É possível “curar” a intolerância a lactose? O que a ciência já sabe

  • Nina Ribeiro
  • Publicado em 14 de dezembro de 2025 às 12:30
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Relatos de internet dizem que algumas pessoas voltam a consumir leite sem passar mal, mas estudos mostram que o que muda não é o DNA, e sim o intestino

A intolerância à lactose acontece quando o organismo produz pouca lactase, a enzima que quebra a lactose (o açúcar do leite) no intestino delgado (Foto Freepik)

 

Você provavelmente conhece alguém que fala assim: “Eu era intolerante à lactose, mas fui comendo aos poucos e hoje tomo leite de boa”.

Do outro lado, há quem tente fazer o mesmo e acabe em cólicas, gases e um arrependimento profundo depois de uma pizza. Afinal, dá para “eliminar” a intolerância à lactose só insistindo nos laticínios ou isso é mito?

A resposta é mais complexa do que um simples “sim” ou “não”, e envolve desde genética até a adaptação das bactérias que vivem no intestino grosso.

O que as pessoas contam: “parece que voltei a tolerar leite”

Nos relatos de usuários em fóruns como o Reddit, aparecem histórias bem diferentes.

Há pessoas que dizem ter passado anos tomando comprimidos de lactase antes de qualquer coisa com queijo ou leite, e que, depois de um período introduzindo pequenas quantidades de laticínios sem remédio, pararam de passar mal e hoje comem “de tudo”.

Outras relatam o oposto: tentaram “forçar” a tolerância, sentiram muita dor, inchaço, diarreia e desistiram da experiência.

Esses relatos têm um ponto em comum: a sensação de que o corpo “se acostumou” ou não ao leite. Mas, para entender o que está acontecendo de verdade, é preciso olhar para a biologia por trás da intolerância à lactose.

Intolerância à lactose não é alergia, e nem sempre é tudo ou nada

A intolerância à lactose acontece quando o organismo produz pouca lactase, a enzima que quebra a lactose (o açúcar do leite) no intestino delgado.

Sem essa etapa, a lactose chega “inteira” ao intestino grosso, onde vira festa para as bactérias: elas fermentam o açúcar e produzem gases, desconforto e, em alguns casos, diarreia.​

Em muitas pessoas, a queda de lactase depois da infância é genética e programada, o corpo simplesmente deixa de produzir a enzima em grande quantidade.

A maioria dos intolerantes não é “zero lactase”: ainda existe alguma produção, mas insuficiente para lidar com grandes quantidades, como um copo de leite puro.

Por isso, há quem tolere pequenas porções de lactose (um pouco de queijo, iogurte, café com leite), enquanto outros passam mal com quantidades menores. Ou seja, não é um interruptor ligado/desligado; é mais uma régua de intensidade.

O que a ciência mostrou: o intestino se adapta (um pouco)

O estudo anexado, um clássico sobre o tema, investigou justamente o que acontece quando pessoas com má digestão de lactose começam a consumir lactose todos os dias, em doses crescentes, por algumas semanas.​

Os principais achados foram:

Após cerca de 10 a 16 dias consumindo lactose diariamente, houve um aumento de cerca de três vezes na atividade de uma enzima chamada β-galactosidase nas bactérias do intestino grosso.​

Essa adaptação da microbiota reduziu a produção de hidrogênio (medida pelo teste do “bafo” com lactose) e diminuiu sintomas como gases e quantidade de flatulência após uma dose de lactose de teste.​

Em alguns participantes, os exames passaram a parecer “quase normais”, como se não fossem mais grandes maldigestores, mesmo sem mudança na produção de lactase do próprio intestino delgado.​

Em outras palavras: a lactase do corpo não volta a crescer, mas as bactérias do intestino aprendem a lidar melhor com a lactose que chega lá. Isso não “cura” a intolerância, mas pode deixar os sintomas bem mais leves em parte das pessoas.

Não é o DNA que muda, é a flora intestinal que se reorganiza para aproveitar aquele açúcar que chega todo dia.

Dá para treinar o corpo a tolerar mais lactose?

Na prática, os estudos sugerem que SIM, algumas pessoas conseguem aumentar a tolerância a lactose com consumo regular e controlado, mas isso tem limites e não funciona igual para todo mundo.​

A adaptação geralmente é testada com doses divididas ao longo do dia e consumidas junto com refeições, o que reduz o impacto no intestino.​

Os sintomas tendem a ser mais leves quando a lactose vem combinada com outros alimentos (como leite nas refeições) do que em jejum, em grandes quantidades.

A melhora observada é mais clara em sintomas de gases e flatulência; dor abdominal e diarreia muitas vezes são discretas ou pouco alteradas.​

Isso ajuda a explicar por que alguns usuários relatam que hoje conseguem comer pizza ou tomar sorvete sem passar tão mal quanto antes, enquanto outros não notam melhora nenhuma.

Então algumas pessoas realmente “eliminam” a intolerância?

Do ponto de vista genético, a intolerância à lactose em adultos não é “curada”: o organismo não volta a produzir lactase no intestino delgado como fazia na infância.​

Do ponto de vista prático, a adaptação da microbiota e o uso de estratégias (como dividir doses, consumir junto com comida, escolher laticínios com menos lactose) podem fazer a pessoa sentir tão poucos sintomas que, na vida real, ela se sente “curada”.

Essa diferença entre a visão clínica e a sensação do dia a dia cria a confusão: cientificamente, não houve reversão da deficiência de lactase, mas funcionalmente, o desconforto diminuiu tanto que, para o indivíduo, é como se a intolerância tivesse desaparecido.

Em muitos casos, o que “sara” não é a intolerância em si, mas o sofrimento causado por ela.

Vale a pena tentar se adaptar sozinho?

Essa é a parte em que o texto de curiosidades precisa fazer um alerta honesto:

Forçar o consumo de grandes quantidades de lactose sem orientação pode causar muita dor, diarreia e desidratação em quem é mais sensível.

Existem relatos de tentativas mais extremas de “modificar” o corpo para produzir lactase de forma artificial ou arriscada, que não são recomendadas e podem trazer riscos sérios.​

A adaptação observada em estudos é gradual, monitorada e realizada com doses calculadas, não é simplesmente “sofrer até acostumar”.

Para quem tem sintomas fortes, o ideal é conversar com um profissional de saúde antes de tentar qualquer “experimento” com leite.

Muitas vezes, o equilíbrio está em:

– usar lactase em situações específicas (como um rodízio de pizza),
– preferir laticínios com menos lactose (iogurtes fermentados, queijos curados),
– testar pequenas quantidades em horários mais seguros, sempre observando como o corpo reage.

Fonte: Já Imaginou Isso?


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