Ganha-se dinheiro com música? Depoimento

QUEM DISSE QUE NÃO SE GANHA DINHEIRO COM MÚSICA?

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Para ser mais real e convincente vou contar minha história particular com relação à remuneração na música, já que tenho recebido tantas mensagens de leitores , alguns me perguntando se REALMENTE CONSIGO SOBREVIVER DE MÚSICA...

Comecei a dar aulas com 14 anos de idade. Cobrava baratinho, apenas uma taxa mensal para vizinhos e amigos, crianças que moravam ao redor de minha casa , passavam e ouviam o piano. Com esta pequena taxa mandava fazer fichas e boletins para os alunos em gráfica, comprei um pequenino sofá para a salinha do piano, investia em novos métodos, partituras diversas. Cada mês era um investimento novo e ainda sobrava dinheiro para um cinema ou um gasto comigo mesma.

Quando comecei a cursar o Profissionalizante, já podia cobrar um pouco mais as aulas. E foram aparecendo alunos e mais alunos. E cheguei a ter em casa 18 alunos particulares. Fui contratada pelo Conservatório para dar aulas com apenas 19 anos. Me pediram que levasse meus alunos para estudarem lá. E apesar de ser muito mais caro do que eu cobrava em casa a maioria deles foi estudar lá para obterem seus diplomas. Aqueles que não desejavam diplomas continuaram em casa. O Conservatório, na época, pagava aos professores o equivalente a 1 ( UM ) salário mínimo por aluno. Ainda tínhamos férias, 13º salário, bônus de Natal, cesta básica, e uma série de benefícios, convênios, tiquet alimentação. ( Já entrei recebendo pelo menos 14 salários mínimos). Foi uma época de ouro. Como eu namorava, fiquei noiva, ajudei meu namorado a montar o consultório odontológico que não é nada barato, mantinha meu carro, tinha poupança, comprei 3 telefones como investimento ( naquela época, ter uma linha de telefone era bem caro), comprei um terreno num bairro onde colocaram o nome do meu pai nesta rua, além de presentear amigos, me vestir muito bem, fiz todo o enxoval para o casamento, comprei todos os móveis para a casa, porque meu noivo ainda não tinha se formado, estava sem rendimentos ainda, eu tinha um padrão de vida muito alto. Tudo isso graças às aulas de piano e também ao Conservatório que era mantido por uma fundação que não podia ter lucros e quando os tinha repartia com os funcionários. Fundação Pestalozzi. Agradeço imensamente ao Dr Novelino,a esposa Dona Aparecida e família toda.

Ainda funcionária do mesmo estabelecimento, me casei, logo depois de 3 meses engravidei do primeiro filho. No ano seguinte nasceu o bebê. Nem preciso dizer que o enxoval foi de primeiríssima qualidade e enorme. Também compramos uma casa que estava em leilão pela Caixa Federal. Na época pagávamos um consórcio de moto que foi para o lance da casa e conseguimos adquirir o imóvel financiado por 25 anos. Quando me mudei para a casa estava grávida de 7 meses, a casa tinha passado por uma boa reforma graças ao excelente salário que eu tinha, pois meu marido tinha acabado de se formar e ainda eram poucos clientes numa clínica popular. Graças a Deus tivemos recursos provindos da música.

Mas não tínhamos com quem deixar o bebê quando tinha 7 meses. Foi então que resolvi pedir demissão do trabalho, mas fizemos um acordo para que eu pudesse retirar o fundo de garantia . E também foi uma quantia considerável. Imagine que quando saí do Conservatório tinha 33 alunos e recebia UM salário mínimo POR ALUNO. Isso era muito dinheiro, apesar do salário mínimo não ser tão reajustado como hoje, ainda assim era muito dinheiro. Equipamos a casa com aparelho de som, televisão, micro-ondas, e tudo o que ainda não tínhamos na casa. Ainda sobrou dinheiro para quitar dívidas do meu sogro.

Música dá muito dinheiro se soubermos trabalhar com ela e principalmente se existirem fundações como esta em que trabalhei.

Mas ficar da noite para o dia sem aquele super salário não era nada confortável. Alguns alunos não quiseram permanecer no Conservatório e me pediram para dar aulas particulares. A casa onde morávamos era muito pequena ( 2 quartos pequenos, sala, cozinha, banheiro) e não tinha lugar para dar aulas de piano, nem espaço para colocar o piano.

