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Dia de São Jorge: conheça a verdadeira história e origem do ‘santo guerreiro’

  • Rosana Ribeiro
  • Publicado em 23 de abril de 2021 às 17:30
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Dia 23 de abril é celebrado o dia de São Jorge, santo da igreja católica que também está presente em religiões de matriz africana

Dia 23 de abril é celebrado o dia de São Jorge, que no sincretismo religioso é Ogum

 

23 de abril é um dia em que muitas pessoas acendem velas para São Jorge. A data é importante no calendário católico a ponto de ser feriado em determinadas regiões.

Inspirador de diversas canções e com profundas relações com times de futebol como o Corinthians, São Jorge também expandiu sua veneração para além das fronteiras brasileiras.

O santo é o padroeiro da Inglaterra, além de ser festejado na Espanha (sobretudo na região da Catalunha), em Portugal, no Canadá, na Lituânia, na Rússia, na Bulgária, entre outros países.

São Jorge, inclusive, é um dos poucos santos venerados pela igreja católica e pela igreja ortodoxa. A igreja anglicana também tem Jorge entre os seus canonizados.

Mas quem foi São Jorge?

A HISTÓRIA DE SÃO JORGE

A primeira coisa a saber sobre São Jorge é que não é possível confirmar se ele existiu, de fato, ou não. Isso se aplica a muitos santos da antiguidade cristã.

“Não temos muitos registros históricos sobre a figura de São Jorge. Temos aquilo que nos foi passado pela tradição”, conta Dayvid da Silva, professor e coordenador do curso de Teologia da PUC-SP.

A tradição, então, diz o seguinte: Jorge teria nascido por volta do ano 280 d.C. na Capadócia, atual Turquia, e se mudou mais tarde para a região da Palestina. Ao longo da vida, ele se alistou no Exército do Império Romano.

Jorge, que era cristão, foi morto em 303 d.C. porque teria se negado a matar e perseguir cristãos – uma ordem direta de Diocleciano, então imperador romano.

Por esta razão, conta a história que Jorge foi decapitado no dia 23 de abril. Essa data seria lembrada depois como o dia de homenagens ao santo.

O local da morte é incerto. Algumas fontes apontam que o futuro santo guerreiro teria sido assassinado na cidade de Lida, em Israel, onde os supostos restos mortais repousam até hoje. Já outras apontam a cidade de Nicomédia, na Turquia.

O SURGIMENTO DO SANTO GUERREIRO

Embora a figura histórica de São Jorge não tenha a existência comprovada, a santidade de Jorge da Capadócia surge tempos depois do dia 23 de abril de 303 d.C..

“Nos séculos 6 e 7 já há padres da igreja mencionando São Jorge. Com o fim da perseguição aos cristãos e depois com a cristianização do Império Romano em 380 d.C., a memória dos cristãos que deram sua vida antes os transformou em mártires”, explica Fernando Torres Londoño, professor do departamento de História da PUC-SP.

Como, então, um mártir se converteu em um guerreiro montado em um cavalo, empunhando uma lança diante de um dragão cuspindo fogo?

A resposta está na Espanha, a partir do século 8.

“Com as conquistas dos cristãos do norte de Espanha sobre os territórios ocupados pelos reinos árabes, os santos associados à cultura militar tiveram grande valorização, entre eles São Jorge”.

“Ele passou a ser visto como protetor dos cristãos contra os mouros, como se tivesse aparecido no céu para acompanhar os cristãos nas suas vitórias”, diz Londoño.

As cruzadas deram ainda mais força à mitologia de São Jorge. Por volta do ano 1096, soldados cristãos rumaram a Jerusalém com o intuito de conquistar a chamada Terra Santa.

“Com as primeiras cruzadas, a fama de São Jorge se expandiu ao regresso dos soldados à Europa”.

“Capelas em nome do santo que teria protegido os cristãos dos muçulmanos se levantaram por toda Europa e um dos símbolos do santo, a cruz com as quatro pontas iguais em vermelho, se espalhou por brasões e bandeiras”, acrescenta Londoño.

SÃO JORGE CONTRA O DRAGÃO

Lenda, mesmo, o santo guerreiro virou a partir de 1290.

Nesta época, um escriba dominicano conhecido como Jacopo de Varazze compilou histórias dos primeiros santos em um livro conhecido como “Lenda Dourada”.

São Jorge estava nas páginas – mas a história do soldado turco ganhou ares muito diferentes.

No capítulo dedicado a São Jorge há a história de uma cidade que sofre com um dragão que queimava casas e contaminava a água. Para acalmar o monstro, jovens virgens eram entregues para sacrifício.

“Quando foi a vez da filha do rei, São Jorge teria aparecido montado em seu cavalo. Após vencer o dragão, o santo teria cortado a cabeça do animal. Toda a cidade se converteu ao cristianismo depois do episódio”, contou Londoño.

SÃO JORGE E OGUM: SINCRETISMO BRASILEIRO

São Jorge é um dos santos com maior devoção no Brasil. Isso é notório com a presença dele em letras de música, sambas-enredo e em outros elementos culturais.

Religiões de matriz africana, como candomblé e umbanda, também veneram São Jorge – ali ele tem outro nome: Ogum.

“O sincretismo religioso nada mais é do que uma atualização da fé do conquistado. Quando os portugueses vieram para o Brasil e impuseram a fé católica, os escravos negros de matriz africana adaptaram a fé deles. Então, São Jorge virou Ogum, que é o orixá guerreiro”, contou Silva.

*Conteúdo Folhapress


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