Em muitos casos, o envolvimento fora da relação principal não está ligado à insatisfação, mas ao desejo de novidade e variedade, características naturais do ser humano
A traição é um tema presente em diferentes fases da vida e pode, inclusive, transformar completamente a trajetória de uma pessoa (Foto Arquivo)
A traição é um tema presente em diferentes fases da vida e pode, inclusive, transformar completamente a trajetória de uma pessoa.
Ainda assim, muitos colocam em risco relacionamentos duradouros e até famílias estruturadas ao trair. Mas por que isso acontece?
Para entender essa questão, a Regina Navarro Lins, psicanalista e autora de 14 livros, entre eles “Novas Formas de Amar”, explica o comportamento.
Regina resgatou aspectos culturais e sociais que moldam a forma como nos relacionamos atualmente, ponto que, segundo ela, é essencial para compreender as nuances do tema.
Amor romântico e perda da individualidade
A escritora explica que o amor, como o entendemos hoje, é uma construção social. Em cada período da história, ele se manifesta de uma maneira diferente. Atualmente, segundo Regina, predomina o chamado amor romântico.
Nesse contexto, ela faz um alerta: o romantismo citado não tem relação com gestos como dar flores ou demonstrar carinho, mas sim com uma ideia mais profunda – e, segundo ela, problemática – de relação.
“O amor romântico prega que os dois têm que se transformar num só, que só tem graça qualquer coisa se o seu amado estiver presente. Então, ele anula as individualidades.”
Para Regina, essa lógica pode ser prejudicial, pois é impossível uma relação amorosa ser boa e saudável se não houver respeito à individualidade do outro. A ausência de espaço individual, inclusive, seria um dos fatores que dificultam a manutenção de vínculos saudáveis.
Monogamia: escolha ou imposição cultural?
Outro ponto central é a associação entre amor e exclusividade. A psicanalista destaca que, na nossa cultura, a monogamia é tratada como um padrão quase obrigatório, aprendido desde cedo e raramente questionado.
Com isso, cria-se a expectativa de que quem ama não sente desejo por mais ninguém – uma ideia que, na prática, não corresponde à experiência de muitas pessoas.
“O amor romântico prega que quem ama não se interessa por mais ninguém. Isso é uma grande mentira e gera muito sofrimento”, diz.
Dá para amar e desejar outras pessoas?
É a partir dessa construção que surge o questionamento: por que pessoas que estão em relações aparentemente felizes se envolvem com outras? Para ela, não há uma relação direta entre essas experiências.
“Você pode amar profundamente uma pessoa e ter desejo de se relacionar com outras, ou até amar outras pessoas”, explica.
Segundo ela, em muitos casos, o envolvimento fora da relação principal não está ligado à insatisfação, mas ao desejo de novidade e variedade, características naturais do ser humano.
“Na maioria das vezes, as pessoas, mesmo amando, têm relações fora do casamento ou do namoro porque querem variar. E variar é bom”, completa.
O peso do julgamento e o segredo nas relações
A psicanalista também contesta a ideia de que esse comportamento esteja relacionado a falhas de caráter. Para ela, essa visão é resultado de um julgamento moral construído socialmente.
“[A traição] Não está ligada à insatisfação no relacionamento. Quem tem uma relação fora [simplesmente] não acredita nessa imposição cultural de que é fundamental ser exclusivo”, afirma.
Além disso, segundo ela, o modo como a sociedade encara a monogamia contribui para que essas experiências sejam vividas de forma escondida, alimentando sentimentos como culpa e medo de julgamento.
Por fim, ao ser questionada se quem já se viveu um relacionamento extraconjugal uma vez tem mais chances de repetir esse comportamento, Regina afirma que essa experiência pode representar, ainda que parcialmente, uma ruptura com o modelo tradicional de amor romântico.
“Uma pessoa que já se libertou não vai ter problema em ter mais de uma relação extraconjugal.”