Especialista alerta que mulheres com histórico familiar de endometriose têm risco até sete vezes maior de desenvolver a doença,
É comum que relatos de cólicas severas atravessem gerações de uma mesma família, compartilhados entre mães, filhas e avós como se fossem um fardo natural da biologia feminina.
No entanto, o que a ciência moderna comprova é que a dor pélvica crônica frequentemente carrega um forte componente genético e hereditário.
Quando essa dor é silenciada ou tratada como um mero desconforto passageiro, a patologia evolui de forma silenciosa, comprometendo não apenas a fertilidade, mas a saúde mental e a qualidade de vida da paciente. Romper esse histórico familiar de sofrimento é o primeiro passo para o diagnóstico precoce.
Pesquisas publicadas desde os anos 1990, incluindo o estudo de Treloar et al. (1999) amplamente citado na literatura médica, apontam que mulheres com mãe, irmã ou filha diagnosticada com endometriose têm risco até sete vezes maior de desenvolver a condição.
Milhões de casos
No Brasil, cerca de sete milhões de brasileiras convivem com a doença, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde. O problema é que o diagnóstico ainda leva, em média, de sete a dez anos para ser fechado. Nesse intervalo, a doença avança.
“A normalização da dor é um dos maiores obstáculos que enfrentamos. A mulher cresce ouvindo que cólica é normal, que a mãe também tinha, que é assim mesmo. Quando ela finalmente chega ao consultório, muitas vezes a doença já comprometeu estruturas importantes”, explica o Dr. Thiers Soares, ginecologista especializado em endometriose, adenomiose e miomas e referência internacional em cirurgia robótica.
Quando a cólica vira sinal de alerta
Nem toda dor menstrual indica uma doença. Sentir um leve desconforto nos primeiros dias do ciclo é comum, mas nenhuma cólica é normal. O problema está na intensidade e nos padrões que fogem do habitual.
Dores que incapacitam, que não cedem com analgésicos comuns, que aparecem fora do período menstrual ou que se manifestam durante relações sexuais e ao urinar são sinais que merecem investigação médica.
Esses sintomas costumam ser os primeiros indícios de duas patologias: a endometriose, que ocorre quando o tecido que reveste o interior do útero se desenvolve fora dele, podendo atingir ovários, trompas e outros órgãos da pelve; e a adenomiose, que acontece quando esse mesmo tecido se infiltra na musculatura uterina.
As duas condições podem coexistir e, juntas, representam causas frequentes de infertilidade. Dados do Instituto GERA mostram que a adenomiose isolada já reduz em 43% a chance de gravidez clínica e triplica o risco de aborto espontâneo.
“Eu costumo dizer que o útero é um órgão nobre. Ele merece atenção, investigação e, acima de tudo, respeito. Quando tratamos essas doenças com a precisão que elas exigem, devolvemos à mulher o controle sobre o próprio corpo e sobre seus planos de vida”, afirma o Dr. Thiers.
Tecnologia como aliada da preservação
Por muito tempo, a histerectomia, retirada total do útero, era apresentada como solução definitiva para casos graves de endometriose e adenomiose. Esse cenário mudou.
A cirurgia robótica permite hoje intervenções de alta precisão que eliminam os focos da doença preservando o útero, o que é especialmente relevante para mulheres que ainda desejam engravidar.
A plataforma robótica oferece ao cirurgião visão tridimensional ampliada e instrumentos com movimentação muito além dos limites da mão humana, permitindo suturas micrométricas em regiões de difícil acesso.
Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Minimamente Invasiva e Robótica (Sobracil), entre 90% e 95% dos procedimentos ginecológicos realizados no Brasil já poderiam ser executados por essa via.
“A robótica não veio substituir o cuidado humano. Ela veio torná-lo mais certeiro. Em casos complexos, essa precisão é o que permite preservar a fertilidade, em que antes só se enxergava a retirada do órgão como saída. Trata-se de conviver com a patologia, protegendo o futuro e os sonhos de cada paciente”, explica o especialista.
O que fazer se você tem histórico familiar
O primeiro passo é não esperar os sintomas se agravarem. Mulheres com mãe ou irmã diagnosticada com endometriose devem informar o ginecologista sobre esse histórico já nas consultas de rotina, mesmo na ausência de dores intensas.
O diagnóstico precoce amplia as opções de tratamento e reduz o impacto da doença sobre a fertilidade e o bem-estar geral.
O Brasil avança no reconhecimento institucional do problema. O Projeto de Lei 850/2025, em tramitação no Congresso, propõe a oferta de atendimento integral para adenomiose no Sistema Único de Saúde, incluindo suporte psicológico e fisioterapia, além do acesso a tratamentos cirúrgicos de alta complexidade.
“O movimento legislativo reflete a transição de uma visão que antes encarava a dor feminina como uma queixa subjetiva para o patamar de uma questão de saúde pública prioritária. Quando a paciente e o médico agem de forma preventiva, nós mudamos o desfecho da história. O futuro da ginecologia moderna não está em remediar o estrago causado pela dor crônica, mas em interceptar a doença antes que ela reescreva as escolhas de uma mulher”, finaliza o Dr. Thiers Soares.