Saiba lidar com déficit de atenção e hiperatividade, que afligem crianças e adultos

  • Salvador Netto
  • Publicado em 8 de fevereiro de 2021 às 22:30
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O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento que começa na infância. Sua causa não está totalmente clara, mas sabe-se que há fatores genéticos e ambientais envolvidos


Com apenas dois meses, Yuri não parava quieto e caiu do colo do pai. Aos quatro meses, a pediatra aconselhou a deixá-lo no chão, porque ele não queria ficar deitado no berço de maneira alguma.
Dormir seis horas por noite? Sem chances. Ele acordava no meio da noite e queria brincar.

“Deu muito trabalho”, confessa a mãe, a dona de casa Maurina Alves, 49. “Mas como ele era muito pequeno, eu não sabia o que ele tinha. Tentei de tudo, dar regras, estabelecer pontos para ele fazer tarefas, dar prêmios para não fazer bagunça… Ele seguia no primeiro dia e depois esquecia.”

O diagnóstico só veio anos depois, quando o menino tinha sete anos e já “mexia com a sala inteira” no colégio. Após a observação dos pais, dos professores e do médico, ele passou a fazer tratamento para TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade).

O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento que começa na infância. Sua causa não está totalmente clara, mas sabe-se que há fatores genéticos e ambientais envolvidos. As três características essenciais são a distração, a impulsividade e a hiperatividade.

Elas podem aparecer combinadas, mas não necessariamente (os três tipos conhecidos são o predominantemente desatento, o predominantemente hiperativo e o combinado). As informações são do repórter Vitor Moreno, da Folhapress.

Também é possível que esteja associada a outros transtornos, como dislexia e discalculia (principalmente na infância), além de ansiedade e depressão.

Numericamente, os meninos são os que mais apresentam traços de hiperatividade. São aqueles que não param quietos, ficam se remexendo na cadeira e levantam muitas vezes na sala de aula.
Enquanto isso, as meninas tendem a ser mais quietinhas, embora igualmente desatentas.

De acordo com Mário Louzã, coordenador do Ambulatório de TDAH em Adultos do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), para caracterizar o transtorno, os sintomas precisam se manifestar quando o indivíduo tem menos de 12 anos.

Normalmente, o diagnóstico é feito por volta dos sete anos, quando o comportamento da criança já pode ser avaliado em ambientes diferentes, como em casa e na escola.

Ele explica que o distúrbio pode ou não persistir na idade adulta –cerca de metade dos portadores melhora com o passar dos anos.
“O adulto também pode ter as mesmas características da criança, mas consegue controlar com algum esforço”, afirma.

Muitas pessoas chegam à vida adulta sem saber que tiveram ou ainda têm a disfunção. “Às vezes, a pessoa interpreta o problema como sendo da personalidade dela”, explica.

“Quando ela cai no sistema de saúde é que começa a entender que não é apenas o jeitão dela, é um transtorno mental.”

Mário Louzã afirma que isso ocorre por uma série de motivos. “A questão principal é a falta de informação e o preconceito em buscar ajuda psiquiátrica”, avalia.

“O problema do TDAH não-tratado é que a pessoa acaba criando uma história de prejuízo acadêmico, está sempre um pouco atrás dos colegas, e com isso pode desenvolver baixa autoestima, entre outros fatores.”

Estratégias

Como saber diferenciar quem tem um esquecimento normal ou é naturalmente impulsivo ou agitado daquele que tem TDAH?

“Você pode ter pessoas que são levemente mais distraídas, mas isso não prejudica o cotidiano delas”, explica Louzã. “Quando isso começa a trazer prejuízos, é bom procurar ajuda.”

Isso não significa necessariamente que a pessoa precisará tomar medicação ou seguir um tratamento específico. “Depende das atividades que a pessoa desempenha”, conta.

“É possível tentar estratégias simples para compensar as dificuldades, como colocar vários alarmes no celular para lembrar das coisas, por exemplo.”

Em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, é possível participar de grupos de apoio gratuitos com portadores do transtorno e familiares organizados pela Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA). As sessões são mediadas por médicos e psicólogos voluntários.

“São grupos de ajuda mútua em que pessoas com realidades diferentes compartilham informações e trazem suas dúvidas”, diz a psicóloga Iane Kestelman, presidente da ABDA e mãe de dois filhos com TDAH.

A entidade, que chega a receber 8.000 pessoas por ano nesses encontros, tem como missão difundir informações científicas sobre o transtorno e lutar por políticas públicas para quem é portador.

A associação visa capacitar profissionais de saúde e educação para saberem lidar com o transtorno. “O ideal é consultar um profissional que conheça e se dedique a pesquisar o tema para que não haja pessoas se tratando ou tomando medicação sem necessidade”, afirma.

Outra recomendação é que, ao saberem que o filho tem o transtorno, os pais avisem à escola.

“Apesar do preconceito que existe em alguns segmentos da educação com relação aos diagnósticos ligados aos transtornos de aprendizado, o certo é que a escola seja comunicada para que a equipe pedagógica faça as adaptações necessárias.”

Algumas medidas simples, como colocar a criança sentada mais perto do professor ou dividir as tarefas em partes, podem ser adotadas. “É preciso ajudar este aluno a organizar o pensamento”, diz.

“E, como não existem políticas públicas que deem suporte aos portadores de TDAH e muitas vezes a escola não está preparada, o ideal é que os pais cobrem.”


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