Veja 10 erros da língua portuguesa que são comuns em reuniões e e-mails de trabalho

  • Rosana Ribeiro
  • Publicado em 15 de julho de 2025 às 12:30
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Na tentativa de ‘falar bonito’ e de impressionar seu chefe, vem aquela tentação de usar uma palavra com a qual você não tem tanta intimidade. Veja quais os ‘escorregões’ mais comuns

A maioria das pessoas comete ‘escorregões’ no trabalho querendo falar bonito – foto Arquivo

 

“Vamos corroborar com a equipe de marketing, pessoal!” “O diagnóstico enviado pelos consultores foi muito assertivo, porque não teve nenhum erro.” “Depois de tantas imprecisões, vamos ter de ratificar a nota fiscal.”
“Vamos mitigar o assédio moral na empresa.” “Aquele funcionário possui dificuldade em gerar relatórios.”

As cinco frases acima poderiam ter aparecido em uma reunião no escritório, em um e-mail corporativo ou em um post no LinkedIn — e talvez até soassem sofisticadas à primeira vista.

Mas, atenção: todas elas contêm “escorregões” na língua portuguesa. Entenda cada um nesta reportagem.

Na tentativa de “falar bonito” e de impressionar os colegas, é comum:

– trocar os significados de palavras parecidas;
– elaborar frases com erros de concordância;
– usar expressões que parecem formais, mas que são gramaticalmente equivocadas.

Cassiano Butti, docente do Departamento de Ciências da Linguagem da PUC-SP, explica que esses deslizes indicam uma certa insegurança do falante.

“Alguns desses casos podem ser chamados de ‘hipercorreções’. A pessoa quer mostrar que sabe algo, mas não é proficiente na língua e acaba cometendo esses ‘exageros’. Ela quer fazer com que o outro acredite que ela tem total domínio [deste vocabulário elaborado]”, diz.

Em vez de arriscar, o melhor é “apostar no simples”, aconselha o professor de português Sérgio Nogueira. Depois, com mais tempo, é possível pesquisar no dicionário ou na internet algum sinônimo que pareça mais elaborado, caso prefira.

Observação: Ninguém deve ser desvalorizado ou discriminado pela sua forma de falar ou de escrever.

O objetivo desta reportagem é explicar como se manter alinhado à variante padrão da língua, especialmente em contextos formais — e garantir que a informação seja transmitida de forma clara.

Abaixo, veja exemplos de inadequações comuns na rotina de quem vive em reunião (nosso foco será somente o português, sem “coffee breaks” e “brainstorms”):

CORROBORAR (como se fosse “colaborar”): Corroborar = confirmar, comprovar.

– “Vamos corroborar com a equipe de marketing, pessoal!”
– “Vamos colaborar com a equipe de marketing, pessoal!”

ASSERTIVO (como se fosse “acertar”): Assertivo = que expressa sua opinião com firmeza e respeito.

– “Ele foi assertivo ao responder todas as perguntas corretamente na prova.”
– “Ele foi muito assertivo ao dar seu ponto de vista na reunião.”

RATIFICAR X RETIFICAR (confundidos entre si): Ratificar = confirmar, validar. Retificar = corrigir algo.

– “Precisamos ratificar o contrato aprovado ontem, porque contém erros.”
– “Precisamos retificar o contrato aprovado ontem, porque contém erros.”

– “Ela retificou sua folga de amanhã. Bom descanso!”
– “Ela ratificou sua folga de amanhã. Bom descanso!”

MITIGAR (como se fosse diminuir): Mitigar = suavizar, amenizar o impacto de algo negativo.

– “Vamos mitigar os preços para aumentar as vendas.”
– “Vamos mitigar os danos causados pela crise econômica.”

TER E POSSUIR (usados como sinônimos, mas nem sempre são): Ter = é mais amplo; indica dispor de algo, ser dono ou estar em posse de um objeto ou característica naquele momento.

Possuir = é mais enfático e está ligado à ideia de posse legal, jurídica ou permanente de algo.

– “Ele possui febre desde ontem.”

– “Ele tem febre desde ontem.”

DESVIOS GRAMATICAIS

Agora, um bônus: os professores Sérgio Nogueira e Cassiano Butti listaram outras inadequações na língua portuguesa que são comuns no mundo corporativo (e que acabam sendo repetidas no dia a dia).

Na lista abaixo, os exemplos são relacionados a questões gramaticais:

1- Uso inadequado do verbo ‘fazer’ para indicar tempo:

Errado: “Fazem cinco anos que estou na empresa”.
Correto: “Faz cinco anos que estou na empresa”.
Explicação: O verbo “fazer” no sentido de tempo é impessoal e, portanto, deve ser usado sempre no singular.

2- Flexão indevida do verbo ‘haver’ no sentido de existir:

Errado: “Houveram muitas reuniões”.
Correto: “Houve muitas reuniões”.
Explicação: O verbo “haver”, no sentido de existir ou acontecer, é impessoal e deve ser usado sempre no singular, mesmo que se refira a múltiplos eventos ou objetos.

3- Discordância com o pronome “nenhum”:

Errado: “Nenhum dos candidatos desistiram.”
Correto: “Nenhum dos candidatos desistiu.”
Explicação: O pronome “nenhum” é singular, e o verbo deve concordar com ele.

4- Conjugação incorreta de verbos derivados (como ‘vir’ e ‘ter’):

Errado: “Quando nós revermos o contrato”.
Correto: “Quando nós revirmos o contrato”.
Explicação: Verbos derivados de “vir” (como “intervir”, “convir”) ou “ter” (como “manter”, “deter”) seguem a conjugação de seus verbos base. Assim, devemos dizer, na norma padrão: “se nós mantivermos”; “quando eles intervierem”.

5- Falta de concordância em expressões de acompanhamento:

Errado: “Segue anexo os documentos”.
Correto: “Seguem anexos os documentos” ou “Seguem, em anexo, os documentos”.
Explicação: Tanto o verbo “seguir” quanto o termo “anexo” devem concordar em número e gênero com o substantivo a que se referem (“os documentos”).

Até existe a possibilidade de escrever “em anexo” — mas, ainda assim o “seguir” deve ir para o plural.

Algo pode mudar com o tempo?

Sim. A língua é dinâmica e está em constante movimento.

“O português que eu ensinava antes não é o mesmo que ensino hoje. As regras mudam, e novas formas podem ser aceitas”, diz Nogueira.

Veja só um exemplo de possível alteração da norma: tradicionalmente, o verbo “adequar” é defectivo, ou seja, não é conjugado em todas as formas. No presente do indicativo, teríamos apenas:

“nós adequamos”;
“vós adequais”.

Portanto, não seria correto escrever “eu adéquo”, segundo a gramática normativa — o ideal seria substituir por um verbo sinônimo, como “eu adapto”, “eu ajusto”.

Mas já vemos um nítido movimento para que essa regra mude: o dicionário Houaiss, por exemplo, já aceita a conjugação completa, tanto no presente do indicativo (coluna da esquerda) quanto no presente do subjuntivo (coluna da direita):

Eu adéquo que eu adéque
Tu adéquas que tu adéques
Ele adéqua que ele adéque
Nós adequamos que nós adequemos
Vós adequais que vós adequeis
Eles adéquam que eles adéquem.

Fonte: G1


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