Paixão pelo sertanejo aquece economia em Franca e movimenta negócios

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  • Publicado em 9 de outubro de 2016 às 13:56
  • Modificado em 8 de outubro de 2020 às 17:59
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Boom sertanejo é comemorado por empreendedores locais que viram no estilo, um bom nicho de negócio

Gênero sertanejo é um dos mais fortes em Franca, conquistando desde crianças a famílias inteiras (Foto: Ricardo Fernandes)

Depois do sucesso da canção “Assim você me mata”, na voz de Michel Teló, o mundo passou a conhecer a música sertaneja. Mas, se gostar do gênero acaba de virar moda no mundo, em Franca isso ocorre há anos – não é à toa que a cidade é conhecida como “Capital da Música Sertaneja”, já que aqui surgem, todos os dias, várias duplas sertanejas aspirando ao estrelato – algumas até conquistaram renome nacional, como Rio Negro e Solimões e Gian e Giovanni. E o sertanejo ganha cada vez mais força na programação noturna da cidade. A razão de tamanho crescimento é a existência de uma tríplice e perfeita combinação: ambientes adequados, público interessado e bons artistas locais.

Um desses lugares é a Morada du Capiau, que surgiu há cinco anos sem nenhuma pretensão de se tornar o que é hoje: a principal casa noturna em Franca e região quando se fala em moda de viola e música caipira. “No início, só tínhamos o objetivo de reunir a turma para ouvir moda de viola, então alugamos uma edícula no Residencial Paraíso, onde batizamos de República Morada du Capiau. A gente se reunia sempre lá e começamos a fazer muita amizade com os cantores de Franca, que passaram a se reunir lá aos sábados para tocar o dia inteiro. Não cobrávamos entrada e vendíamos cerveja a preço de custo”, conta Lucas Renato de Souza, um dos sócios.

Profissionalização

Com o sucesso da “brincadeira” inclusive entre os cantores – nessa época chegaram a cantar na república as duplas Cacique e Pajé, João Mulato e Douradinho, Belmonte e Amaraí e Durval e Davi – os amigos Lucas, Marco Aurélio de Souza, Walter Santana Silveiro Neto e Leandro Cesar Quintino – decidiram investir seriamente nisso. Por sorte, encontraram um verdadeiro tesouro: um sítio dentro de Franca. E é lá que funciona há três anos a Morada du Capiau. “Foi muito bom achar um sitiozinho dentro da cidade. A gente cria cavalo, galinha, cozinha no fogão a lenha. Tudo isso numa antiga casa de fazenda. A gente vive a vida do capiau mesmo”, revelam Lucas e Marco Aurélio, que diferente dos outros sócios, vivem na sede da casa noturna.

De uma brincadeira entre amigos, hoje o grupo celebra o sucesso da Morada du Capiau (Foto: Ricardo Fernandes)

Desde então, já passaram pela Morada du Capiau grandes nomes desse universo sertanejo, como Delley e Dorivan, Matão e Mathias, Rio Negro e Solimões, Fátima Leão, Goiano e Paranaense, Cacique e Pajé, Zé Mulato e Cassiano, João Mulato e Douradinho, Lucas Reis e Thacio, Mococa e Paraiso, Belmonte e Amarai, Peão do Valle e Valentin, Divino e Donizete, Guilherme e Gustavo, Roberto Viola e João Carvalho, Lucas e Luan, Zeca e Léu, dentre tantos outros.

Uma curiosidade é que a casa só funciona na segunda-feira. Por isso, sua festa ficou conhecida como “Segunda Feliz”. E se você pensa que por ser em plena segunda-feira o número de frequentadores é menor, se engana. A Morada du Capiau está sempre cheia de apaixonados pela vida no campo e pela boa música caipira. Que o diga a massoterapeuta Claudete Del Poente, frequentadora assídua. “Desde que conheci a Morada du Capiau fiquei encantada com o lugar, que hoje faz parte da minha rotina. Quem gosta desse universo sertanejo e ama uma boa moda de viola, lá é o lugar certo: ambiente muito aconchegante, tranquilo, comida saborosa e muita gente bonita”, diz.

Os apaixonados

Claudete faz parte de uma extensa lista de pessoas que não abre mão de começar a semana sem “se jogar” na pista de dança da Morada du Capiau. Por oferecer um clima familiar e fazer questão de preservar o clima de fazenda, restringindo inclusive músicas que não sejam raiz ou o sertanejo mais antigo, os donos da casa criaram uma promoção: mulher que for de botina ou bota paga R$ 10; com outro tipo de sapato, paga R$ 20 para entrar. Já os homens com bota pagam R$ 20 e com outro tipo de sapato, R$ 40. “Quem não conhece, vale à pena. A Morada du Capiau já é conhecida em muitos lugares do Brasil, recebendo grande parte do público de cidades vizinhas que não perdem a Segunda Mais Feliz do Brasil”, reforça a massoterapeuta.

