Professores da Unesp Franca explicam curiosidades e ajudam a entender o que realmente mudou no Brasil com o 7 de Setembro
Quando você pensa na Independência do Brasil, provavelmente imagina D. Pedro I em cima de um cavalo, com a espada levantada, cercado por soldados, às margens do riacho do Ipiranga.
A cena é tão conhecida que parece até uma fotografia daquele momento. Mas você sabia que o famoso quadro foi pintado 66 anos depois da Independência?
A obra “Independência ou Morte”, de Pedro Américo, foi produzida em 1888, quando o Brasil já estava vivendo uma profunda crise da Monarquia e a Proclamação da República aconteceria no ano seguinte.
E essa é apenas uma das curiosidades que ajudam a mostrar que a história do 7 de Setembro é bem mais complexa do que a imagem que aprendemos nos livros escolares.
Análises francanas
Professores da Unesp Franca analisam a data e explicam, de forma simples, o que existe por trás da famosa cena, quem ficou fora dela e por que a Independência não significou que a vida de todos os brasileiros mudou de uma hora para outra.
O professor de História da Unesp Franca, Marcos Alves de Souza explica que a pintura de Pedro Américo não deve ser vista como uma reprodução exata do que aconteceu às margens do Ipiranga.Isso porque a obra foi produzida décadas depois e ajudou a construir uma determinada imagem da nacionalidade brasileira.
Na pintura, D. Pedro aparece no centro, cercado por homens brancos, militares e integrantes das elites. Ao fundo, porém, aparecem personagens comuns, como trabalhadores rurais, que praticamente não participam da cena.
Cadê o povo?
E isso levanta uma pergunta importante: onde estão os negros, indígenas, mestiços, trabalhadores e pessoas que formavam a maior parte da população brasileira naquela época?
Segundo Marcos, muitos desses grupos ficaram fora da narrativa tradicional da Independência. “Quem está alheio a esse processo e está alheio da construção do sentido de independência, que é o sentido do nacional?”, questiona o professor.
Para ele, a pintura representa muito mais um ideal de Independência do que uma fotografia do acontecimento.
O Brasil já não era exatamente uma colônia em 1822
Outra curiosidade é que o processo de transformação do Brasil havia começado muito antes do famoso 7 de Setembro.
Em 1808, a família real portuguesa veio para o Brasil fugindo das tropas de Napoleão Bonaparte. A mudança alterou profundamente a relação entre Brasil e Portugal.
O Rio de Janeiro passou a ser o centro do poder português e, posteriormente, o Brasil deixou de ser formalmente uma colônia e passou a integrar o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.
Por isso, o professor Marcos Alves de Souza explica que a Independência de 1822 não aconteceu simplesmente como uma mudança completa “da noite para o dia”. “Era um processo que já vinha sendo construído”, ressaltou
“O que se inaugura, a partir de então, do ponto de vista político, de fato, é um processo de transição estrutural”, explica o professor.
E para a população? O que mudou?
Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes. A imagem tradicional passa a impressão de que, em 7 de setembro de 1822, o Brasil acordou colônia e foi dormir independente. Mas não foi bem assim.
Para grande parte da população, especialmente os grupos que não participavam das decisões políticas e econômicas, a mudança não significou uma transformação imediata das condições de vida.
O professor Marcos chama atenção justamente para essa parcela da população que aparece apenas nas margens da representação histórica.
“Todos os não-brancos, os não-proprietários, todos os tipos que, de fato, compunham a sociedade brasileira” acabaram sendo deixados de lado na construção tradicional dessa história, avalia.
Por isso, segundo o professor, a Independência política não pode ser confundida com emancipação de toda a sociedade.
Independência não significa ficar sozinho no mundo
E existe outra dúvida comum: se o Brasil é independente, por que continua dependendo de relações comerciais, econômicas e políticas com outros países?
A professora de Relações Internacionais da Unesp Franca, Paula Regina de Jesus Pinsetta Pavarina explica que independência não significa isolamento.
Um país independente continua negociando, fazendo acordos, importando, exportando e mantendo relações diplomáticas com outras nações. “Ser independente significa que um conjunto de decisões dentro do próprio país seja tomado pela população nacional”, explica.
Ou seja: ser independente não significa viver sozinho, mas ter autonomia para tomar suas próprias decisões.
Independência política é suficiente?
Para o professor de Sociologia Jurídica e Direito da Unesp Franca, Agnaldo de Sousa Barbosa, essa é uma das grandes questões que permanecem atuais. Segundo ele, a Independência não deve ser vista apenas como um ponto final ocorrido em 1822, mas como o início de um processo que continua sendo construído.
“Pensar na Independência do Brasil é pensar não em um ponto de chegada, a partir do 7 de setembro de 1822, mas em um ponto de partida que ainda permanece em curso nos nossos dias.”, explica o professor.
A pergunta, portanto, deixa de ser apenas “quando o Brasil ficou independente?” e passa a ser também: Independente para quem? E em que sentido?
Um país independente precisa garantir liberdade para seu povo
A professora de Serviço Social da Unesp Franca Rosicler Lemos da Silva amplia ainda mais essa reflexão.Para ela, não basta um país ser politicamente independente se sua população não tiver acesso a condições dignas de vida.
Trabalho, renda, alimentação, saúde, educação, moradia, seguridade social e participação política também fazem parte da ideia de emancipação. “A independência política de um país, por si só, não garante a autonomia do seu povo”, afirma.
Afinal, o que o 7 de Setembro representa?
Mais de 200 anos depois, a Independência do Brasil continua sendo uma data fundamental para entender a formação do país. Mas a história não cabe em uma única pintura.
O famoso grito às margens do Ipiranga representa apenas uma parte de um processo que começou antes de 1822 e cujos efeitos não foram iguais para todos os brasileiros.
A próxima vez que você olhar para o quadro de Pedro Américo, talvez valha a pena fazer uma pergunta diferente: quem está no centro da imagem, e quem ficou de fora?
É justamente esse olhar crítico sobre a história que os professores da Unesp Franca propõem neste 7 de Setembro: compreender que a Independência foi muito mais do que um grito. Foi um longo processo político, social e econômico, cujos efeitos e desafios ainda fazem parte do Brasil de hoje.