real foi uma das moedas que mais perdeu valor ante a norte-americana. 

O dólar está mais caro e deve continuar assim ao longo de 2020.

Reais perdendo valor - 6 minutos

Por que o dólar deve continuar caro? Apesar da aprovação de reformas como a da Previdência, a economia brasileira ainda ensaia uma retomada e os efeitos dos ajustes não foram sentidos. 

Um dos resultados é que a nota de crédito dada por agências como a S&P, que indicam aos grandes investidores a confiabilidade da economia do país, ainda está em BB-. 

Bem menor que as notas do Chile (A+), do México (BBB+) e da China (A+). Atraídos pelo risco menor, investidores preferem colocar dinheiro nesses países em vez de alocarem no Brasil.

A taxa básica de juros definida pelo Banco Central, hoje na mínima histórica de 4,5% ao ano, também influencia. 

A rentabilidade dos títulos do Tesouro Nacional cai, outro motivo que reduz o interesse dos investidores por ativos no Brasil. Há menos gente querendo reais para comprar esses produtos, e isso diminui o valor da moeda.

Pedro Ramos, economista-chefe do Sicredi, compara: “O México tem nota de crédito substancialmente melhor e paga taxa de juros maior. O fluxo de capital prefere ir para o México. Há menos risco e uma rentabilidade maior”.

País Taxa de juros (a.a) Nota de crédito por agências (S&P)
Brasil 4,5% BB-
Chile 1,75% A+
México 4,15% BBB+
África do Sul 6,25% BB-
Estados Unidos 1,75% AA+

Alejandro Ortiz, economista da Guide Investimentos, acrescenta outro ingrediente para a alta do dólar: a pressão do mercado para que o Banco Central volte a cortar os juros – o Copom se reúne na próxima terça-feira, 04, e quarta-feira, 05. 

 Isso diminui ainda mais a atratividade do investimento nos títulos nacionais. “O mercado de capitais acha que o BC vai cortar os juros e dita o movimento do dólar”, analisa Ortiz.

A alta do dólar impacta a inflação? Ainda não impactou e não deve ser motivo de preocupação no médio prazo, segundo os analistas. 

Ramos lembra que, desde que a tendência de aumento do dólar começou, em 2018, a inflação mensal só foi alta quando respondeu a eventos pontuais — chamados de choques — como a greve dos caminhoneiros e a escalada no preço da carne. Nenhum dos casos foi reflexo da desvalorização do real.

Quem tem juro baixo está condenado a ter dólar caro? Não é bem assim. 

A culpa do dólar caro não é só do Brasil. Investidores institucionais estrangeiros — e não os pequenos, como pessoas físicas –, que respondem pelo grosso do fluxo de capital para o país, olham para os títulos federais dos países desenvolvidos em busca de segurança. 

Ocorre que os juros da Europa estão zerados; no Japão, negativos. Entre as nações desenvolvidas, os EUA têm a maior taxa: entre 1,5% e 1,75% ao ano. 

Isso ajuda a manter a moeda norte-americana forte. “Mas esse cenário não deve se manter para sempre e o dólar poderá perder força”,  adianta Ramos.

Em janeiro, ouro se valorizou mais de 7%

Tradicional investimento de proteção, o ouro manteve a tendência de valorização em janeiro. No mês, o metal negociado na bolsa brasileira (BORc1) teve valorização que superou 7%.

Investimento em ouro foi um dos mais rentáveis de 2019 e está em alta também em 2020

Por que o ouro subiu? Isso está ligado ao cenário de incerteza na economia global, diz Victor Beyruti, também da Guide. “Em 2019, a China teve o menor crescimento dos últimos 30 anos. 

O acordo entre EUA e China para trégua na guerra comercial foi sobre bens de consumo. As tarifas sobre os bens industrias seguem altas. O coronavírus, embora esteja ainda no início e com impacto impreciso, intensificou as incertezas”, afirma.

Os juros baixos no mundo desenvolvido também estimulam a demanda pelo ouro. “A própria política estimulativa de redução dos juros dá liquidez e coloca mais dinheiro na economia. 

Como ainda há incertezas, o investimento em maquinário, por exemplo, é postergado. O investimento vai para o ouro, que se valoriza”, diz.

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