Usuários que publicam excessivamente assuntos pessoais podem enfrentar críticas, ridicularização ou ameaças e até desenvolver ansiedade
A superexposição emocional nas redes sociais virou rotina: vídeos de choro, desabafos sobre demissão, inseguranças profundas… isso é oversharing ( Foto Arquivo)
A superexposição emocional nas redes sociais virou rotina: vídeos de choro, desabafos sobre demissão, inseguranças profundas… O que antes ficava entre amigos ou num diário agora chega a milhões.
Esse fenômeno, chamado de oversharing, cresce rápido, impulsionado pela busca por empatia, validação e sensação de pertencimento.
No TikTok, a tendência #socialmediaisfake reúne jovens — especialmente da Geração Z — contando medos e vulnerabilidades.
No Reddit e afins, tópicos de confissão ganham vida com histórias de solidão, ansiedade e desabafos que recebem conselhos de completos desconhecidos.
Nas famílias, o “sharenting” mostra outro lado da moeda: pais que expõem a vida dos filhos sem perceber que isso pode afetar a autoestima e a privacidade das crianças.
O que há por trás desse comportamento
Por que fazemos isso? Parte vem da validação: curtidas, comentários e mensagens ativam mecanismos de recompensa no cérebro, gerando uma sensação de conforto imediato.
Mas é simplista demais reduzir tudo à dopamina. O fenômeno envolve também cultura, necessidade de apoio e busca por conexão real.
Pesquisas mostram que falar de saúde mental online pode, sim, abrir portas para redes de apoio, ajudar no enfrentamento de crises e criar laços de pertencimento — especialmente durante momentos difíceis, como a pandemia.
Outro fator é a catarse: colocar emoções para fora ajuda a organizar pensamentos, seja num texto, num vídeo ou num desabafo público.
Riscos da superexposição
Mas há riscos importantes. A exposição pode virar munição para críticas, ataques e humilhações virtuais. A comparação social também pesa: ver tantos relatos íntimos pode gerar pressão para se expor da mesma forma, mesmo quando não estamos prontos.
E, quando o bem-estar passa a depender de curtidas, qualquer postagem com pouca repercussão pode machucar — reforçando o ciclo do compartilhamento excessivo.
Outro problema é a permanência: mesmo apagado, o conteúdo pode seguir circulando em prints, impactar reputações e reaparecer anos depois.
No caso do “sharenting”, o dano potencial é ainda maior, já que as crianças não têm controle sobre a própria imagem.
Por isso, antes de postar, vale uma pausa sincera: O que estou buscando? Validação? Apoio real? Criar limites claros — decidir o que não queremos expor — é essencial para o equilíbrio emocional. As próprias redes oferecem ferramentas úteis, como listas de “amigos próximos”, restrições de comentários e ajustes de privacidade.
E, claro, o offline continua insubstituível. O apoio presencial de amigos, familiares ou profissionais tende a ser mais profundo e constante do que interações digitais.
Combinar apoio online com suporte real funciona ainda melhor. Para quem precisa desabafar sem se expor, registros privados — como diários, notas de voz ou expressões artísticas — também são alternativas seguras.
No fim, o oversharing revela um paradoxo: buscamos conexão e autenticidade, mas nos colocamos vulneráveis em espaços cheios de julgamento.
Compartilhar pode ajudar, mas preservar a privacidade emocional é um ato poderoso de autocuidado — e, muitas vezes, o mais necessário.