Casas noturnas que apostam no estilo sertanejo, como a Morada du Capiau, conquistam cada vez mais francanos (Foto: Ricardo Fernandes)

E o apreço pela Morada du Capiau vai longe, principalmente porque a casa conserva a cultura caipira. “Muitos músicos vêm sem convite, por ouvirem falar do nosso trabalho”, comentam os sócios, que contratam duas duplas a cada segunda-feira. “Fazemos questão de recebê-las em casa para almoçar e quando são dois violeiros, eles chegam a dormir em nossa casa. Esse corpo a corpo vai virando amizade… E a notícia se esparramando. Vem duplas de Mato Grosso, Londrina, do Rio Grande do Sul, Espírito Santo”.

Decoração

Para o pespontador Marcos Santos da Silva, 36 anos, o gosto pelo mundo sertanejo foi herdado do pai, criado em fazendas e sempre com muitas histórias para contar ao som de muita moda raiz. “Daí veio a paixão pelo estilo. Inclusive, faço questão de andar com botina, canivete na cintura e chapéu aos finais de semana”, revela.

Marcos faz questão de prestigiar os shows da Morada du Capiau toda a semana. Inclusive, desde que começou a frequentar o local, se tornou grande amigo dos donos e para ele, o que diferencia a Capiau das demais casas é que ela oferece um ambiente tranquilo, saudável e com boa música. “As duplas que cantam na Capiau fazem a diferença e contribuem para seu sucesso. Além disso, a decoração é o ponto alto, é como se estivéssemos mesmo na fazenda”, diz.

Amante do estilo sertanejo, Marcos incorpora o gênero em seu dia a dia, inclusive nas roupas (Foto: Ricardo Fernandes)

Amante do estilo sertanejo, o pespontador acredita que o aumento do interesse por ele em Franca venha ocorrendo porque propõe valores positivos e trocas saudáveis. “A gente sabe que a violência vem crescendo demais e o que vemos na Capiau são pais e filhos vivendo o gosto pela moda raiz, é uma troca de gerações”, observa.

Para Lucas, Marco Aurélio, Walter e Leandro, o segredo do sucesso da Morada du Capiau é justamente sua essência. “Somos de verdade, fazemos aquilo que acreditamos e que amamos. Então a maioria dos músicos vem por amor à causa, nem tanto pelo cachê, porque eles querem ver nosso trabalho continuar e a música raiz atraindo cada vez mais pessoas”, defendem.

A economia cresce

Cinto, fivelão, bota de bico fino, calça jeans apertada com a camisa para dentro, chapéu de couro e um copo de chope na mão. É esse o visual do vendedor Willian Teixeira, 26 anos, em todos os finais de semana. Ele que se apaixonou pelo estilo sertanejo desde adolescente, faz questão de incorporá-lo em seu dia a dia através de seu visual. “Minha paixão ultrapassa a música e os lugares que frequento. Tudo na minha vida gira em torno do sertanejo, da vida no campo”, diz.

Aline Salomão, da Salomão A Casa do Chapéu, comemora mercado promissor em Franca (Foto: Ricardo Fernandes)

Com essa redescoberta da vida “caipira”, algumas casas especializadas de Franca vivem um bom momento. É o caso da Comercial Salomão. No mercado desde 1963, ela é uma das principais referências quando se fala no segmento country, principalmente após passar a ser gerida por Ronaldo Salomão, um empresário visionário e apaixonado pelo estilo, transformando a loja em um charmoso espaço country para atender loucos por cavalos, bois, esportes relacionados e música sertaneja. “Faz 18 anos que a Salomão foi remodelada e hoje vendemos chapéus, calças, camisas, botas, cintos, fivelas e vários outros acessórios relacionados ao mundo country, sendo o chapéu o nosso produto mais característico, por isso o nome ‘A Casa do Chapéu”, comenta a empresária Aline Salomão.

Claudete é outra francana apaixonada pelo estilo sertanejo de viver (Foto: Ricardo Fernandes)

Para ela, a explosão do sertanejo universitário tem muita relação com as letras das músicas que, afinal, são mais próximas da vida social dos adolescentes e das baladas, que os jovens costumam ir atualmente. “Vejo essa tendência com bons olhos. Atendemos na Salomão clientes apaixonados pelo estilo country sem importar com idade, classe social, raça, cor e até nível cultural. Nossos clientes são, simplesmente, pessoas que se encontram neste estilo simples de ser”, observa.


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