Em Franca, busca por descontos no aluguel tem crescido em razão das dificuldades vividas pela covid-19
Mudar para uma quitinete não estava nos planos do designer de moda José Nelson para 2020.
Com a pandemia, ele e os amigos com quem divide um grande apartamento no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, não conseguiram mais dar conta do aluguel de R$ 2.700.
A produtora cultural, Mônica Rodrigues, uma das colegas de Nelson, até tentou negociar com a imobiliária. “Pedimos um desconto de 50% e essa diferença nos pagaríamos em parcelas, depois da quarentena. Mas o proprietário não fez nem uma contraproposta”, afirma ela, que decidiu voltar, em junho, para sua cidade natal, o Recife.
A recomendação da Aabic (Associação das Administradoras de Bens Imóveis e Condomínios de São Paulo) para os proprietários é aceitar algum tipo de negociação com os inquilinos, principalmente os que perderam renda durante o período de isolamento social, como Mônica, que viu seus rendimentos zerarem com a pandemia.
“Nove em cada dez proprietários estão dando de 10% a 50% de desconto e aceitando que a diferença seja paga em parcelas, posteriormente”, afirma José Roberto Graiche Júnior, presidente da Aabic.
Em Franca, situações
Mas o que fazer se o proprietário não negociar?
Isso aconteceu com muita frequência em Campo Grande (MS), segundo a consultora de imóveis Yslanda Barros, que administra mais de 400 imóveis em São Paulo, Fortaleza e na capital do Mato Grosso do Sul.
“Em Campo Grande, a maioria dos aluguéis é feita com seguro fiança. E, acreditando que a quarentena não duraria mais de três meses, que é o período que a maioria dos seguros cobre, os proprietários bateram o pé”, explica ela.
Em São Paulo e Fortaleza, segundo ela, a maior parte dos aluguéis é garantida por capitalização (uma espécie de poupança) ou cheque caução, o que muda a negociação.
“O proprietário não quer ter de arcar com condomínio, impostos bem agora e, por conta do distanciamento social, está muito difícil conseguir outro inquilino rapidamente”, afirma Graiche Júnior.
Mesmo assim, no caso de não haver acordo, o inquilino deve tentar negociar a saída do imóvel sem pagar a multa.
Geralmente, ela é de três meses de aluguel. “Quando a pessoa fica impossibilitada de pagar o aluguel, o que aconselho aos proprietários que não querem reduzir o preço é aceitar a desocupação”, diz Yslanda.
Sem despejo na pandemia
O Senado Federal aprovou um projeto que proíbe as ações de despejo de inquilinos durante o período de pandemia. O texto, aprovado em sessão remota, espera, desde o dia 19, a sanção do presidente Jair Bolsonaro.
Na Justiça, a maioria das decisões liminares (de caráter provisório), concedidas desde 20 de março, estão dando ganho de causa aos inquilinos.
Mudança no mercado
Por conta da pandemia, o perfil dos imóveis para aluguel e também para venda mudou.
No setor de aluguel, quanto menor o apartamento – e consequentemente mais barato –, maior a procura, devido a um movimento de troca por economia, como aconteceu com José Nelson, citado no começo desse texto.
Na área de vendas, imóveis que tinham como atrativo a localização próxima ao trabalho e a grandes centros, agora começam a dar lugar para casas, em bairros mais afastados, segundo pesquisa da Newcore, aplicativo que aproxima potenciais compradores ao corretor autônomo de imóveis.
“Isso acontece não só em são Paulo, mas também em Porto Alegre e João Pessoa, outras praças onde atuamos”, explica Luiz Moraes, presidente da Newcore, que atua em 25 cidades e conta com cerca de 47 mil imóveis cadastrados.
Com a adoção do trabalho remoto por grande parte das empresas – e o fato de o novo sistema ter dado certo – muita gente quer continuar trabalhando de casa. E para isso, querem casas maiores.
“Nunca tivemos, por exemplo, tanta procura por casas na Riviera de São Lourenço. Muita gente quer morar na praia e trabalhar à distância”, explica Moraes.
Até mesmo quem não quer mudar de casa, está se preocupando mais em adaptar melhor seu imóvel para os novos tempos.
“Percebemos um crescimento em reformas residenciais porque, com a adoção do home office, o tempo em casa será maior e as pessoas vão querer se sentir bem dentro de seus lares”, explica Lorelay Lopes, chefe de negócios do UP Consórcios, que financia reforma em residências.
Os consórcios para serviços, que incluem as reformas, segundo ela, tiveram aumento de 42% na procura.