Entenda por que os filmes que causam medo podem ser bons para a saúde mental

  • Nina Ribeiro
  • Publicado em 27 de janeiro de 2024 às 12:00
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Passar momentos difíceis por diversão ajuda a controlar o estresse e a ansiedade, dizem os especialistas

Assistir a filmes de terror pode ajudar a lidar com o estresse e a ansiedade – foto Freepik

 

O medo se agarrou às suas entranhas e à noite emergiu na forma de pesadelos. Por isso o pequeno Mathias tentava não assistir mais aqueles filmes: mudava de canal, fechava os olhos, desligava a TV.

Mas tudo mudou quando chegou à adolescência. Por acaso ele se deparou com uma minissérie chamada “Apocalipse”, sobre um futuro distópico após uma pandemia. Então ele leu o livro em que foi baseado. Era de um certo Stephen King. Foi terror à primeira vista. Mathias varreu a biblioteca e depois a locadora.

“Grito”, “Halloween”, “Sexta feira 13”, “O Massacre da Serra Elétrica”… Ele ainda tinha pesadelos, mas não se importava mais. Leu e viu tudo. Foi o tipo de obsessão adolescente que acaba marcando uma vida.

Mathias Clasen, hoje com 45 anos, é professor de literatura especializado em terror, autor do livro “Why Horror Seduces” (“Por que o terror seduz”, em tradução livre) e diretor do Laboratório Recreacional do Medo da Universidade de Aarhus , na Dinamarca. Ele tem uma teoria sobre sua repentina conversão na adolescência.

“É uma trajetória muito comum. Mais de 95% dos pais dizem que seus filhos sentem prazer em algum tipo de medo recreativo”.

“Nas crianças pequenas, é principalmente motivada por comportamentos de risco: brincadeiras físicas, subir numa árvore muito alta ou andar de bicicleta rápido demais. Mas quando crescem, torna-se um medo mais controlado. Eles procuram isso em filmes, livros e videogames”.

Este interesse começa no início da adolescência e atinge o seu pico antes dos 20 anos. Depois diminui gradualmente com a idade, mas não desaparece completamente. Os seres humanos sentem uma estranha fascinação pelo medo.

Paga para ter medo em parques de diversões. Vai ao cinema ou pega o controle remoto para se divertir e gritar um pouco. Busca experiências que os exponham a sensações desagradáveis, que o levem ao limite.

Isto é conhecido como o Paradoxo do Terror, um mistério sobre o qual a psicologia e a neurociência vêm teorizando há anos.

“A resposta simples é que os humanos são biologicamente concebidos para encontrar prazer brincando com o medo, porque é um mecanismo de aprendizagem”, reflete Clasen. “O medo recreativo é um espaço seguro no qual podemos praticar a regulação emocional”.

O consumo deste tipo de produto cultural pode proporcionar uma vantagem adaptativa, ao preparar os espectadores para enfrentar novos cenários.

Clasen teve a oportunidade de testar essa teoria quando o mundo se tornou um filme de terror, semelhante àquele que o obcecou quando era adolescente.

Com a população presa em casa devido à pandemia do coronavírus, sua equipe começou a perguntar aos voluntários como eles estavam lidando com a situação. E eles confirmaram suas teorias.
“Pessoas que tinham visto muitos filmes de terror, [especialmente relacionados a vírus e pandemias] confirmaram maior resiliência psicológica ao estresse. Esses filmes provaram ser uma ferramenta para regular as emoções”.

“Os filmes de terror nunca foram tão populares como nos últimos três anos. Mas ainda não tenho uma ideia clara do porquê”, reflete Clasen.

Pode ser que, em tempos de incerteza, as pessoas procurem explicações na ficção, inoculando-se com uma dose de terror tolerável que as prepara para o medo na vida real.

O contexto em que consumimos esses filmes é importante. Geralmente não são vistos sozinhos, mas em grupos, por um motivo óbvio.

Um estudo publicado na revista científica Plos One mostrou em 2021 que casais bem casados ​​sentiam muito menos estresse assistindo a um filme de terror com o parceiro do que quando faziam isso sozinhos. O terror é menos aterrorizante quando é compartilhado.

Detectando assassinos

O recente estudo Navigating Uncertainty with Screams, da Universidade de Toronto, analisa a atração humana por filmes de terror a partir do quadro da percepção preditiva.

Esta teoria significa que o nosso modelo interno de mundo não é tanto a realidade, mas sim uma interpretação dela.

Nosso cérebro analisa o que está acontecendo e preenche as lacunas de informação com o que acredita estar acontecendo. É por isso que podemos ler uma palavra perfeitamente, mesmo que faltem letras. Ou interpretarmos a imagem de um quebra-cabeça mesmo que ele não tenha todas as peças.

Mas para isso você precisa de uma informação prévia: ter lido aquela palavra antes ou visto uma paisagem semelhante à do quebra-cabeça.

“É por isso que os filmes de terror são perfeitos, porque nos dão informações sobre contextos em que nunca estivemos”, explica Mark Miller, investigador do Departamento de Psicologia da Universidade de Toronto e principal autor do estudo, numa conversa telefónica.

Esses filmes são baseados em cenários e situações conhecidas. Eles reproduzem estereótipos e clichês. Dão pistas sobre o que vai acontecer com elementos como a música.

Mas, ao mesmo tempo, uma das suas principais mecânicas é a surpresa, que normalmente ocorre numa reviravolta final inesperada ou, na sua forma mais destilada e básica, no susto ou jumpscare.

Assim, por exemplo, assistir a true crime pode ajudar a detectar o comportamento de um assassino ou estuprador, conhecimento muito valioso na vida real.

Isso explicaria por que esse tipo de documentário faz mais sucesso entre as mulheres, que representam 70% do público, segundo estudo da Social Psychological and Personality Science.

São elas as potenciais vítimas destes crimes numa proporção esmagadora, pelo que são elas que mais podem se beneficiar do que foi aprendido.

*Informações O Globo

 

 

 

 


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