Eu ia para a casa de minha mãe, onde deixava o bebê com ela enquanto dava aulas de piano. Depois, com uma parte do dinheiro do fundo de garantia resolvemos montar uma loja para bebês e compramos o estoque. O cômodo utilizado foi a salinha do piano na casa de minha mãe. Foi uma época muito difícil , meu filho tinha 9 meses, ficou doente , com infecções seríssimas de garganta, o governo instituiu o plano cruzado, onde da noite para o dia os juros passaram de 3 a 30 % mensais e foi aquele horror. Quebramos. A solução foi fechar a loja, liquidar tudo e voltar às aulas particulares de piano que eram poucas mas sem riscos.

O dinheiro destas aulas ainda serviu para ajudar a custear 2 cursos que meu marido fazia em São Paulo um deles sobre acupuntura e o outro homeopatia. Sempre eu tinha um dinheirinho para ajuda-lo nas viagens.

Seis anos haviam se passado e eu ainda não tinha condição de levar o piano para casa porque não tinha espaço. Foi então que resolvi tocar em casamentos para começar a comprar material de construção para uma sala onde eu pudesse colocar o piano. Foram 2 anos tocando em casamentos. E o mesmo parâmetro vem agora : UM salário mínimo por casamento. Em cada sábado eram pelo menos 3 casamentos. Outra época de ouro onde pude comprar bastante materiais para construirmos a sala. No sábado recebia 3 salários mínimos e na segunda-feira seguinte transformava-os em tijolos, piso, ferro, mandando entregar e colocar na frente da casa onde seria o jardim. Foram dois anos juntando material de construção ali com dinheiro de tocar em casamentos. Agradeço a Deus esta linda oportunidade! Naquela época ( 1990- 1992) pouquíssimas pessoas tocavam em casamentos, a cidade tinha poucos músicos e eu era chamada para vários. Tinha um repertório vasto e também tocava qualquer música que a noiva pedisse e o padre autorizasse.

Então, passados 8 anos de casamento começamos a construção de uma sala de 6 x 4 metros onde pude colocar o piano e ainda desenvolver aulas de grupo para crianças , um projeto que o qual dei o nome de “ MUSICALIZAR-SI “ . A sala inicialmente era aberta como se fosse uma varanda com um sofá de alvenaria e churrasqueira. Depois, com o tempo fui juntando mais dinheiro e a varanda foi fechada com porta de correr, janelas e porta de vidro com uma entrada lateral independente. Dava aulas para crianças em casa, filhos de amigos, vizinhos , conhecidos vinham participar das aulas. Nesta época eu tinha meu segundo filho com um ano de idade e já participava das aulas, era o mascote. Continuei com aulas particulares de piano e estes grupos de musicalização. Trabalhando em casa, numa sala construída com dinheiro ganho tocando em casamentos, não pagava aluguel, sempre foi uma excelente oportunidade de trabalho e além disso podia ficar com os filhos em casa. Muito trabalho, sem ajudante , apenas uma faxineira semanal, mas alegria enorme em poder trabalhar com música e ainda conseguir fazer tantas coisas com este dinheiro.

A instabilidade financeira como ficar sem ganho nas férias foi ficando difícil. Apareceu uma oportunidade no ano seguinte de LECIONAR MÚSICA numa escola nova que estava abrindo na cidade. Apresentei a proposta de trabalho que foi escolhida dentre várias outras. Pude colocar meus dois filhos nesta escola, descontando do meu salário a mensalidade e continuar trabalhando com música. Lecionava para todas as séries, de primeira a oitava, cada uma abordando uma área da música. Bandinha Rítmica, Flauta Doce, História da Música, confecção de instrumentos de percussão, projeto músicos da cidade , levando entrevistados de bandas, duplas, corais, etc. Muito trabalho. Nunca trabalhei tanto. Mas altamente compensatório financeiramente, os dois filhos usufruindo da escola particular fundada por pais.

Ao mesmo tempo eu era professora de Arte em Escolas Estaduais, depois de 4 anos de casada, e todas as escolas queriam que eu desse aula , escolhesse-as porque eu trabalhava com coral infantil, música na escola das mais variadas formas. Era muito requisitada pelos diretores de escola que me convidavam para escolher suas escolas para trabalhar.

