É NATAL: NOITE DIVINAL

  • Língua Portuguesa
  • Publicado em 24 de dezembro de 2020 às 13:06
  • Modificado em 11 de janeiro de 2021 às 12:33
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Meu filho faz aniversário no dia 21 de dezembro. Sacanagem. Ele sempre ganha um presente no aniversário e um adendo no Natal, se sobrar uma grana. Ele fica puto. Mas, fazer o quê? Minha mulher poderia ter segurado até dia 25, afinal nossas desculpas seriam menos idiotas, mas, não, achou de deixar o moleque escapar no dia 21. Ele reclamou sobre tal destino inglório ao monitor do hotel onde nos hospedamos, que olhou para o céu e resignado soltou a bomba. Minha mãe conseguiu, nasci no dia 25 e pior (tem como ser pior?) Sempre tem. Meu irmão também nasceu dia 25, só que dois anos depois. Vai ser boa de mira lá conchichina. Apresentou-nos o irmão que, resignado, olhou para o céu. Eram a cara dum focinho do outro. todos os ganhavam, cada um, um presente que servia pros dois. A mãe, pão-dura, dava uma camisa para cada um, para que pudessem trocar. E assim inventava que eram dois presentes.

Naquele ano, a grana estava mais curta que a minissaia da Gretchen (entreguei a idade). Comprei uma árvore de um monte de bolinhas. É fácil passar a perna em crianças. Passaram um dia sem ralar a cara no chão ou dar uma bolacha no outro. Bolacha é coisa de mineiro, semelhante a levar uma piaba, um tapa na fuça. Comprei várias bonecas e carrinhos. Dava um a cada dia. Economizei uma grana para o brinquedo fatal. Fiquei horas na fila de uma maldita loja de brinquedos para comprar uma caixa com os tais cavaleiros do zodíaco. Cheguei às 9h. resisti heroicamente. Era o último da fila; na minha frente, umas cem pessoas. Às 14h chegaram os malditos cavaleiros. Alguém tentou furar a fila e levou uns tabefes. Às 14:30h, não havia mais unzinho sequer. Protesto geral, ameaça de quebra-quebra. O gerente levou alguns empurrões; o segurança e assegurou de que não seria atropelado, amassado pela turba insurrecta e fugiu para os fundos da loja visivelmente apavorado, a careca ligeiramente vermelha, exibia marcas de dedos.

O dono gritou que viria uma segunda remessa. Cada um só podia levar uma caixa. Alguns ameaçaram protestar, porém a turba ensandecida ameaçou-os. Puseram a viola no saco e não deram mais nem um pio. Chegou a nova remessa. Resultado: 15:16h peguei a minha e saí com ela debaixo do sovaco, olhando para os lados, desconfiado de todo mundo, como todo mineiro. Cheguei em casa. Levantei a caixa em sinal de vitória. Festa geral. Jogamos todos os bonecos no chão. Para o meu desespero, os bonecos não vinham montados. Aí começamos a montar seguindo aquela história da tentativa e erro. Nenhuma peça encaixava com a outra. choradeira de criança. Baixou o desespero. Fui acusado de comprar cavalos “falsiê”. Minha mulher, da organização ESPOSAS SEM FRONTEIRAS, conversou com eles com um chinelo na mão: “Engole esse choro, anda”. Funcionou que foi uma beleza. Sempre tenho vontade de rir nessas horas, porque ela não mata nem uma mosca. Eles ficam com cara de “duvido”. “Aonde vamos jantar?” Pensei: “Nessa draga, vamos comer o cachorro quente da Fá (famosa em Ribeirão, matéria do JN). O Pégaso levou os últimos caraminguás.

Para não dizer que não tentei, liguei para dois restaurantes. Perguntei sobre a ceia de Natal: estavam fechando. Outro disse: “Aqui a gente não tem essas coisa (aqui o pessoal troca o singular plural numa boa) não, cada um come em casa”. Veio a ideia salvadora. Quem sabe um hotel pudesse servir uma ceia? Baratinho, claro. Tentei o primeiro. O atendente disse: “A gente não faz essas coisas aqui não? No outro, os preços eram proibitivos. No quinto ou sexto, veio a salvação: “Estamos lotados, uma família inteira alugou o salão. Posso perguntar para eles, se não se incomodariam de colocarmos uma mesa a mais”, se o senhor não se incomodar com o barulho. Que barulho? Podia ser até no meio de uma micareta. Voltou com a resposta de cair o queixo: já que o salão já está alugado mesmo, o senhor só paga a bebida. Juntamos os moleques (sem cavaleiros do zodíaco, é claro). Eu não aguentava nem mais olhar para aquilo. E fomos. A família era grande mesmo. As crianças viram meus filhos. Vieram buscá-los e os adotaram por uma noite. Deram-lhes presentes, beijaram-lhes os bochechas e coisa e tal.

Às vezes, sacrificar-se pelos cavaleiros do zodíaco tem suas compensações. Ao invés de dois catarrentos chorões, você pode ganhar duas crianças em êxtase. O hotel não cobrou nem as bebidas, para meu alívio. Em casa, não dormi, fiquei pensando: Por que recusei aquela maldita garrafa de sidra Cerezer? Ia parecer uma Dom Perignon. Assim ficaria mais fácil enfrentar o raio do não sei que dos cavaleiros de não sei quem.