Descuido na higiene bucal pode ocasionar consequências sérias não só para os dentes

  • Salvador Netto
  • Publicado em 21 de fevereiro de 2021 às 18:30
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Falta de higiene na boca pode resultar em infecções e inflamações que se relacionam com doenças sistêmicas, como cardiovasculares e diabetes

A saúde bucal é um importante indicador de saúde, bem-estar e qualidade de vida, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Além das cáries, que são obstruções nos dentes causadas pela proliferação das bactérias, a falta de higiene na boca pode resultar em infecções e inflamações que se relacionam com doenças sistêmicas, como problemas cardiovasculares e diabetes. As informações são da repórter Gabriela Bonin, da Folhapress.

Segundo o médico cardiologista do InCor (Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da FMUSP), Flávio Tarasoutchi, pacientes com predisposição a ter problemas cardíacos devem ter muita atenção ao cuidado bucal, principalmente aqueles com disfunções nas válvulas, sopros ou alterações estruturais no coração, que pedem o uso de próteses ou marca-passo.

“Quando o paciente não tem uma higiene bucal correta, há uma queda da resistência imune, as bactérias habituais da boca se proliferam e liberam substâncias inflamatórias na corrente sanguínea, que aderem às válvulas do coração”, explica o cardiologista. “Isso gera uma inflamação e consequente infecção que chamamos de endocardite infecciosa.”

A situação também atinge pessoas com problemas nas artérias coronárias. Segundo Tarasoutchi, a proliferação de bactérias na boca e liberação de substâncias inflamatórias pode desestabilizar as placas de gordura no coração e obstruir as artérias do paciente, levando até a infartos.

Esse processo inflamatório que afeta o corpo de maneira sistêmica deriva da chamada doença periodontal. “É uma doença que causa uma inflamação nas gengivas e que, de maneira vagarosa e crônica, vai destruindo a sustentação dos dentes na boca”, conta Giuseppe Alexandre Romito, cirurgião dentista e professor da Faculdade de Odontologia da USP.

As características da doença periodontal fazem com que ela possa interferir negativamente em outras doenças.

“Existe várias situações sistêmicas que podem estar associadas à doença periodontal, como em pacientes diabéticos, cardíacos, hospitalizados ou entubados. Ela também tem associação com obesidade e disfunção erétil”, exemplifica o professor da FOUSP.

Em pessoas com diabetes, os mecanismos inflamatórios da doença periodontal dificultam o controle da concentração de glicose no sangue.

“O paciente precisa controlar o nível glicêmico através de exercícios físicos, alimentação, remédios e da manutenção da saúde bucal”, complementa Romito.

Cuidados básicos

Dentistas advertem que dores persistentes na boca, sangramentos, alterações na coloração das gengivas e o aparecimento de lesões são sinais de alerta para marcar uma consulta.

A manutenção da saúde bucal deve ser feita unindo visitas periódicas ao profissional da saúde com hábitos diários.

Uma alimentação saudável é imprescindível para evitar problemas na boca. A elevada ingestão de açúcar, por exemplo, pode gerar cáries e inflamações na gengiva.

“É preciso estar atento ao açúcar escondido em alimentos que não são doces, mas que são carboidratos ou levam açúcar em sua composição, como salgadinhos e biscoitos”, explica Sofia Takeda Uemura, cirurgiã dentista e presidente da Comissão de Ética do CROSP (Conselho Regional de Odontologia de São Paulo).

A escovação dos dentes e o uso do fio dental são hábitos rotineiros que não podem ser deixados de lado. “Utilize sempre um creme dental que contenha flúor e se atente aos horários da escovação. O melhor momento de realizar a higienização dos dentes é sempre após as refeições e antes de dormir”, orienta a dentista.

Junto a estas medidas rotineiras, as visitas periódicas ao dentista consolidam uma boa saúde bucal. Segundo Uemura, a periodicidade das visitas deve ser individualizada de acordo com o risco de cada pessoa.

“Não dá para generalizarmos se as consultas devem ser de 6 em 6 meses ou de 1 em 1 ano, por exemplo. Quem determina isso é o dentista de acordo com as necessidades do paciente”, defende.

Principais doenças

Cáries

Obstrução dos dentes causada pela proliferação das bactérias da boca após consumo exagerado de açúcar

Aftas

São pequenas feridas ovais e esbranquiçadas que surgem na mucosa, nas gengivas e sob a língua

Halitose (mau hálito)

Causado pelo gás sulfídrico, produzidos pelas centenas de micro-organismos existentes na boca

Gengivite e periodontite

É uma inflamação da gengiva, causada pela placa bacteriana, que pode comprometer um ou mais dentes

Endocardite bacteriana

É uma complicação grave da periodontite, quando as bactérias instaladas na boca se espalham pela corrente sanguínea

Herpes

nfecção causada por vírus com a presença de pequenas feridas agrupadas que em geral surgem nos lábios

Câncer

Pode afetar lábios, gengivas, área interna das bochechas, céu da boca e língua

Sinais de alerta para buscar um dentista fora das visitas periódicas:

Dores persistentes na boca (seja nos dentes, nas gengivas ou na mandíbula durante a mastigação ou movimentação)

Sensibilidade nos dentes

Sangramentos na hora da escovação ou ao passar fio dental

Aparecimento de lesões que não cicatrizam

Rangidos nos dentes durante a noite

Alteração na coloração das gengivas (que são geralmente rosadas e sem brilho)

​Cuidados gerais

Evitar o consumo exagerado de açúcar (atenção especial para alimentos com açúcar “escondido”, como pães, salgadinhos e biscoitos)

Evitar bebidas açucaradas ou muito ácidas

Não fumar

Manter uma alimentação saudável no dia-a-dia

Utilizar fio dental antes da escovação

Escovar os dentes sempre após as refeições e antes de dormir

Consultar um dentista periodicamente (a periodicidade é individualizada e deve ser determinada pelo profissional para cada paciente)

Fontes: Andréa Lusvarghi Witzel, cirurgiã dentista e professora da Faculdade de Odontologia da USP; Giuseppe Alexandre Romito, cirurgião dentista e professor da Faculdade de Odontologia da USP; Sofia Takeda Uemura, cirurgiã dentista e presidente da Comissão de Ética do CROSP (Conselho Regional de Odontologia de São Paulo)