Segundo levantamento realizado pelo Instituto Quaest em 2024, o Brasil é o terceiro país mais populoso em número de animais de estimação.
Enquanto a quantidade de filhos por residência está em queda – em 2003, o tamanho médio das famílias era de 3,62 pessoas e, em 2022, chegou a 2,8 pessoas — o número de pets está em crescimento, e alcançou razão de 2,3 pets por domicílio no mesmo período.
Pesquisas recentes ressaltam que a presença de animais na casa pode ter benefícios psicossociais, contribuindo para a saúde mental e para o desenvolvimento afetivo dos seus tutores.
Mudanças nas famílias
Além das mudanças no núcleo familiar, os pets também se tornam parte essencial da economia brasileira.
Entre 2002 e 2018, o número de famílias que declararam despesas com animais de estimação quase triplicou (de 11,72% para 30,27%).
Recentemente, ambientes pet friendly se alastraram pelo País: cães e gatos são bem-vindos em shoppings, cafés, sorveterias e bares, que oferecem até mesmo produtos específicos para eles.
Tese de doutorado
Em sua tese de doutorado, Clécia Satel, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Economia Aplicada da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP sob orientação do professor Rodolfo Hoffmann, analisou mudanças na renda, nos hábitos das famílias e no consumo de produtos para pets no Brasil.
“Antigamente, os gastos eram praticamente com ração e medicamentos, e agora temos variedades de serviços e itens, desde roupas até petiscos que alimentam grandes indústrias”, comenta.
A partir de dados das Pesquisas de Orçamento Familiares (POF) de 2002-2003, 2008-2009 e 2017-2018, a cientista buscou entender como os novos arranjos familiares e o poder aquisitivo das famílias influenciaram nessas despesas.
Segundo ela, a mudança na relação estabelecida com os pets e no investimento financeiro dos tutores não ocorreu apenas entre os mais ricos, mas também na classe média.
O desempenho econômico do setor pet, que está em plena expansão no País, também demanda atenção. “Entender como e porque as famílias gastam com animais de estimação ajuda a orientar políticas públicas, negócios e até estratégias de exportação”, afirma a cientista.
Metodologia de pesquisa
Para realizar essa análise, a pesquisadora organizou as despesas com pets em quatro grandes grupos:
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1. despesas com saúde, com destaque no subgrupo plano de saúde;
2. higiene;
3. ração para pets, com destaque no subgrupo petiscos;
4. outras despesas, com destaque para compra de animal, adestramento, certificado de raça e hospedagem.
Variáveis
As variáveis adotadas foram escolaridade do tutor, renda familiar per capita e arranjo familiar.
Ao longo do tempo, houve um aumento de arranjos familiares com até três pessoas e redução dos outros tipos. O arranjo “casal com dois filhos ou mais” teve um decréscimo de 10% entre 2002-2003 e 2017-2018.
Simultaneamente, a estrutura familiar “casal” cresceu 114,2% , e teve a maior despesa mensal com pets em 2018.
A despesa total média com animais de estimação, considerando diferentes arranjos familiares, apresentou um aumento total de 145%, indo de R$ 8,32 em 2002-2003 a R$ 20,42 em 2017-2018.
Plano de saúde
A maior parte desses valores foi destinada à alimentação e aos cuidados com a saúde dos animais, seguida de higiene. “Na última POF [2017-2018], já houve um gasto substancial com plano de saúde, que na de 2008-2009 não aparecia”, pontua Clécia.
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É importante ressaltar que esse cálculo considera as famílias que não possuem nenhum animal de estimação.
“Para um animal frequentar uma creche, o gasto mínimo do tutor é R$ 800 reais por mês”, diz Clécia, indicando que o gasto pode ser muito maior.
Famílias com menos integrantes e maior renda tendem a possuir mais animais, gastar mais com alimentação e cuidados especializados, enquanto famílias com bebês pequenos ou idosos tendem a gastar menos.
O nível de escolaridade também teve grande impacto: quando o chefe da família tinha título de mestre, o valor gasto com os animais atingiu R$ 88,41 em 2018.
De acordo com uma publicação do Jornal da USP, as Unidades Federativas com maiores rendas são também as que mais gastam com os animais de estimação, com destaque para as regiões Sul, Centro-Oeste e o Estado de São Paulo.
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