Segundo IBGE, em Franca são 46.806 mulheres entre 40 e 50 anos, ávidas para desfrutar uma “segunda vida”
A vida, como dizia Cecília Meireles, só é possível se reinventada. Bonito isso e, na verdade, dramático. É que para fazer outro esboço da existência, é preciso ter uma coragem quase épica. Que o diga a comerciante Vitória Lúcia de Souza, 58 anos. Pertencente a uma geração educada ainda no início da revolução de costumes dos anos 60, em sua infância, casamento e maternidade eram valores básicos. Ao chegar à idade adulta, viveu a liberação sexual e o ingresso no mercado de trabalho, mas na maturidade precisou lidar com o conflito entre o que se preparara para ser e o que se tornara, entre os ideais de libertação propagados por sua geração e a vida convencional que construiu. “Quando fiz 50 anos vivi o que chamam de crise da meia idade. É como se tudo o que vivi tivesse me levado para um lugar que eu não queria estar. Foi difícil, angustiante, conturbado, mas consegui perceber que não estava mais feliz daquela forma”, conta.
O que Vitória se refere era o casamento de 25 anos e a vida de dona de casa. Ela que sempre foi ativa, sonhava em seguir a carreira de comissária de bordo, sonho este que deixou de lado ao se casar. Assim como ela, no passado parecia natural para as mulheres se conformarem com a frustração no trabalho ou na vida afetiva, pois esses eram sentimentos associados ao período que costumava ser um mero prenúncio da velhice. Agora elas tentam reagir.
Crise faz reagir
Mulheres como Vitória estão aproveitando o período de crise que costuma surgir entre os 40 e 50 anos para se reinventar. Há no Brasil, segundo o IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mais de 14 milhões de brasileiras nessa faixa etária. Em Franca, são 46.806 mulheres nessa faixa etária, segundo o IBGE. Elas chegaram nessa idade amadurecidas e ávidas para desfrutar uma “segunda vida” – ou, em termos mais práticos, para encarar uma nova profissão ou um novo amor. “Vivemos um tempo em que a medicina garante não apenas mais tempo de vida, mas também mais qualidade. Para a mulher, isso se traduz em mais juventude, mais beleza e em uma atitude menos passiva”, observa a psicóloga Jane Moraes de Souza. Para ela, é como se essas mulheres dissessem a si mesmas: “não tenho tempo a perder”. Com mais saúde, melhor aparência e mais disposição para estudar, é comum que elas tenham uma situação financeira mais confortável e um nível de escolaridade superior ao que a mãe tinha na mesma idade. “Essas mulheres podem adotar filhos, casar-se pela segunda, terceira ou até quarta vez, voltar à escola ou trabalhar em algo com que sempre sonharam”, afirma Jane, acrescentando que elas encontram inúmeros novos caminhos a seguir. “Isso não acontecia na geração anterior”, diz.
Vitória concorda com a psicóloga. Tanto que decidiu dar um basta ao casamento que não lhe fazia mais feliz e trocou o comando do lar para se dedicar a algo que sempre lhe deu prazer: flores. Hoje ela é dona de uma floricultura e se diz muito feliz. “Tenho meu próprio negócio, faço o que amo, meus filhos estão crescidos, com suas famílias, tenho saúde e disposição e, de quebra, acabo de encontrar um novo amor”, conta a comerciante, que há quatro anos decidiu mudar os rumos de sua vida. “Para quem vive uma vida sem felicidade, um conselho: sempre é tempo de mudar”, aconselha Vitória, cuja alegria é contagiante.