Por que a Copa do Mundo nos emociona tanto? Psicóloga explica!

  • Rosana Ribeiro
  • Publicado em 3 de junho de 2026 às 18:00
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Da troca de figurinhas ao grito de gol, a Copa do Mundo mobiliza mecanismos psíquicos e biológicos que fortalecem vínculos, memórias e o sentimento de pertencimento

Entenda como a Copa do Mundo funciona como um poderoso ritual de saúde mental, unindo biologia e afeto para combater a solidão digital (Foto Revista Esquinas)

 

A cena é clássica e se repete em bancas de jornal por todo o país: as mãos de um avô tocam as mãos pequenas do neto ao trocar uma figurinha cromada.

O gesto, aparentemente simples, carrega uma carga de afeto que define a Copa do Mundo não apenas como um evento esportivo, mas como uma potente âncora psicossocial.

Em uma era marcada pela aceleração e pelo distanciamento digital, o mundial opera como um ritual coletivo capaz de reorganizar emoções e unir o invisível do afeto à biologia do cérebro.

Sob a ótica da psicanálise de Winnicott, o fenômeno começa nos álbuns de figurinhas, que funcionam como “objetos transicionais” — pontes entre o mundo interno dos desejos e a realidade externa compartilhada.

Essa dinâmica é sustentada pelo sistema de recompensa do cérebro: a busca pelo cromo raro dispara dopamina, enquanto o contato face a face libera ocitocina, o hormônio do vínculo, resgatando a interação espontânea entre diferentes gerações.

A Sincronia Neural e o Fim da Solidão

Assistir aos jogos em grupo promove uma diluição temporária das solidões cotidianas. Segundo a psicologia das massas de Freud, o ideal comum permite que as fronteiras rígidas da identidade individual se suavizem, fundindo o sujeito a uma comunidade maior. Esse estado atenua a angústia existencial através da catarse coletiva do gol.

Fisicamente, essa fusão é viabilizada pelos neurônios-espelho. Ao testemunhar o triunfo ou a queda de um atleta, o cérebro humano simula internamente a mesma experiência.

O resultado é uma sincronia neural: batimentos cardíacos e estados de alerta do grupo se alinham, reduzindo os níveis de cortisol (o hormônio do estresse) e atuando como um antídoto direto ao isolamento social contemporâneo.

Marcadores de Tempo e Memória Afetiva

A Copa do Mundo também atua como um marcador de tempo psíquico. A fixação de onde se estava ou com quem se assistiu a determinado jogo revela um refúgio de segurança e um reencontro com a infância.

Na neuropsicologia, eventos de forte carga emocional ativam a amígdala, que funciona como um amplificador para o hipocampo, eternizando o instante na biografia de cada torcedor.

Além disso, o evento impõe uma “pausa sagrada” no tempo produtivo, legitimando o choro, o grito e a suspensão da rotina. Trata-se de uma trégua nas exigências sociais, permitindo que o cérebro descanse e se reorganize.

Como apontava o sociólogo Gustave Le Bon, a massa possui uma alma coletiva transitória onde os sentimentos são contagiosos.

A Força do Pertencimento

Fazer parte dessa massa gera uma sensação de onipotência e segurança, combatendo o desamparo do isolamento. Ao compartilhar a torcida, o indivíduo sente que integra um corpo gigante e invencível. A solidão existencial desaparece sob o eco do outro.

Em suma, a Copa do Mundo sobrevive como um dos raros oásis da contemporaneidade, lembrando que o ser humano é, fundamentalmente, feito de conexão. É o momento em que a biologia e a psique se alinham para oferecer uma trégua ao peso do “eu”, permitindo o descanso na correnteza de um afeto comum.

Fonte: CNN


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