Silvio Santos chega aos 90 anos em meio a lendas que criou sobre si mesmo

  • Salvador Netto
  • Publicado em 12 de dezembro de 2020 às 23:11
  • Modificado em 11 de janeiro de 2021 às 11:23
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Por causa da pandemia, o apresentador e empresário está afastado das gravações desde março

(Vitor Moreno – Folhapress) – Sem comemorações públicas, Silvio Santos chegou aos 90 anos neste sábado (12). O fato é que, de acordo com a assessoria de imprensa do SBT, não vai haver nada de diferente na programação do canal.

Por causa da pandemia de coronavírus, o apresentador e empresário está afastado das gravações desde março, quando voltou das férias de final de ano. 

No final de 2019, ele também passou um tempo sem gravar devido a uma forte gripe. Ou seja, já faz cerca de um ano que ele não pisa no estúdio, algo inédito praticamente desde a estreia dele na TV – seu primeiro programa, “Hit Parade”, estreou em 7 de fevereiro de 1958 na TV Paulista, atual TV Globo.

Ao contrário de outros comunicadores que fazem parte do grupo de risco, o Homem do Baú não aderiu às gravações caseiras –ele também não faz uso de redes sociais. 

Em 2020, a única “aparição” foi em um vídeo enviado ao empresário Luciano Hang, notório apoiador do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), por ocasião da inauguração de uma loja.

Ele também se manifestou em nota comemorando a compra dos direitos da Copa Libertadores pelo SBT. “O público do SBT vai vibrar mais ainda com os gols que serão feitos na Libertadores”, prometeu em setembro.

No mês seguinte, foi divulgada uma carta dele a Marcondes Gadelha, autor do livro “Sonho Sequestrado”, sobre a campanha do apresentador à Presidência da República nas eleições de 1989. 

“Como muito de meus órgãos, incluindo o óbvio, que não funciona há muito tempo, minha memória a cada dia que passa vai se apagando vagarosamente”, brincou.

“Este seu livro me lembra de acontecimentos que eu já tinha esquecido e me deixa emocionado a cada página que leio”, continuou. 

“Considero que estava qualificado para exercer a Presidência da República e tenho certeza de que a equipe que escolheria, no mínimo, melhoraria as condições das pessoas mais necessitadas neste país.”

Porém, caso tivesse sido eleito, Silvio provavelmente teria de passar por cima de uma de suas maiores resoluções pessoais: a de não conceder entrevistas. 

Segundo conta, isso foi recomendado por uma vidente que ele visitou nos Estados Unidos. “Não dê entrevista, não faça filme, não escreva livros”, teria dito ela, afirmando que ele morreria no dia seguinte se fizesse uma dessas coisas.

Na realidade, essa pode ser apenas mais uma das lendas que o apresentador criou para si mesmo (até 1985 ele dizia ter 5 anos a menos). Em um programa antigo, cuja data não foi possível confirmar, ele dá outra explicação a uma jovem Sonia Abrão, 62.

“Quando os jornalistas chegavam perto de mim, diziam: ‘Silvio Santos, vem cá, responde tal coisa’. Eu respondia, perdia meu tempo e aí eles colocavam tudo diferente daquilo que eu respondi”, reclamou. 

“‘Qual é o prato que você gosta?'”, exemplificou. “Eu sou carioca, gosto de arroz, feijão-preto, bife com batata frita, que é o que eu comi toda a minha vida. ‘Não, não é possível, você é rico, gosta de estrogonofe’. Tá bom, então coloca estrogonofe.”

A partir daí, ele mudou de postura. “Vamos fazer o seguinte: fala o que você quiser, você é jornalista, tem que preencher uma folha de papel em branco. Ok, ganha a tua vida, faz o que você quiser, não vou telefonar nunca para o teu patrão, agora não com a minha colaboração”, afirmou.

O leitor pode escolher a versão da qual mais gosta, mas de fato são cada vez mais raras as exceções nos últimos anos. Uma delas foi uma entrevista para a colunista Mônica Bergamo, da “Folha de S.Paulo”. 

Na época, ele disse que, se alguém pagasse o que ele devia ao FGC (Fundo Garantidor de Crédito), que emprestou dinheiro à holding dele para cobrir o rombo do banco PanAmericano (que em 2011 passou a ser controlado pelo grupo BTG Pactual), ele venderia o SBT. “Arranja para mim que eu te dou uma comissão”, brincou.

Em 2014, ele também deu entrevista à “Veja São Paulo” em Orlando, nos Estados Unidos, onde tem casa. Entre outras coisas, ele contava levar uma vida absolutamente normal e até lavar os pratos, já que a mulher, Íris Abravanel, fazia a comida.

Na entrevista, ele também disse não ter nenhum sonho ainda por realizar. “Quero continuar vivendo até quando der”, afirmou. “Como sei que vou morrer, quero morrer sem ir para o hospital. Não chega a ser um sonho, mas uma coisa que desejo. Aos 83 anos, sei que posso embarcar a qualquer momento.”

Agora, se o SBT não tem intenção de fazer nada de especial, o mesmo não se pode falar da concorrência. Na Record, Roberto Cabrini (que saiu da emissora de Silvio neste ano) promete mostrar no “Domingo Espetacular” um acervo inédito de imagens do apresentador.

O programa vai abordar a infância humilde no Rio de Janeiro, os tempos de ambulante na balsa Rio-Niterói e a virada de mesa que ele deu ao se tornar apresentador e, depois, dono de uma das maiores emissoras de TV do Brasil (além de diversas outras empresas).

A vida de Silvio, de fato, é tão complexa que já foi tema de diversas biografias e análises. Dificilmente, caberia num filme. Na TV paga, vai virar série. 

A produtora Gullane começa a produção da primeira leva de episódios em janeiro de 2021 para exibição nos canais Fox. No papel do protagonista, estará o veterano José Rubens Chachá, 66.