Em maior ou menor grau, todas as pessoas mentem, uma vez que a mentira é um ato instintivo e funciona como uma estratégia de preservação social
Mentir é uma habilidade mental do ser humano – foto Freepik
Mentir é uma habilidade mental pela qual um indivíduo intencionalmente tenta convencer outra pessoa a acreditar naquilo que a própria pessoa sabe que é falso.
Os motivos são os mais variados, desde aumentar um ganho ou evitar uma perda.
A verdade é que em maior ou menor grau, todas as pessoas mentem, uma vez que a mentira é um ato instintivo e funciona como uma estratégia de preservação social.
Mas, o que acontece de fato no cérebro humano quando as pessoas contam mentiras no dia a dia?
Existe um circuito cerebral responsável por esta ação que é capaz de criar um fato e, ao mesmo tempo, ter a noção dos perigos dessa inverdade.
Especialistas afirmam que a mentira é um comportamento normal do ser humano, às vezes necessária para a vida em sociedade, mas pode esconder doenças psíquicas.
Como o senso crítico permite criar sem perder o juízo
Os lobos frontais são os grandes responsáveis pela manipulação dos pensamentos, que representam uma importante aquisição neurobiológica da espécie humana, como explica o médico neurocirurgião Fernando Gomes, professor livre-docente do Hospital das Clínicas de São Paulo.
“É nesta região onde a decisão de omitir um fato, criar uma história ou mentir, acontece. Bem perto dali, o nosso senso crítico, famoso juízo ou bom senso também habita, nos mesmos lobos frontais, e nos permite escutar o nosso bom senso”, explica Gomes.
A criatividade e a fantasia são aspectos fundamentais da formação do cérebro, desde que o indivíduo não alimente a crença em mentiras.
“De fato, usar o cérebro para imaginar histórias ajuda a aumentar a criatividade, mas é importante fazer isso com cautela”.
“Brincar de mentir é saudável, só não pode ultrapassar as barreiras e acreditar naquilo que não existe de verdade”, destaca o neurocirurgião.
As consequências da mentira para o cérebro
A mentira exige mais do cérebro do que apenas o relato dos fatos. Para mentir uma pessoa deve primeiro omitir a verdade e, em seguida, elaborar uma fala alternativa convincente para o outro, ao mesmo tempo que se preocupa em esconder os sinais físicos do nervosismo.
A neurocientista Livia Ciacci, do Supera Ginástica Para o Cérebro, explica que tal processo implica em um maior uso dos recursos cognitivos do que quando se diz a verdade.
“Mesmo demandando esforço, e às vezes exibindo expressões e movimentos típicos, não podemos negar que a mentira tem um papel importante na nossa organização em sociedade e no aperfeiçoamento da imaginação e criatividade. Imagine uma criança dizendo: ‘Tia, olha o meu desenho!’ e você responde: ‘Que desenho feio!’, os impactos negativos seriam imediatos, por exemplo”, diz.
A mentira em forma de faz de conta se faz essencial na infância, como mitos como o Papai Noel, a Fada dos Dentes e o Coelhinho da Páscoa.
Segundo a especialista, a mentira é fruto das conexões neuronais responsáveis pela imaginação e criatividade.
“A habilidade do cérebro de mentir também tem utilidade quando falamos de memórias, pois preenchemos todas as lacunas dos nossos fragmentos de memórias com itens de outras memórias ou mesmo fatos imaginados”.
“Para dar sentido às histórias da sua vida, o cérebro utiliza a imaginação e preenche tudo de forma automática. Até na função visual, o cérebro envia imagens ‘virtuais’ para que você não fique cego enquanto os olhos mudam de posição”, detalha.
A neurociência observa de perto comportamentos ligados a mentira. Alguns estudos relacionam que os bons mentirosos também são excelentes solucionadores de problemas de forma criativa.
Os pesquisadores Francesca Gino e Scott Wiltermuth projetaram uma série de experimentos, sendo que em todos eles os participantes eram estimulados a trapacear e em seguida tinham uma tarefa que exigia criatividade.
Os participantes mostraram níveis mais altos de pensamento criativo depois de terem sido induzidos a trapacear no momento anterior. Então a trapaça pode encorajar a criatividade subsequente ao preparar as pessoas para serem menos contidas pelas regras.
Como contornar o problema
Um grande limitador para as mentiras é exatamente a interação frente a frente, olho no olho. Nesse contexto, o ambiente virtual pode favorecer a invenção de histórias.
Na comunicação via telas ou textos rápidos, criamos menos vínculos e, consequentemente menos empatia, o que facilita mentir.
Para quem mente muito, especialistas sugerem cinco dicas para abandonar este comportamento:
– Se precisar mentir para não parecer grosseiro, evite uma resposta extremamente oposta;
– quando crianças perguntarem sobre coisas da vida, não invente histórias fantasiosas, diga algo próximo da realidade em uma linguagem mais simples;
– quando receber informações muito chamativas por redes sociais, desconfie e nunca repasse se não souber qual a fonte da informação;
– não desmascare crianças diretamente ou na frente de outras pessoas, esse constrangimento é mais prejudicial do que a própria mentira imaginada;
– quando desconfiar que alguém está mentindo para você, faça uma pergunta aleatória sobre um detalhe insignificante e, em seguida pergunte algo relacionado à história, você vai desconcentrar a pessoa e ela pode se confundir, entregando a mentira.