Endometriose: 4 em cada 10 mulheres não sabem sobre o problema

  • Dayse Cruz
  • Publicado em 8 de maio de 2026 às 21:00
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Pesquisa mostra que 4 em cada 10 mulheres não conhecem a endometriose. Ginecologista explica sintomas, diagnóstico tardio e o que precisa mudar

A endometriose é uma doença inflamatória crônica em que o tecido semelhante ao endométrio, parte interna do útero, cresce fora dele (Foto Shutterstock)

 

No Dia Internacional de Luta contra a Endometriose, uma pesquisa inédita revela um dado alarmante. Quatro em cada 10 mulheres no Brasil não sabem detalhes sobre a condição, e 30% nunca buscaram nenhuma informação sobre o tema.

Os números reforçam um cenário preocupante de subdiagnóstico e atraso no tratamento de uma doença que atinge milhões de brasileiras e impacta diretamente a qualidade de vida, a saúde mental e a fertilidade.

Afinal, o que é a endometriose?

A endometriose é uma doença inflamatória crônica em que o tecido semelhante ao endométrio, parte interna do útero, cresce fora dele.

Essa condição afeta cerca de 10% das mulheres e meninas em idade reprodutiva no mundo, o equivalente a aproximadamente 190 milhões de pessoas.

O Ministério da Saúde estima que entre 5% e 15% das mulheres convivem com a condição. Apesar da prevalência, o diagnóstico demora cerca de 3,8 anos para ser estabelecido. O levantamento é da Ipsos, realizado a pedido da Bayer, com 800 brasileiras entre 18 e 60 anos.

Os sintomas que não devem ser ignorados

Os sinais da endometriose costumam aparecer desde as primeiras menstruações, mas são frequentemente minimizados. Abaixo, listamos os mais comuns:

– Cólica menstrual intensa, que chega a ser incapacitante.
– Dor pélvica crônica, inclusive fora do período menstrual.
– Inchaço abdominal persistente.
– Sangramento intenso durante a menstruação.
– Dor durante ou após a relação sexual.
– Alterações intestinais e urinárias no período menstrual.
– Fadiga crônica e cansaço constante.
– Dificuldade para engravidar.

O principal alerta está na intensidade e na frequência da dor. Cólicas que afastam do trabalho, da escola ou das atividades diárias nunca devem ser tratadas como normais.

O problema do diagnóstico tardio

Embora 10% das mulheres tenham diagnóstico confirmado, outras 13% suspeitam ter endometriose, evidenciando uma lacuna importante entre sintomas e confirmação médica, segundo a pesquisa da Ipsos.

O caminho até o diagnóstico é longo e marcado por insegurança. Em média, são 3,8 anos entre o início dos sintomas e a confirmação, período cheio de dor e múltiplas consultas sem resposta.

O Ministério da Saúde aponta que essa média pode chegar a sete anos em alguns casos.

“Mesmo com tantos avanços nas discussões sobre saúde da mulher, ainda vemos um grande negligenciamento quando o assunto é dor e incômodo. É preciso que haja uma escuta ativa do relato da paciente, tanto no ambiente familiar quanto nos serviços de saúde”, afirma o ginecologista Rodrigo Mirisola.

A invalidação da dor feminina

A pesquisa revela um dado que vai além do sistema de saúde. Entre as mulheres diagnosticadas, 77% afirmam já ter tido seus sintomas minimizados ou desconsiderados.

Esse descrédito acontece principalmente em dois ambientes:

No ambiente familiar: 41% relatam que a família minimizou os sintomas.
No consultório médico: 32% apontam ginecologistas como fonte de invalidação.

Quase metade das entrevistadas (46%) ouviu que os sintomas poderiam ser resultado de estresse ou cansaço. E 45% foram classificadas como “dramáticas” ou “exageradas” em algum momento da jornada.

As desigualdades no acesso ao tratamento

Os dados do Sistema Único de Saúde mostram um crescimento de 76,2% nos atendimentos relacionados à endometriose entre 2022 e 2024, passando de 82.693 para 145.744 registros.

O número reflete maior consciência sobre a doença, mas as barreiras ainda são grandes.

As diferenças entre o sistema público e privado são expressivas:

– Pílulas anticoncepcionais foram indicadas a 50% das usuárias do SUS e a 67% na rede privada.

– Cirurgia por videolaparoscopia foi ofertada a 20% das pacientes do SUS, contra 55% na rede privada.

– DIU hormonal foi indicado a apenas 15% das mulheres, com maior acesso entre as de maior renda.

– Longas filas para especialistas são apontadas por 41% das usuárias do SUS como barreira principal.

Como é feito o diagnóstico

O diagnóstico começa pela avaliação clínica detalhada e pelo histórico médico da paciente. A escuta dos sintomas é o primeiro passo e pode indicar o tratamento mesmo antes dos exames de imagem.

Os principais exames utilizados na investigação são:

– Ultrassonografia transvaginal com preparo intestinal.
– Ressonância magnética de pelve com contraste.
– Dosagem sanguínea do marcador Ca-125.
– Laparoscopia, considerada o método definitivo de confirmação.

“Encurtar a jornada da paciente é um ato de respeito e legitimação da sua dor, bem como promover alternativas eficazes para individualizar a terapia, promovendo o cuidado mais adequado e oportuno para cada mulher”, conclui o ginecologista Rodrigo Mirisola.

Fonte: Alto Astral


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