Briga dos pais podem afetar o desenvolvimento e saúde das crianças

  • Cesar Colleti
  • Publicado em 22 de abril de 2018 às 15:03
  • Modificado em 8 de outubro de 2020 às 18:41
compartilhar no whatsapp compartilhar no telegram compartilhar no facebook compartilhar no linkedin

Discussões fazem parte da vida a dois, mas conflitos constantes são danosos para saúde mental dos filhos

O ambiente doméstico tem um grande impacto sobre a saúde mental e o
desenvolvimento de longo prazo das crianças – e não apenas por causa da relação
entre pais e filhos.

A dinâmica de relacionamento entre os próprios pais também desempenha um
papel crucial no bem-estar das crianças, em sua performance acadêmica e até em
seus relacionamentos futuros.

Antes de mais nada, é preciso destacar que, na maioria das vezes,
pequenas discussões cotidianas são parte da vida e têm um impacto nulo ou muito
pequeno nos pequenos. O que realmente afeta as crianças são comportamentos como
gritos e demonstrações mútuas de raiva diante dos filhos, ou quando um cônjuge
ignora o outro constantemente.

Uma recente revisão de pesquisas internacionais, conduzidas ao longo de
décadas e analisando comportamentos domésticos e o desempenho de crianças ao
longo da vida, sugere que, a partir dos seis meses de vida, crianças expostas a
conflitos tendem a ter batimentos cardíacos mais acelerados e níveis mais altos
de estresse – o que, por sua vez, prejudica a formação de conexões neurais nos
cérebros infantis.

Conflitos interparentais severos ou crônicos podem, portanto, provocar
consequências como interrupções no desenvolvimento cerebral, distúrbios do
sono, ansiedade, depressão, indisciplina e outros problemas graves em bebês,
crianças e adolescentes.

Efeitos similares são
observados em crianças expostas a brigas menos intensas, porém contínuas, em
comparação com crianças cujos pais resolvem seus conflitos e negociam entre si
de modo construtivo. 

Divórcio e trocas afetivas

O que realmente afeta as crianças pode causar surpresa.

Muitos
adultos acreditam que o divórcio – ou a decisão dos pais de deixarem de morar
juntos – tenha efeito duradouro e danoso nos filhos. No entanto, um estudo
publicado em 2012 pela Universidade de Cardiff, no País de Gales, constatou que
são provavelmente as discussões ocorridas antes, durante e depois do divórcio
que causam danos às crianças, e não a separação em si.

Ao mesmo
tempo, muitas vezes se atribui à genética a forma como as crianças respondem a
conflitos. Mas o ambiente doméstico e a qualidade das trocas afetivas dentro de
casa têm um papel central nessa equação.

Além disso, é possível que
riscos genéticos para problemas mentais sejam potencializados – para bem ou
para mal – pelo cotidiano familiar.

A
qualidade do relacionamento entre os pais é um elemento central,
independentemente se os pais moram juntos ou não, se os filhos são biológicos
ou adotivos. 

Brigas sobre crianças

Que lições os pais podem tirar disso tudo?

Primeiro, é preciso reiterar que é perfeitamente normal que pais e
cuidadores discutam ou discordem entre si. O problema é quando eles mantêm conflitos
constantes, intensos e mal resolvidos.

E isso se agrava quando as brigas ocorrem por causa das crianças. Nesses
casos, elas costumam se sentir culpadas e achar que elas são responsáveis pela
discussão interparental.

Como resultado, elas desenvolvem dificuldades para dormir, têm o
desenvolvimento cerebral impactado, maior risco de sofrer de ansiedade e
depressão, de desenvolver mau comportamento, de ir mal nos estudos e de se
deparar com riscos bastante sérios – como o de se automutilar.

Já se sabe há décadas que a violência no ambiente doméstico é bastante
danosa para as crianças envolvidas. O que se descobriu mais recentemente é que,
mesmo na ausência de comportamento violento, quando os pais passam a se ignorar
ou a deixar de demonstrar respeito mútuo, também colocam em risco o
desenvolvimento emocional, comportamental e social dos filhos.

E os problemas não param por aí: as crianças criadas em ambientes
emocionalmente frágeis tendem a perpetuar esse comportamento, o que faz com que
ele passe de geração em geração.

É um ciclo que precisa ser quebrado se queremos que a atual geração de
crianças (e a futura geração de adultos) tenha vidas felizes e relacionamentos
positivos. 

Como agir e como discutir

Pesquisas mostram que, com dois anos de idade e até antes
disso, as crianças são astutas observadoras do comportamento dos pais.

Eles
frequentemente percebem as discussões, mesmo quando os pais acham que estão
brigando “escondidos”.

O que
importa é o modo como a criança interpreta e entende as causas e potenciais
consequências desses conflitos domésticos.

Vai ser
com base nessas experiências que as crianças vão avaliar se o conflito pode
aumentar, envolvê-las ou colocar em risco a estabilidade familiar – algo que
deixa os filhos pequenos especialmente preocupados.

Elas também podem ficar com medo de seu próprio relacionamento com o pai
e a mãe piorarem por causa das brigas.

Pesquisas indicam que meninos e meninas podem reagir de modo distinto –
sendo que as meninas têm risco maior de desenvolver problemas emocionais,
enquanto os meninos tendem a desenvolver problemas disciplinares.

Com frequência, projetos sociais voltados à saúde mental juvenil focam
em amparar as crianças. Mas é possível que amparar os pais na resolução de seus
conflitos tenha um grande impacto nessas crianças no curto prazo, além de dar a
elas mais ferramentas emocionais para formar relacionamentos saudáveis com
outras pessoas no futuro.

Pais que estejam preocupados quanto ao impacto de suas discussões nas
crianças precisam saber que as crianças, na verdade, respondem bem quando os
pais explicam e resolvem suas discussões de modo apropriado.

Ao verem os pais solucionarem seus desentendimentos de maneira saudável,
os filhos aprendem lições importantes que os ajudarão a entender suas próprias
emoções e a se relacionar para além do círculo familiar.

Ajudar os pais a entender como seu comportamento mútuo afeta o
desenvolvimento dos filhos cria as bases para formarmos crianças saudáveis hoje
– e famílias mais saudáveis no futuro.


+ Comportamento