Na contramão do caminho

  • Cesar Colleti
  • Publicado em 5 de dezembro de 2017 às 14:22
  • Modificado em 29 de outubro de 2020 às 23:54
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Foi uma vitória suada; suada, difícil e cara.
Neste momento, dez entre dez analistas dizem que o Governo acabou, que Michel
Temer não tem força nem para se livrar da obstrução urinária sem fazer shopping
parlamentar. Ficará manquitolando à espera do último dia de seu mandato.

Só que não é assim: vitória suada e cara também vale três
pontos. Se, no momento em que enfrentava uma denúncia que poderia afastá-lo do
cargo, ele sobreviveu, tem tudo para ganhar forças depois de livrar-se de
Janot. O presidente tem muitos fatores a favor: o exercício do poder, que lhe
permite preencher o 
Diário Oficial e dar apoio
a algum candidato à Presidência, o fim das denúncias e esplêndidos resultados
econômicos. Depende dele: não adianta usar Moreira Franco, Padilha e Eunício
para divulgar boas notícias, porque neles ninguém vai acreditar. Mas, abrindo
seu Governo à luz do Sol e tirando os suspeitos de sempre de seu lado, terá
tudo para virar o jogo.

As exportações por Santos se aproximam de 100 milhões de
toneladas, e vão batendo recordes. A balança comercial deve ter superávit de
US$ 70 bilhões até o final do ano – recorde absoluto. A taxa de juros, em um
ano e pouco de Temer, caiu à metade do que era com Dilma: foi de 14,25% a 7,5%.
Há leves sinais de melhora da atividade – que ficarão mais visíveis a partir da
taxa de juros mais baixa, que facilita os investimentos. Afastando a turma
vetusta para que a equipe econômica cresça, Temer cresce com ela.

A vista…

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) acha que
Temer não terá força para votar a reforma da Previdência. Maia deve entender
bem os sentimentos parlamentares, ou não se elegeria presidente; mas é verdade,
ao mesmo tempo, que sua maior credencial é o pai, César Maia. Antes dos atuais
episódios, poucos tinham ouvido falar de Rodrigo Maia.

O fato é que Temer está disposto a votar, ainda neste ano,
a reforma da Previdência. Temer também conhece os sentimentos parlamentares,
tanto que, sem apoio familiar externo, se elegeu três vezes presidente da
Câmara. E, tendo sido quem convenceu Suas Excelências a ficar a seu lado, sabe
perfeitamente quanto custa um voto, e qual seu prazo de validade.

…e a prazo

Quem foi abençoado com cargos para votar contra a aceitação
da denúncia contra Temer pode, de uma hora para outra, perdê-los: não tem como
retirar seu voto. Não pode, portanto, virar oposição a Temer, sem entrar no
prejuízo, de uma hora para outra. Para aprovar a reforma, Temer precisará de
308 votos – os 251 que rejeitaram a denúncia contra ele, mais 57. Temer
acredita que, entre os 107 deputados governistas que votaram contra ele, há
pelo menos 57 favoráveis à reforma. E Suas Excelências sabem que, ao votar
contra a reforma, estarão votando contra os cargos que seus partidos tiverem
recebido; estarão contra a equipe econômica, bem na hora em que a economia
mostra sinais de recuperação; e estarão contra um possível – e forte –
candidato à Presidência, o ministro Henrique Meirelles.

A hora do sonho

Quando Meirelles voltou para o Brasil, depois de boa
carreira no Banco de Boston, tinha um plano em duas etapas: primeiro, eleger-se
governador de seu Estado, Goiás; segundo, tentar a Presidência. Entrou no PSDB,
com a proposta de pagar sua própria campanha, sem doações. Havia, entretanto,
um obstáculo intransponível: o cacique tucano de Goiás, Marconi Perillo.
Meirelles então se elegeu deputado federal.

Nem tomou posse: Lula, eleito ao mesmo tempo, convidou-o
para presidente do Banco Central. Mas seu sonho se manteve: está no PSD de
Kassab, seu trabalho na Fazenda vai bem, Temer não tem outro nome. Entre Lula
(ou poste de plantão), Alckmin e Bolsonaro, Meirelles pode ser o
candidato-novidade, sem processos, capaz de viajar a Curitiba a passeio, sem
medo, e com Temer.

Atenção em Lula

Lula disse que está na hora de parar de gritar “Fora,
Temer”. Por que?

Amigos…

Lula não se transformou, de uma hora para outra, em
apreciador de Temer. Soltou até, em Minas, uma frase venenosa (que, embora
atinja a 
posta de
sua escolha, derrama mais peçonha no adversário): “Como Deus escreve certo por
linhas tortas, as pessoas que diziam que a Dilma era uma desgraça perceberam
que Temer era desgraça e meia”.

…inimigos

Na verdade, Lula não tinha como falar isso sem atingir
aliados. Quem foi que montou a chapa Dilma-Temer que ganhou a eleição?

Mas Lula provavelmente está estudando o terreno, escolhendo
os adversários de campanha. Pois sua caravana, que deve percorrer o país
inteiro, não está repetindo o sucesso da Caravana da Cidadania, de antes de se
eleger presidente. É pouca gente e muita vaia.

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