‘Efeito de vacina só em maio’, diz diretor do Butantan em Batatais, onde nasceu

  • Salvador Netto
  • Publicado em 9 de janeiro de 2021 às 21:00
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Dimas Covas disse que a redução dos casos positivos e das mortes será progressiva porque imunizante não impede infecção, mas gravidade

Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan diz que tem seis milhões de doses prontas

O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, disse, neste sábado (9), que a queda nos números de casos de Covid-19 e de mortes após a aplicação da vacina só deve ser percebida a partir de maio.

“Efeito de vacina só a partir de maio desse ano. Antes de maio, não teremos impacto de vacinação na pandemia. Vamos começar a ter diminuição de óbitos, progressiva, diminuições de internação, progressiva, mas isso só se vai sentir de fato a partir de maio.”

A declaração foi dada durante evento no Centro Universitário Claretiano, em Batatais. Segundo Covas, o impacto não é imediato porque as vacinas que estão sendo usadas não impedem a doença, mas a gravidade dela.

O diretor disse ainda que após a imunização a ocorrência do Sars-Cov-2, vírus que provoca a Covid-19, se torne sazonal. Desta forma, Covas acredita que a vacina vir a ser incorporada ao calendário nacional.

A expectativa dele é que, a longo prazo, com o aprimoramento dos imunizantes desenvolvidos, seja necessária apenas uma dose por tempo determinado.

Cenário preocupante
No momento em que o Brasil ultrapassa as 201 mil mortes causadas pela Covid-19 e chega aos 8 milhões de infectados, Covas afirmou que a previsão é que a pandemia ganhe força até fevereiro.

Segundo ele, as pessoas perderam o medo do vírus e os jovens voltaram a ter uma atividade social. Com a circulação maior de pessoas, o diretor disse que há maior transmissão da doença.

Ele alertou ainda para um possível risco de colapso na rede de saúde porque os hospitais enfrentam dificuldade em contratar mão de obra.

Natural da Batatais
Muita gente não sabe, mas o diretor do Butantan (está à frente do Instituto há três anos) é natural de Batatais. Filho de um carteiro e de uma dona de casa, Covas nasceu e cresceu naquele município, perto de Franca, onde ainda moram a mulher, a biomédica Claudia, e a filha Giulia, de 17 anos; Lorenzo, o filho de 23 anos, estuda na Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo.

Foi um adolescente fissurado por Freud, por filosofia, por ciência. Entrou para a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo e estava no meio do doutorado quando, na década de 1980, estourou o que até hoje considera um dos maiores baques de sua trajetória médica e um momento em que intuiu que a ciência não pode tudo.

Vírus até ali desconhecido, o HIV começou a infectar também pacientes fora dos grupos de risco que precisavam de transfusões de sangue. “De repente, 60% dos meus pacientes com hemofilia foram contaminados por transfusões que eu prescrevia, sem saber que o sangue não era seguro. Foi um choque muito grande”, lembra.

A comunidade científica começou a se organizar para garantir a qualidade do sangue e Covas foi convidado para integrar um grupo que instalaria uma rede de hemocentros no Estado de São Paulo.

Logo depois, foi encarregado de montar o Hemocentro de Ribeirão Preto. “Ali começou a grande dedicação da minha vida, o meu envolvimento com a Saúde Pública”, diz.

O médico representa uma escola com visão extremamente prática da ciência. Ligado ao desenvolvimento em biotecnologia, acredita em pesquisas que levem a algum lugar: ou a um medicamento, ou a um tratamento, ou a um diagnóstico.

Orgulha-se de uma carreira com resultados palpáveis. Foi o primeiro no Brasil, por exemplo, a desenvolver proteínas recombinantes para tratamento de hemofilia, recurso hoje corriqueiro.

Por causa dessa atuação intensa e pé no chão na hematologia, acabou em contato próximo com o Instituto Butantan quando se resolveu que, além de fazer vacinas e soros, o lugar abriria uma fábrica de hemoderivados.

Em 2017, o Butantan entrou em uma crise que culminou no afastamento do imunologista Jorge Kalil de sua direção. Covas foi convidado às pressas pelo então secretário de Saúde, David Uip, para assumir o Instituto.

Olhando a instituição de perto, concluiu que ela sofria de crise de identidade. “Fazia pesquisa, produção, ensino, cultura. No conjunto, parecia ter sentido, mas quando você analisava melhor, era mais um ajuntamento de coisas.”

Sentado na cadeira de diretor, Covas anunciou que o grande ativo do Butantan seriam as sete vacinas que produz e fez um plano de voo para colocá-las no mercado internacional – a meta para 2020 era incluir o instituto entre os três maiores produtores do mundo, atrás de multinacionais como a francesa Sanofi e a britânica GSK.

Refez a fábrica da vacina contra a gripe e a embicou no mercado como a maior do Hemisfério Sul. No ano passado, viajou pelo planeta atrás de parcerias.