Lança menina, lança todo esse perfume!

  • Aromas em Palavras
  • Publicado em 4 de fevereiro de 2016 às 00:12
  • Modificado em 8 de abril de 2021 às 14:11
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Os brasileiros já curtiam um lança perfume no Carnaval desde o início do século XX, mas sua finalidade era bem diferente. A lança era um produto desodorizante, sim, um aromatizador de ambientes fabricado pela Rhodia uma empresa francesa. Ele tinha como base uma substância chamada cloreto de etila, um solvente químico. Já a sua versão caseira chamada de ‘loló’ é feita com uma combinação de éter, clorofórmio, álcool de cereais e/ou acetona e essência perfumada.

Naquele tempo pairava no ar algo além de serpentinas, confetes e som ritmado das marchinhas de carnaval. Nos bailes elegantes, desfiles e brincadeiras de rua, na capital ou interior, homens e mulheres fantasiados empunhavam tubos dourados ou de vidro e esguichavam um spray aromático no pescoço de quem passasse – de preferência, alguém que fosse desejado. Funcionava assim: borrifava um cheirinho no cangote ou na orelha da moça, meio distraído para disfarçar, mas nem tanto que deixasse passar despercebida a intenção. Era delicioso, agradável e geladinho, afirma quem viveu as décadas áureas dos lança perfumes, que gravaram o nome na folia com o Rodouro, Pierrot, Colombina e outras tantas marcas.

A lança apareceu no Rio de Janeiro importada da Rhodia pela sua filial na Argentina, nos carnavais em meados de 1906. Vinham em bisnagas metálicas ou de vidro. A novidade fez tanto sucesso que fez o representante da empresa vir ao Brasil a fim de conferir do que se tratava o tal carnaval brasileiro. Ficou tão estupefato que seu comentário foi: “Um povo que faz um carnaval como este é o povo mais feliz do mundo”. Grandes perfumistas como Lubin e Pinault ‘assinaram’ algumas dessas fórmulas.

Diz-se que seu aroma lembra muito o perfume L’Air dus Temps da marca Nina Ricci, que tem como notas principais:  cravo, rosa, jasmim, gardênia, íris e sândalo. Com tamanho sucesso Recife abriu uma fábrica, a Miranda Souza que fabricava as marcas Royal e Paris. O produto apareceu até na literatura do Recife, o livro denominado ‘Seu Candinho da Farmácia’ de Mário Sette dizia assim: “O cheiro de éter perfumado misturado ao cheiro das mulheres fazia rodar a gente…”.

Com o tempo, porém, o costume de cheirar lança-perfume tornou-se um vício. Em vez de lançado nos outros como brincadeira, passou a ser esguichado em lenço, que as pessoas levam ao nariz, para assim aspirar seu gás. Então o que era brinquedo romântico, inofensivo e barato, passou a ter outra destinação. Segundo denúncia da imprensa carioca, no carnaval de 1928, o conteúdo do lança-perfume passou a ter outras finalidades: “… o éter fantasiado de lança-perfume é sorvido com  escândalo pelo carnaval. No vício legalizado, o Brasil consome quarenta toneladas do terrível entorpecente. Essa quantidade de anestesia daria para abastecer todos os hospitais do mundo”.

Por volta de 1965, por recomendação do jornalista e apresentador de TV Flávio Cavalcanti seguida de um decreto do então Presidente Jânio Quadros, o lança perfume acabou sendo proibido no Brasil. O fim do produto deixou marcas na memória de quem gostava de brincar ouvindo marchinhas, cheirando a substância e dançando nas praças sob uma chuva de confete. Não foi a toa que, num clima de saudosismo, que Edu Lobo compôs No cordão da saideira: “Hoje não tem dança/não tem mais menina de trança/nem cheiro de lança no ar…”

*Esta coluna é semanal e atualizada às quintas-feiras.


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