Mudanças na rotina, retorno ao trabalho presencial e viagens estão entre os principais gatilhos do transtorno comportamental
O retorno ao trabalho presencial, o aumento das viagens e as mudanças na dinâmica familiar após a pandemia têm provocado um crescimento nos casos de ansiedade de separação em cães e gatos.
O distúrbio comportamental compromete o bem-estar físico e emocional dos animais e pode trazer impactos duradouros quando não identificado precocemente.
Estudos comportamentais indicam que entre 14% e 20% dos cães domésticos apresentam sinais compatíveis com ansiedade de separação.
O que diz o veterinário
Nos gatos, embora os números sejam menos consolidados, médicos-veterinários observam aumento na procura por atendimento relacionado a alterações comportamentais associadas à ausência dos tutores.
Segundo Francis Flosi, médico-veterinário e diretor da Faculdade de Medicina Veterinária Qualittas, a quebra brusca de rotina é um dos principais fatores desencadeantes do problema.
“O animal pode desenvolver um quadro intenso de estresse ao perceber a ausência do responsável. Isso vai além do comportamento e pode gerar impactos físicos, como distúrbios gastrointestinais, queda da imunidade, dermatites por lambedura excessiva e comportamentos destrutivos”, explica.
O que é a ansiedade de separação
A ansiedade de separação é caracterizada por reações exageradas quando o animal fica sozinho ou afastado de sua figura de apego. Não se trata de “manha” ou “desobediência”, mas de um transtorno emocional que provoca sofrimento real.
Durante a pandemia, muitos tutores passaram a permanecer mais tempo em casa. Para os pets, essa convivência constante se tornou o novo padrão.
Com a retomada das atividades externas, o período de solidão aumentou repentinamente, cenário ideal para o surgimento da ansiedade.
Filhotes, animais adotados recentemente, pets muito apegados ou que já passaram por situações de abandono tendem a ser mais vulneráveis, mas o problema pode surgir em qualquer fase da vida.
Sinais de alerta nos cães
Nos cães, os sintomas costumam ser mais evidentes e, muitas vezes, geram reclamações de vizinhos ou prejuízos materiais. Entre os principais sinais estão:
Latidos, choros ou uivos excessivos
Destruição de móveis, portas, sapatos e objetos pessoais
Arranhões em portas e janelas
Tentativas de fuga
Inquietação constante
Eliminação inadequada de urina e fezes
Situações mais graves
Em casos mais graves, o animal pode se machucar ao tentar escapar, quebrar dentes ao roer estruturas rígidas ou desenvolver feridas nas patas.
A ansiedade também pode se manifestar de forma menos perceptível, como apatia, perda de apetite ou excesso de salivação quando o tutor se prepara para sair.
Gatos também sofrem e muitas vezes em silêncio
Ao contrário do que muitos imaginam, a ansiedade de separação também acontece com gatos. A diferença é que os felinos costumam expressar o estresse de maneira mais sutil.
Os sinais mais comuns incluem:
Miados intensos e repetitivos
Alterações no apetite
Marcação fora da caixa de areia
Lambedura compulsiva e automutilação
Queda de pelos em áreas específicas
Agitação ou isolamento
Gatos são extremamente sensíveis a mudanças no ambiente e na rotina. A ausência do tutor, mesmo que temporária, pode desencadear reações emocionais importantes.
Viagens também impactam cães
Assim como ocorre com os gatos, viagens podem afetar significativamente os cães. Mesmo quando permanecem no próprio ambiente e sob os cuidados de alguém conhecido, a ausência do tutor pode ser suficiente para desencadear ansiedade.
Alguns cães deixam de se alimentar adequadamente, passam a dormir excessivamente ou demonstram inquietação constante. Outros apresentam comportamento destrutivo ou vocalização intensa.
Mudanças de local, como hospedagem em hotéis para pets ou permanência na casa de parentes, podem intensificar o quadro, principalmente se o animal já apresentar tendência ansiosa.
A recomendação é que, sempre que possível, a adaptação seja feita de forma gradual. Visitas prévias ao local de hospedagem, períodos curtos de teste e a manutenção de objetos familiares, como caminhas e brinquedos, ajudam a reduzir o impacto emocional.
Impactos físicos do estresse prolongado
A ansiedade não afeta apenas o comportamento. O estresse crônico eleva os níveis de cortisol, hormônio relacionado à resposta de alerta, o que pode comprometer o sistema imunológico.
Entre os problemas clínicos associados estão:
Distúrbios gastrointestinais
Queda de imunidade
Dermatites psicogênicas
Alterações hormonais
Problemas urinários em gatos
Quanto mais prolongado o quadro, maior o risco de complicações.
Prevenção e manejo
Especialistas reforçam que a prevenção começa com rotina estruturada e enriquecimento ambiental.
Entre as principais recomendações estão:
Manter horários regulares para alimentação e passeios
Oferecer brinquedos interativos e desafios mentais
Evitar despedidas longas e muito emocionais
Realizar saídas curtas e progressivas para treinar o animal
Garantir atividade física adequada
Acompanhamento veterinário
Em casos mais intensos, o acompanhamento com médico-veterinário comportamentalista é fundamental. O uso de feromônios sintéticos e, em situações específicas, medicação pode ser indicado.
“Com orientação profissional e manejo adequado, é possível reduzir significativamente os efeitos da ansiedade de separação e proporcionar mais qualidade de vida aos animais”, conclui Francis Flosi.
A mensagem dos especialistas é clara: cães e gatos precisam não apenas de cuidados físicos, mas também de estabilidade emocional.
Segundo uma publicação do jornal O Dia, mudanças fazem parte da vida, mas, para os pets, previsibilidade é sinônimo de segurança.