Por que alguns remédios para controlar pressão arterial parecem parar de funcionar?

  • Rosana Ribeiro
  • Publicado em 3 de outubro de 2025 às 18:00
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Mudanças no corpo, interações medicamentosas e baixa adesão ao tratamento explicam por que a pressão pode voltar a subir mesmo com o uso contínuo de remédios

Muitos pacientes relatam que, depois de um tempo, os remédios parecem não controlar mais a pressão. Mas será que o corpo realmente se acostuma com eles? (Foto Arquivo)

 

A hipertensão arterial é uma das doenças crônicas mais comuns no Brasil e também um dos principais fatores de risco para infarto e Acidente Vascular Cerebral (AVC).

O tratamento costuma ser para a vida toda e, na maioria das vezes, envolve o uso contínuo de medicamentos.

Mesmo assim, muitos pacientes relatam que, depois de um tempo, os remédios parecem não controlar mais a pressão. Mas será que o corpo realmente se acostuma com eles?

A ideia da tolerância

Especialistas explicam que os medicamentos não perdem seu efeito químico com o passar do tempo. O que acontece, na prática, são mudanças no organismo, no estilo de vida ou na adesão ao tratamento.

“O termo ‘tolerância verdadeira’ é muito raro. O que vemos, na realidade, é comportamento, interações medicamentosas e a progressão natural da doença”, afirma o cardiologista Pedro Xavier Fontes, preceptor de cardiologia da Faculdade de Medicina de Piracicaba.

Como o corpo muda ao longo do tempo

O organismo não é estático e o envelhecimento traz alterações importantes para o sistema cardiovascular.

“Com o envelhecimento, as artérias ficam mais rígidas, dificultando o controle principalmente da pressão sistólica”, detalha o cirurgião cardiovascular Ricardo Katoyese, do Hospital Beneficência Portuguesa.

Além da idade, os especialistas destacam que pacientes com múltiplas doenças crônicas e uso de diversos medicamentos ao mesmo tempo (polifarmácia) são mais propensos a interações que resultam em uma pseudo falha dos anti-hipertensivos.

Membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia e mestre em ciências cardiovasculares, Bruna Miliosse reforça que situações como ganho de peso, envelhecimento ou uso de outros remédios também podem interferir no tratamento.

Ou seja: não é o remédio que perde efeito, mas o contexto do paciente que muda.

O papel das diferentes classes de remédios

Essa variação de resposta também está ligada ao tipo de medicação utilizada.

Segundo Xavier Fontes, inibidores da ECA (IECA) e bloqueadores dos receptores de angiotensina (BRA) são pilares do tratamento, mas seu efeito pode ser reduzido em pacientes que consomem muito sal ou usam anti-inflamatórios com frequência.

“Os bloqueadores de canal de cálcio, como o anlodipino, controlam bem a pressão, mas podem causar inchaço nas pernas em até um terço dos pacientes, o que reduz a adesão. Já os betabloqueadores não são a primeira escolha isolada, sendo mais indicados em situações específicas, como pós-infarto ou arritmia”, explica o médico.

Para o cardiologista Claudio Catharina, gestor da unidade coronariana do Hospital Icaraí, o organismo pode encontrar atalhos para escapar da ação do medicamento.

“Um bom exemplo é o IECA: com o uso prolongado, pode ocorrer liberação de aldosterona, que eleva a pressão. Por isso, a associação de dois ou três fármacos tem mais chance de sucesso.”

Interações escondidas no dia a dia

Outro ponto importante são as interações com remédios comuns.

“Anti-inflamatórios podem aumentar de 5 a 10 milímetros de mercúrio na pressão e antagonizar os efeitos de IECA, BRA e diuréticos”.

“Descongestionantes nasais com pseudoefedrina também aumentam bastante a pressão. Além disso, corticoides, anticoncepcionais com estrogênio, cafeína em excesso e até pré-treinos podem atrapalhar o controle”, alerta Fontes.

Essas interações, muitas vezes desconhecidas pelo paciente, ajudam a explicar por que a pressão escapa mesmo em tratamento contínuo.

Quando o problema é a adesão

Os especialistas ressaltam que mais da metade dos pacientes deixa de tomar os remédios da forma correta ainda no primeiro ano de tratamento.

Esquecer doses, ajustar por conta própria ou simplesmente abandonar a medicação são atitudes que comprometem o controle.

“É comum o paciente pensar: ‘minha pressão está boa, então não preciso mais tomar’. Aí volta tudo porque, na verdade, ele continua sendo hipertenso”, observa Katoyese.

Estilo de vida que reforça (ou anula) o tratamento

Mesmo quando a medicação é usada corretamente, hábitos pouco saudáveis podem atrapalhar.

“Uma dieta rica em sódio pode neutralizar a ação do anti-hipertensivo. O álcool também altera o metabolismo do fármaco, diminuindo sua eficácia”, explica Miliosse.

Para Xavier Fontes, pequenas mudanças ajudam a manter o controle: “Separar as doses em caixinhas, usar combinações de comprimidos únicos, reduzir sal e álcool, revisar outros remédios em uso e investigar causas secundárias, como apneia do sono e hiperaldosteronismo.”

“O controle sustentado é possível. Quando ele se perde, quase sempre envolve adesão, sal em excesso, interações ou progressão da doença. O remédio em si continua funcionando”, conclui Fontes.

Fonte: G1


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