Mito ou desculpa para homens dramáticos? Especialistas explicam a ‘gripe masculina’

  • Rosana Ribeiro
  • Publicado em 5 de setembro de 2025 às 21:00
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Diferenças imunológicas e comportamentais entre os sexos podem influenciar como cada um sente resfriados

A gripe masculina, parodiada há anos, não é uma doença diagnosticável. Nem todos os homens se tornam fatalistas diante de resfriados comuns (Foto Arquivo)

 

De acordo com o Dicionário de Cambridge, a gripe masculina é “uma doença como um resfriado que não é grave, mas que a pessoa que a tem trata como mais grave, geralmente quando essa pessoa é um homem”.

Segundo o humorístico Urban Dictionary, a gripe masculina é “mais dolorosa que o parto”.

É claro que a gripe masculina, parodiada há anos, não é uma doença diagnosticável. Nem todos os homens se tornam fatalistas diante de resfriados comuns — assim como algumas mulheres podem reagir de forma exagerada.

Diferenças imunológicas entre os sexos

Especialistas afirmam que, no fundo da piada, há diferenças imunológicas reais entre os sexos, presentes não apenas em humanos, mas também em outras espécies.

“Há algo de verdadeiro na ideia de que homens e mulheres sofrem os efeitos da infecção de maneira diferente”, disse Marlene Zuk, professora de ecologia, evolução e comportamento na Universidade de Minnesota.

Homens tendem a ter sistemas imunológicos mais fracos. Estudos indicam que eles são mais propensos a apresentar infecções graves do que mulheres.

Isso ficou evidente nos primeiros dias da pandemia de Covid-19, quando os homens registraram taxas maiores de hospitalização e mortalidade. O mesmo padrão ocorreu na pandemia de gripe de 1918, que matou muito mais homens do que mulheres.

Diferença comportamental

Parte dessa diferença pode ser comportamental, explica o Dr. Matthew Memoli, pesquisador do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas.

Homens, em geral, tomam menos precauções para evitar doenças, como usar máscara ou lavar as mãos.

Além disso, tendem a adotar hábitos prejudiciais à saúde, como fumar e consumir álcool, e relutam mais em buscar atendimento médico, o que pode agravar os sintomas.

Contudo, pesquisas com animais e humanos mostram que também há fatores biológicos.

Fatores biológicos

“As mulheres frequentemente desenvolvem respostas imunológicas mais intensas, independentemente da doença”, afirma Sabra Klein, professora de microbiologia molecular e imunologia na Universidade Johns Hopkins.

Antes mesmo da infecção se instalar, células imunológicas femininas detectam invasores como vírus e bactérias mais rapidamente.

Quando identificada a ameaça, o sistema feminino libera mais proteínas inflamatórias, chamadas citocinas, e produz mais anticorpos em resposta a vírus e vacinas, aumentando a eficiência na defesa contra infecções.

“Mulheres tendem a iniciar essas respostas rapidamente, com maior ativação e produção de proteínas imunológicas”, completa Klein.

Genética, hormônios e evolução

Acredita-se que a genética tenha papel relevante nessas diferenças.

Muitos genes do sistema imunológico estão no cromossomo X, e como mulheres têm dois cromossomos X, a função desses genes — como detectar vírus ou produzir citocinas — é ligeiramente mais eficiente durante infecções, explica Montserrat Anguera, professora associada de ciências biomédicas na Universidade da Pensilvânia.

Hormônios sexuais também influenciam: a testosterona parece inibir certos aspectos do sistema imunológico, enquanto o estrogênio os potencializa, embora possa também moderar a resposta inflamatória.

Especialistas sugerem que essa lacuna imunológica entre homens e mulheres tenha origem evolutiva, relacionada à reprodução.

Zuk propõe que a biologia masculina prioriza a procriação em detrimento da longevidade, enquanto a feminina favorece a sobrevivência para cuidar da prole.

Mas isso significa que a gripe masculina é real?

Pesquisas recentes indicam que, na verdade, mulheres relatam sintomas mais intensos em infecções respiratórias leves.

Um estudo em que jovens saudáveis foram infectados deliberadamente com vírus da gripe mostrou que mulheres apresentaram mais sintomas e se sentiram pior do que os homens.

“O sistema imunológico mais forte pode gerar sintomas mais frequentes e intensos”, explica Klein. Muitas manifestações da doença — febre, fadiga, congestão — são consequência da própria resposta imunológica.

Memoli reforça: “Um sistema imunológico ativo protege, mas pode, em excesso, prejudicar”.

Em casos extremos, essa hiperatividade imunológica também pode causar sintomas prolongados. Mulheres são mais suscetíveis a síndromes pós-infecção, como a Covid longa, em parte devido a respostas imunológicas mais intensas.

Independentemente do sexo, ficar doente é desagradável. Portanto, se alguém próximo reclamar do mal-estar, evite julgamentos — e, de preferência, incentive a procurar um médico.

Fonte: O Globo


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