​Dia de Finados: como a pandemia abalou o processo de luto

  • Joaquim Felix
  • Publicado em 2 de novembro de 2020 às 10:15
  • Modificado em 11 de janeiro de 2021 às 07:11
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Solidão e apoio social limitado agravam o sentimento da perda de um parente no Dia de Finados

“É o meu lençol, é o cobertor / É o que me aquece sem me dar calor / Se eu não tenho o meu amor / Eu tenho a minha dor”.

Os versos famosos de Marisa Monte e Arnaldo Antunes, em De mais ninguém (1994), bem que poderiam ajudar a traduzir o direito à dor e a todos os processos que envolvem o luto, que ganha dimensão inédita para esta geração por conta da pandemia da covid-19. 

Especialistas explicam que a emergência sanitária gerou diferentes consequências que ampliam as perdas, como a impossibilidade dos ritos de despedida e de uma retomada da vida como era antes.

“Precisam de um descanso / Precisam de um remanso / Precisam de um sono / Que os torne refeitos”.

Os versos de Gonzaguinha são lembrados pela psicóloga e pesquisadora Milena Câmara, que trabalha na cidade de Natal (RN). 

Ela é uma das brasileiras que atuam no grupo de estudos International Working Group on Death, Dying and Bereavement (Grupo de Trabalho Internacional sobre Morte, o Morrer e o Luto) e coordenou uma pesquisa sobre o impacto psicológico da morte para trabalhadores de cemitérios. 

Milena Câmara entende que o cenário atual significa um grande desafio emocional e psíquico. 

“Em um contexto como o de agora, há um rompimento com o cenário de antes. Todos precisamos de uma reestruturação desse mundo presumido e gerar, aos poucos, uma nova forma de se relacionar com a pessoa que morreu. A morte acaba com a forma, mas não acaba com o amor”.

Para as estudiosas ouvidas pela reportagem, diante de uma ruptura abrupta com a vida que conhecíamos, além das dúvidas sobre um “futuro esperado” – ambas geradas pela pandemia -, a sociedade deve prezar pelo apoio, respeito mútuo e ouvidos solidários, que são fundamentais para ajudar pessoas que perderam amores de vida.

“Eu uso a metáfora do tsunami para falar da pandemia. É uma onda que está passando e a gente está embaixo dela e não sabe quando vai acabar”, compara Elaine Alves, professora da Universidade de São Paulo (USP), pesquisadora em emergências e desastres.

A especialista avalia que a pandemia é um desastre diferente daqueles episódios que os pesquisadores estão acostumados. “Normalmente, no desastre, o outro não é um risco para nós. Nessa situação, o outro passou a ser um risco. Passamos a ter medo do outro”.

Nesta segunda (2), as homenagens nos cemitérios brasileiros deverão obedecer às legislações municipais e estaduais, o que inclui a obrigatoriedade do uso de máscaras, alertas contra aglomerações e medição de temperatura no acesso aos espaços públicos. 

Em Franca, por exemplo, há 3 cemitérios, que funcionarão até as 17 horas. 

Haverá disponibilização de álcool em gel. 

As autoridades de saúde reforçam a necessidade de cuidado especial em todo o país, inclusive para o caso de haver celebrações nos espaços. 

Por outro lado, a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) estimulou, durante a semana, uma campanha para se evitar aglomeração em cemitérios. 

A proposta é que as pessoas plantem uma árvore como homenagem ao ente falecido e também como forma de cuidar do meio ambiente. 

Dentro da campanha, a entidade pede que as pessoas tirem uma foto e publiquem no Instagram com a hashtag #CuidarDaSaudade.