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Teste da saliva permite detectar diferenças na carga viral de coronavírus

  • Nene Sanches
  • Publicado em 19 de junho de 2021 às 21:30
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Dados preliminares sugerem que homens têm mais vírus na saliva que mulheres, mas ainda é necessária a confirmação com estudos maiores

O teste é feito com saliva, o que facilita o processo (Foto: Freepik)

Exame de saliva desenvolvido na USP é capaz de apontar uma diferença de carga viral não detectada nos testes feitos com amostras tiradas do nariz e faringe.

Testes feitos em pacientes com covid-19 sugerem, por exemplo, que os homens têm uma maior carga de vírus na saliva do que mulheres, algo que não aparece nos swabs de nasofaringe.

Segundo os pesquisadores, essa diferença precisa ser confirmada por novos estudos, envolvendo um maior número de casos e em outros contextos.

O resultado foi obtido em um estudo preliminar coordenado pelo Centro de Pesquisa sobre Genoma Humano e Células-Tronco (CEGH-CEL), do Instituto de Biociências (IB) da USP.

Preprint

Os pesquisadores desenvolveram um teste rápido para detecção do coronavírus, que pode ser feito em locais com pouca infraestrutura, com menos custos.

Os dados do trabalho são apresentados em preprint (versão prévia de artigo científico, ainda sem revisão) publicado no site medRxiv em 9 de junho.

O objetivo inicial foi desenvolver um teste diagnóstico baseado na técnica RT-LAMP, que fosse mais barato, que não dependesse de insumos importados ou disponibilidade de infraestrutura laboratorial sofisticada.

O pesquisador Gerson Kobayashi, do CEGH-CEL, primeiro autor do trabalho, também queria um teste permitisse um rápido diagnóstico, num período de 24 horas.

O RT-LAMP é uma técnica de amplificação e detecção de material genético semelhante ao RT-PCR, porém é mais rápida, mais barata e não requer equipamentos especializados para sua execução.

Metodologia

Para desenvolver a metodologia, os pesquisadores usaram cerca de 150 amostras de saliva coletadas de pacientes com sintomas de covid-19, em colaboração com o Instituto de Medicina Tropical (IMT) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e com a empresa Prevent Senior.

“Para determinar o seu potencial no diagnóstico, também analisamos a carga viral nestas salivas e comparamos com dados do teste RT-PCR feito em swabs de nasofaringe, que é o padrão ouro atual para diagnóstico de covid-19”, diz o pesquisador.

De acordo com Kobayashi, no teste de saliva, a interpretação dos resultados pode ser feita na mudança de cor dos tubos que ocorre durante a reação.

“Desenvolvemos uma solução que estabiliza o genoma do vírus na saliva, assegurando uma alta taxa de detecção por RT-LAMP e eliminando procedimentos de isolamento e purificação deste material, que são necessários para o teste de RT-PCR padrão e que consomem tempo e recursos”, relata.

“Esta solução é composta de ingredientes acessíveis e disponíveis na maioria dos laboratórios”, explica.

Carga viral

A pesquisa verificou que a quantidade de vírus na saliva é maior nos primeiros dias de sintomas e decai consideravelmente dentro de dez dias, o que corresponde a dados recentes de transmissibilidade da doença.

“Também verificamos que homens possuem cerca de dez vezes mais vírus na saliva do que mulheres, particularmente em indivíduos abaixo dos 40 anos de idade, o que pode estar relacionado à maior chance de desenvolvimento de sintomas graves observada em homens”, explica Kobayashi.

“Não obtivemos esses resultados para os swabs de nasofaringe, o que sugere que a saliva se correlaciona melhor com a dinâmica de transmissão e infecção do vírus.”

(Publicado no Jornal da USP, com texto de Júlio Bernardes e Arte de Lívia Magalhães)


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