2020 IMPORTA

  • Língua Portuguesa
  • Publicado em 29 de dezembro de 2020 às 02:01
  • Modificado em 11 de janeiro de 2021 às 12:56
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POEMA PORNOGRÁFICO

Vidas negras importam

Vidas abaixo da linha da pobreza importam, 600 reais surrupiados pelos riquinhos importam, medicamentos escassos importam, UPAs mal equipadas importam, hospitais mal equipados importam, covas coletivas importam, o SUS sucateado importa, feminicídio importa, o sistema educacional falido importa, a perda do salário importa, o não use de máscaras importa, a bala perdida com o endereço certo importa, o excludente de ilicitude importa, o prefeito ladrão importa, os vereadores subornados importam, a polícia que mata a esmo importa, a polícia que morre por vingança importa, as milícias conchavadas com as autoridades importam, o governador corrupto importa, os deputados subservientes, complacentes e incompetentes importam, o voto no menos pior importa, as penitenciárias abarrotadas de pretos pobres importam, o presidente néscio, inepto importa, as instituições importam, a democracia importa, a liberdade de imprensa importa, as fake News importam. a burrice importa. Vidas importam.

Passe álcool em gel nas mãos

Lave as mãos com água e sabão. Que lindo!!! Falta água na maioria dos bairros, falta água na favela, falta água no Nordeste, só não falta água quando chove e não chove há anos. “Passe álcool em gel nas mãos”. Que lindo!!! Com 600 reais se compram comida, sabão e alguma diversão, mas álcool gel não. Com 300 reais, compram-se comida, sabão e mais nada, nem diversão. “Lave as mãos e passe álcool em gel, quando estiver na escola”. Que lindo!!! Não há sequer cadeiras, não há professores, a escola de agora é a cópia escarrada do que sempre foi: um imenso e lúgubre deserto. “Lave as mãos ao chegar ao hospital, ao tocar nos objetos e nas pessoas, passe álcool em gel”. Que lindo!!! os hospitais estão superlotados, há macas nos corredores, há médicos infectados, há enfermeiros infectados, há faxineiros infectados.

Não consigo respirar

“Não consigo respirar” por culpa desses joelhos enterrados no meu pescoço. “Não consigo respirar” por culpa desses joelhos enterrados nas costas daquele negro americano. “Não consigo respirar” por culpa desses joelhos espetados no pescoço daquele negro brasileiro. “Não consigo respirar” por culpa desses joelhos enterrados nas costelas daquele negro nigeriano. “Não consigo respirar” por culpa desses joelhos enfiados na cara daquele negro francês, daquele negro imigrante, daquele árabe oprimido pela ditadura sanguinária forjada pelo dinheiro do ocidente, daquele latino oprimido por uma ditadura sanguinária forjada pelo dinheiro das grandes potências. “Não consigo respirar” pelo fedor vindo dos caminhões frigoríficos estacionados nas portas do cemitério, pelo fedor dos corpos empilhados perto das covas coletivas. “Não consigo respirar” por causa das queimadas na Amazônia, das queimadas no Pantanal, das queimadas do serrado, das queimadas da Chapada dos Guimarães, da Chapada dos Veadeiros… “Não consigo respirar” com os inseticidas pulverizados sobre as plantações.

2020 IMPORTA

ANO DA RESISTÊNCIA

Contra o vírus político com cirrose, com pneumonia, com hipocrisia, com cegueira, com burrice, com egoísmo, com egocentrismo. O vírus sifilítico, isolacionista, desafiador, previsível, atingível. O vírus que justifica o maior laboratório a céu aberto da história depois do nazismo. O vírus exige aplausos nunca na entrada, sempre na saída.