WhatsApp: a brecha que permitiu descobrir número de todos os usuários do app

  • Rosana Ribeiro
  • Publicado em 21 de novembro de 2025 às 19:30
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Busca que permite iniciar conversas com quem não está na lista de contatos possibilitou a pesquisadores identificar 3,5 bilhões de perfis no aplicativo e criar uma espécie de Censo que poderia ser usado para aplicar golpes

O WhatsApp teve por anos uma falha que permitiu a qualquer um descobrir números de celular de todos os usuários do aplicativo (Foto Freepik)

 

O WhatsApp teve por anos uma falha que permitiu a qualquer um descobrir números de celular de todos os usuários do aplicativo, apontaram pesquisadores de ciência da computação da Universidade de Viena, na Áustria.

Em um estudo, eles indicaram que a brecha estava na busca do WhatsApp que permite abrir novas conversas. Ela é fundamental para quem precisa iniciar uma troca de mensagens com quem não está em sua lista de contatos.

Mas a falta de limite para essa pesquisa permitiu coletar em massa números de celular dos 3,5 bilhões de usuários do app, disseram os pesquisadores. O número está acima dos 2 bilhões de usuários divulgados como número oficial pelo WhatsApp.

Scraping

Segundo o estudo, também foi possível identificar fotos e frases de perfil de boa parte desses usuários, disseram os pesquisadores. As mensagens das conversas têm criptografia e, por isso, estão protegidas.

A coleta dos dados podia ser feita por enumeração, técnica que envolve testar um intervalo de números para encontrar contas ativas em uma plataforma. A prática também é conhecida como raspagem de dados (ou scraping).

“Embora a limitação da taxa [de quantidade de buscas] seja uma defesa padrão contra abusos, revisamos o problema e mostramos que o WhatsApp continua altamente vulnerável à enumeração em larga escala”, disse o estudo.

Os pesquisadores disseram ter feito 7 mil pesquisas de números de celular por segundo sem qualquer bloqueio ou limitação realmente eficazes por parte do WhatsApp.

E afirmaram que excluíram o material coletado antes da publicação do artigo.

Vulnerabilidade continua?

Eles também recomendaram a adoção de medidas de segurança que foram adotadas em parte pela plataforma após certa insistência

O WhatsApp agradeceu aos pesquisadores pela colaboração e disse não ter encontrado evidências de que agentes mal-intencionados exploraram essa brecha.

“Já estávamos trabalhando em sistemas anti-scraping líderes do setor, e este estudo foi fundamental para testar e confirmar a eficácia imediata dessas novas defesas”, disse o WhatsApp em nota assinada por seu vice-presidente de Engenharia, Nitin Gupta.

‘Censo do WhatsApp’

A partir dos números, os pesquisadores conseguiram criar uma espécie de Censo do WhatsApp, com detalhes sobre números de usuário por país, sistemas operacionais usados e quantidade de fotos de perfil encontradas.

A pesquisa apontou, por exemplo, que o Brasil tem 206 milhões de usuários ativos e é o terceiro maior mercado do WhatsApp, atrás apenas da Índia, com 749 milhões de usuários, e da Indonésia, com 235 milhões.

Ainda segundo o estudo, foi possível identificar as fotos de perfil de 61% dos usuários no Brasil. E registrar que 81,4% dos usuários do aplicativo no país estão no Android e 18,6%, no iPhone.

“Caso sejam acessados por agentes maliciosos, esses dados podem ser explorados para campanhas de spam, ataques de phishing ou chamadas automáticas, representando sérios riscos à privacidade e à segurança”, diz o estudo.

Como a brecha foi testada

Entre dezembro de 2024 e abril de 2025, os pesquisadores fizeram várias rodadas de enumeração de números de telefone por meio de um programa alternativo capaz de se conectar aos servidores do WhatsApp.

Para limitar a busca, eles usaram uma biblioteca do Google com padrões de telefone em vários países. A partir daí, chegaram ao total de 63 bilhões de números possíveis distribuídos em 245 países.

Essa lista também considerou questões locais, como a mudança no padrão no Brasil, em que o dígito 9 foi incluído no início do número de celular, mas várias contas de WhatsApp ainda têm o padrão antigo, com oito dígitos.

Em seguida, eles iniciaram as buscas por contas ativas no aplicativo. Essa etapa foi realizada em apenas um servidor, prática que eles esperavam que levaria a um bloqueio por parte da plataforma.

“Para nossa surpresa, nem nosso endereço IP, nem nossas contas foram bloqueadas pelo WhatsApp. Além disso, não tivemos nenhuma limitação de taxa [de busca] proibitiva”, afirmou o estudo.

O que o WhatsApp fez após o alerta

Os pesquisadores disseram ter informado a Meta, dona do WhatsApp, sobre o risco de exploração de números de celular ainda em setembro de 2024, antes de testarem a técnica de enumeração.

Segundo eles, a Meta disse que encaminharia o alerta para seus engenheiros, mas não deu nenhuma atualização até agosto de 2025, quando ela voltou a dizer que o material seria enviado à sua equipe de especialistas.

Os autores do estudo afirmaram que, a partir de setembro de 2025, quando avisaram que o conteúdo seria publicado em um artigo, a Meta passou a demonstrar mais preocupação com a situação.

Eles afirmaram que o WhatsApp adotou um método para tentar limitar a quantidade de buscas por números de celular por pessoas mal-intencionadas sem prejudicar o uso normal do aplicativo.

A plataforma também restringiu a quantidade de vezes que um usuário pode ver fotos e frases de perfil de pessoas desconhecidas.

O WhatsApp disse que a colaboração identificou uma técnica de enumeração inédita que superou seus limites previstos, mas que elas permitiram acesso a informações disponíveis publicamente.

Fonte: G1


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