Em anos seguintes houve uma reestruturação nas escolas que passaram a funcionar por ciclos. Fui remanejada e trabalhava de 5ª série a Ensino Médio. Comecei o trabalho com teatro e música nas aulas de Arte. Estes trabalhos me projetaram de tal forma que escolas particulares começaram a me chamar para desenvolver tais projetos. Fui então trabalhar numa escola onde eu podia escolher o que fazer. Gravamos um CD num projeto sobre a cidade e muitas outras atividades musicais. Levei meus dois filhos para estudarem nesta escola de renome pois a outra escola fundada pelos pais não estava tendo resultados pedagógicos muito bons. Mais uma vez meus filhos foram beneficiados e trabalhei nesta escola por 4 anos onde o mais velho fez o Ensino Médio e o mais novo cursou de Maternal até 2ª série, mensalidades descontadas do meu salário. Também fiz uma pós-graduação oferecida por este estabelecimento de ensino –Colégio Objetivo Alto Padrão- e meu salário às vezes vinha com o valor de 10 reais no final do mês porque utilizava tudo em mensalidades. Um período de ouro também. Pude oferecer isso a meus filhos, dando aulas de música neste estabelecimento e ainda fiz pós-graduação em Didática com a Monografia : Música Erudita: Diamante e Água.

Continuei em escolas estaduais, cada vez com mais aulas e muito bem quista pelos diretores por desenvolver projetos musicais nas escolas. O casamento não deu certo, nos separamos.

Não tinha muito tempo para aulas particulares de piano. Mas planejava me aposentar e voltar ao trabalho prazeroso de lecionar piano.

Em 2001 resolvi montar a CASA DOS MÚSICOS e consegui dar 80 bolsas de estudos e ainda ter alunos que pagavam todas as despesas da casa , não tendo prejuízo algum. Tinha aulas de piano, flauta doce, canto, musicalização infantil, preparação de professores, etc.

Minha mãe vendeu terrenos que meu pai havia deixado de herança e repartiu entre os filhos. Minha casa na época valia 50 mil reais. Gastei 45 mil reais para reforma-la – o valor de uma outra casa semelhante. E ela passou a valer 150 mil reais na época. Logo a seguir minha mãe vendeu mais propriedades e na partilha consegui comprar um conjunto de salas no centro da cidade onde comecei a dar aulas, pois havia fechado a Casa dos Músicos por pressão familiar.

Na reforma feita na casa, fiz cômodos nos fundos para dar aulas de piano, montar uma biblioteca de música.

Vendi o conjunto de salas que havia comprado por 7 mil – já estava valendo 25. E pude comprar uma PIANOLA por 12 mil e ainda investir na troca do carro.

A pianola, apesar de lindo atrativo, não parava afinada. Então resolvi trocá-la por um piano novo. Tive que colocar mais dinheiro , que tinha juntado das aulas e assim foi feito.

Em 2006 minha mãe faleceu. Tinha uma poupança e restava sua casa no centro da cidade. Em 2010, com a partilha, consegui mais uma vez trocar o carro e comprar um piano de cauda.

Hoje, estou aposentada do Estado, com um salário muito baixo porque me aposentei proporcional e por meio período, mas tenho dois pianos novos para trabalhar, provenientes de herança e sendo mantidos e conservados com dinheiro das aulas.

Escrevi 3 livros , um deles foi escolhido para a 23ª BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO - IBIRAPUERA - SP - onde teve destaque e está na 4ª tiragem ( A HORA DE TOCAR PIANO) . O PIANO UM ESCULTOR DA ALMA teve como presente um vídeo do diretor da Escola Pianística de Buenos Aires apresentando-o. E MÚSICA CLÁSSICA, SÓ SUCESSO conta 7 projetos musicais realizados em escolas públicas, particulares e creches. 


QUEM DISSE QUE NÃO SE GANHA DINHEIRO COM MÚSICA?

P.S. e ainda de vez em quando alugo pianos para clips. E toquei numa loja de conveniência por 3 meses - levei meu piano acústico. https://www.facebook.com/CLIP-com-piano-de-cauda-143391556218947/

Sim, ganha-se dinheiro trabalhando com música, de várias formas ! Portanto, não tenha medo de colocar uma criança para estudar música. Talvez seja a profissão que se ganhe dinheiro com mais facilidade. No meu caso tive que estudar muito. Mas crianças estão aí para estudarem ! Confiem ! Invistam ! Vale a pena !

Muitos leitores e pessoas diversas me pedem para contar a minha trajetória na música , em vários aspectos, mas a MAIORIA quer saber se dá dinheiro ... Por este motivo ai está ...

*Esta coluna é semanal e atualizada aos domingos.


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