Dor não é normal: menopausa não significa o fim da vida sexual, dizem especialista

  • Joao Batista Freitas
  • Publicado em 18 de julho de 2026 às 19:00
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Especialistas alertam que dor e secura vaginal nem sempre são consequência da queda hormonal e podem ser tratadas com abordagem integrada

Durante muito tempo, a menopausa foi associada ao fim da vida sexual feminina. Embora as alterações hormonais desse período possam provocar sintomas como secura vaginal e diminuição da elasticidade dos tecidos, especialistas da Clínica Videlis, em Ribeirão Preto, alertam que muitas dessas queixas têm relação também com alterações musculares, emocionais e metabólicas que costumam passar despercebidas ao longo da vida.

Dor durante a relação sexual, ardor íntimo persistente e perda do prazer não devem ser encarados como consequências inevitáveis do fim da menstruação. Essas manifestações podem indicar disfunções que têm tratamento quando avaliadas de forma integrada.

De acordo com a fisioterapeuta Josiane Pavão, especialista em fisioterapia na saúde íntima, sexualidade e dor, a menopausa costuma evidenciar problemas que já vinham se desenvolvendo silenciosamente.

“A menopausa não paralisa a sexualidade. Ela mostra, com muita clareza, partes do corpo que nunca foram cuidadas. E a mulher acredita que é o fim, quando, na verdade, é o começo de um corpo que finalmente precisa ser ouvido”, afirma.

Muito além da reposição hormonal

A redução dos níveis de estrogênio favorece alterações na lubrificação e na elasticidade vaginal, mas esse é apenas um dos fatores envolvidos.

Na prática clínica, é comum encontrar mulheres com musculatura do assoalho pélvico excessivamente contraída, dificuldade de relaxamento e alterações na postura e na respiração, condições que podem intensificar a dor e comprometer a função sexual.

“A dor não está apenas no tecido, mas na forma como o corpo responde ao tato, ao movimento e à sensação de dor. A fisioterapia em saúde íntima atua justamente nessa reorganização funcional”, explica Marielle Yali, fisioterapeuta especialista em menopausa e climatério.

O que não é normal

Josiane comenta que um dos maiores desafios é a naturalização de sintomas. No consultório, ela ouve com frequência relatos de mulheres que acreditaram, durante anos, que dor na relação, secura vaginal ou até perda urinária faziam parte da menopausa.

“É comum ouvir frases como ‘achei que era normal doer’, ‘achei que era normal ter secura’, ‘achei que era normal perder xixi’. Mas nada disso é normal. Quando a mulher acredita que o sofrimento faz parte da vida, ela deixa de buscar ajuda e vai limitando sua rotina, sua autoestima e sua sexualidade”, explica.

Segundo a especialista, essa percepção costuma ser transmitida entre gerações e contribui para que muitas mulheres convivam por anos com sintomas tratáveis.

“As partes mais íntimas do corpo feminino sempre foram cercadas de silêncio. Quando esse corpo é ignorado por décadas, os sintomas aparecem com mais intensidade na menopausa. O nosso papel é mostrar que existe tratamento e que a mulher não precisa aceitar a dor como destino”, comenta.

O que ninguém explicou às mulheres

Durante muitos anos, dor, secura vaginal e perda do prazer foram atribuídas quase exclusivamente à queda hormonal. Josiane alerta que esse entendimento é incompleto e deixa de fora condições que afetam milhares de mulheres sem nunca serem diagnosticadas.

“O corpo dessas mulheres desenvolveu um padrão de proteção que faz qualquer toque ser interpretado como ameaça. Isso não é hormônio, é um sistema nervoso que precisa ser reeducado”, afirma.

Condições como vulvodínia, vestibulodínia e dispareunia – termos que a maioria das mulheres nunca ouviu -, podem se agravar no climatério porque o tecido está mais sensível. Mas, em muitos casos, essas alterações já estavam presentes muito antes da menopausa, camufladas por anos de adaptação silenciosa.

Mais do que o corpo: o silêncio e a naturalização do sofrimento

Além das mudanças físicas, o climatério costuma coincidir com um período de transformações pessoais e emocionais. Para a psicóloga Juliana Gontijo, muitas mulheres acabam acreditando que perder o prazer ou sentir dor fazem parte dessa fase da vida, o que contribui para o adiamento da busca por ajuda.

“Muitas mulheres chegam à consulta acreditando que perder o prazer ou sentir dor é parte esperada da idade. Isso gera um ciclo de baixa autoestima, afastamento do próprio corpo e, muitas vezes, afastamento do parceiro. O silêncio é clínico e ele impede o diagnóstico”, destaca.

Alimentação também influencia

A nutricionista Susana Merino explica que fatores metabólicos, como inflamação, resistência à insulina e deficiências nutricionais, também podem interferir na resposta sexual e na percepção da dor durante o climatério.

“O corpo responde de forma diferente aos estímulos nessa fase. A nutrição faz parte de uma estratégia que conversa diretamente com a saúde pélvica”, afirma.

Cuidado integrado devolve autonomia

As especialistas defendem um novo paradigma de cuidado: o tratamento da mulher na menopausa deve ir além da reposição hormonal. Não se trata de substituir ou negar a importância dos hormônios, mas de compreender quais fatores estão produzindo os sintomas em cada mulher.

“Nosso trabalho é entender como músculos, sistema nervoso e percepção corporal passaram a funcionar ao longo dessa história. Cada mulher chega com uma trajetória diferente, e é essa combinação de fatores que precisa ser cuidada”, afirma Marielle Yali.

Para Josiane Pavão, o principal recado é simples e direto: “Se dói, não é normal. Se não dá prazer, não é normal. E ninguém precisa esperar a menopausa para começar a se cuidar”.


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