Artesanal ou Industrial?

  • Aromas em Palavras
  • Publicado em 21 de fevereiro de 2018 às 23:00
  • Modificado em 8 de outubro de 2020 às 18:35
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Há algumas semanas atrás eu li num perfil comercial do instagram uma frase que me deixou perplexa: “Nosso produto é feito por processo 100% industrial, por isso tem qualidade”. Não sei se foi uma propaganda feita por alguma agência ou pelo próprio dono do negócio, mas com certeza por uma pessoa que não teve muita experiência nos dois mundos, eu só sabia que precisava escrever sobre isso e explicar melhor minha opinião sobre o assunto.

Muito antigamente eu encarava o artesanato como algo quase que hippie, iguais aquelas pessoas que fazem pulseirinhas em feiras de artesanato. Depois, fui visitar cidades do nordeste que mostraram as rendeiras e artesãs e um outro lado do trabalho artesanal. Fui para o sul e conheci as fábricas de cristais, que em pequenos galpões, faziam um trabalho considerado artesanal. Até que pouco tempo atrás, na época da faculdade, visitei uma fábrica de cervejas, com produção que atende demanda nacional e tinha tanques de inox que eram maiores do que eu. Foi realmente surpreendente, foi lá que eu comecei a sentir o que era artesanal, por incrível que pareça. E depois fui trabalhar em uma indústria de cosmético, e conheci ainda mais a fundo, que o artesanal é a base de tudo. Não existe produção industrial sem o artesanal, é ela que dá origem ao produto final.

Espero que vocês tenham percebido que nem sempre a linha que separa o produto industrial do artesanal fica bem clara. Quando está tudo ali, embaladinho, o que a gente vê é só o resultado e não pensa no processo como um todo. E é esse processo até o produto final que faz com que valha muito a pena considerar um e o outro em diferentes situações.

Me responda rapidamente: Qual a bebida gasosa mais vendida no planeta? Se o primeiro pensamento que surgiu na sua cabeça foi Coca-Cola sem titubear, você deu um palpite industrial e certeiro. Percebe que estamos acostumados com o usual, com aquilo que desde que nascemos já estava lá? Pensamos como a massa, e vivemos como massa durante muito tempo. É por isso que fica difícil mensurar o que faz de um produto, artesanal. O industrial está lá, em qualquer prateleira (muitas vezes até mesmo com alterações grandes no produto final), o artesanal nem sempre está lá. Em especial, se você vive nas capitais e grandes cidades.

Quando falamos de pequenos produtores, o pensamento artesanal é que dá valor ao produto e de um modo geral, sua qualidade vai atestar isso. Hoje em dia, a população vem se conscientizando que é muito melhor descascar do que desembalar e que embalagens caras e bonitas (que custam cerca de 70% do produto final)  muitas vezes vendem somente embalagens, e não qualidade.

Para entender ainda melhor, tentando não generalizar, vou dar um exemplo simples. Vamos imaginar um produto que a grande maioria das pessoas adora, a batata. Uma batata que é super elogiada, a do Mc Donald’s que tem uma embalagem vermelha e amarela chamativa, e fica maravilhosa enquanto está quente, parece batata e tem gosto de batata. É o fac símile perfeito! Entendeu? A indústria vende um produto que parece o que você quer, mas não é exatamente só aquilo. E isso é necessário sob um ponto de vista do pensamento industrial, e para atingir seu objetivo comercial.

O que eles fazem é preparar um processo que possa atender o mundo inteiro, ser conhecido por multidões, e claro, vender milhões e milhões de unidades. Portanto, eles fazem o possível para baratear os custos e atender aos seus pedidos, mesmo se isso custe a qualidade e pureza do produto (principalmente quando o assunto é conservante cancerígeno). Com certeza existem os grandes que dormem bem com suas consciências, outros nem tanto.

Principalmente quando falamos da indústria alimentícia, tem demanda, tem lucro, tem durabilidade e tem muita coisa química também, infelizmente. Mas se você olhar a mesma batata sob o ponto de vista artesanal vai observar que ela é comprada no mercado (ainda que uma grande rede de supermercado também possa ser considerada industrial), uma pessoa precisar lavar, picar, cozinhar e temperar, assar, deixar crocante no forno e colocar em uma tigela bonita, para só ai então poder servi-la. E claro, considerando o sorriso no rosto de satisfação pelo processo feito e concluído com sucesso.

Se há um fator chave no pensamento artesanal é a forma com que se interage com as pessoas, com o produto e com todo o processo da matéria prima até o descarte. É isso que gera o valor que você adiciona, ao respeitar aquele produto e pensar nele como experiência e não apenas como lucro, ou uma troca por dinheiro. Existe amor, respeito e cuidado em cada etapa feita. Fazer um produto artesanal, não quer dizer que a pessoa não saiba o que está fazendo, ou usando matéria prima de baixa qualidade. Ao contrário, é ela que controla cada parte do processo, ao invés de máquinas, colocando seu ‘selo de qualidade’ em cada pedacinho daquele produto. O industrial também sabe muito bem o que está fazendo, mais tem a tecnologia e altos investimentos como seus aliados. O diferencial está em quem segue desde o princípio o processo com técnica e zelo, se preocupa com a qualidade de cada um dos seus insumos e em como utilizar a tecnologia e ciência que temos hoje em benefício do produto final

Um produto 1oo% brasileiro que está ganhando destaque por exemplo, é a cachaça. É o tipo do produto que ganha muito ao adotar o pensamento artesanal, ensinando não só a sua história, mas como consumi-lo e valorizando tudo isso. O mercado está crescendo e buscando novas soluções para avançar com esse produto, tentando perder a estigma de baixa qualidade ou bebida de sarjeta, diferenciando o que é artesanal do que é meramente clandestino.

Já comentei em vários textos com vocês das grandes casas de perfumaria que lançam produtos incríveis, com preços exorbitantes tendo até frascos numerados, como edições exclusivíssimas e feitos com processos quase que 100% artesanais, principalmente as embalagens que são feitas como jóias (além de realmente conter ouro, brilhantes, e etc.). E são produtos que se fossem considerados artesanais da forma pejorativa, poderiam valer pouquíssimo, mas por isso mesmo, são considerados itens de desejos de milhares de pessoas. Pergunte a um amante da relojoaria quantos exemplares existem dos relógios mais desejados por eles.

O ato do artesão transforma uma matéria prima em produto diferenciado, artesanal e em pequenas escalas. A indústria mecaniza o processo e faz esse mesmo produto em grande escala e em menor tempo. Um é trabalho manual, o outro, trabalho de uma máquina. Processos diferentes para fins similares. Nesse grande planeta em que vivemos, tanto no processo artesanal quanto no industrial, encontramos pessoas que valorizam aquilo que fazem. Independente se são apenas 2 bordadeiras ou 1500 funcionários em uma fábrica, esses profissionais são seres humanos, corações que acreditam no que fazem para mudar o mundo, nem que seja o seu próprio. Pode parecer romântico demais para você, mas no fundo é bem isso. Somos pessoas, e nos organizamos em grandes e pequenos, simples e rebuscados. E a felicidade maior, é saber que tem lugar para todos coexistirem com respeito, sem desmerecer o trabalho do outro!

*Esta coluna é semanal e atualizada às quintas-feiras.​