Como sobreviver no home office e não enlouquecer?

  • OAB Franca
  • Publicado em 28 de abril de 2020 às 14:05
  • Modificado em 8 de outubro de 2020 às 20:39
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Como sobreviver no home office e não enlouquecer entre pilhas de louças e de processos?

​Desde o começo da pandemia todos nós, habitantes do planeta Terra, nos vimos em meio a muitas mudanças. As aulas foram suspensas, o comércio foi fechado, o direito de ir e vir foi mitigado pelo bem comum que é saúde pública.

Fomos obrigados a ficar em casa, nada de barzinho, nada de almoço no quilo, nada de passeio no shopping. E com tais mudanças, vieram também as mudanças profissionais.

Muitos de nós deixamos o ambiente profissional e corporativo para trabalhar da mesa de jantar de casa. Trocamos o terno e gravata pelo moletom e os sapatos de saltos por chinelos ou pantufas.

No entanto, apesar das vestes serem diferentes, o trabalho por muitas vezes não parou. Pode ter diminuído ou aumentado, às vezes sensivelmente, às vezes drasticamente, mas não parou.

No caso específico dos advogados, o Poder Judiciário continuou a trabalhar, remotamente, longe dos fóruns e dos Tribunais, mas produziu e produz muito, ainda que com teletrabalho de todo os servidores. E com o teletrabalho, muito daquilo que se resolvia apenas presencialmente, foi transformado em tecnologia.

Os advogados, por seu turno, que já estavam se ambientando, no caso do TJSP desde 2013, com o processo digital, se viram mergulhados no ambiente digital.

Todo caso, para cumprimento das regras de isolamento impostas e obrigatórias, devem ser realizados por meio digital.

O básico já vinha sendo realizado, contudo, fomos mergulhados em um novo ambiente. De casa, podemos fazer audiência, conversar com cliente, produzir petições e toda a infinidade de possibilidades que a pandemia obrigou e a tecnologia proporcionou

Mas uma pergunta fica no ar: como não se perder no home office entre processos e louças sujas?

A pergunta se faz latente, pois estamos muito condicionados ao trabalho no ambiente profissional, devidamente trajados com horário de entrada e saída, passando pelo cafezinho com os colegas.

E agora, estamos sozinhos em casa, tendo que trabalhar e produzir.

Nosso ambiente não é profissional, nossa cadeira não é a mais confortável, nossa internet e equipamentos eletrônicos não são os melhores. Temos interrupção da família, dos filhos e até mesmo dos animais de estimação.

Temos o todo serviço doméstico, temos o almoço a fazer, a casa para arrumar, pois não dá para ignorar que o banheiro está sujo, a casa precisa de uma varrida, ou até mesmo a cama está sem arrumar.

Afinal, estamos todos no mesmo ambiente o dia todo e todo dia.

Considerando essa mistura entre o ambiente profissional e pessoal, e após ler diversos depoimentos, diversos textos e diversas dicas de “como fazer” e “como não fazer”, chegamos a algumas ideias que podem ajudar a não enlouquecer no home office.

O primeiro passo, acreditamos ser o mais importante, é estabelecer um horário para acordar, que seja condizente com os trabalhos a serem devolvidos no dia. Estabelecido o horário de despertar. É hora de colocar a mão na massa.

Acho que o top 5 de importância para dar o start no modo home office, a nosso ver, é:

1) Trocar de roupa: pijama é bom, mas o dia inteiro mina nossa capacidade de ligar o “modo profissional”, pois não traz a seriedade que o ambiente de trabalho necessita e, ao optar por ficar com o pijama o dia todo, não damos seriedade àquilo que precisamos fazer;

2) Arrumar a cama: pois mais bobo que pareça, tem um importância interessante, pois você rompe com a possibilidade de voltar a dormir, afinal, quem quer desarrumar uma cama arrumadinha? Além do mais, trabalhar na cama, outro erro, mina sua capacidade de concentrar e produzir, ainda que de forma reduzida e real.

3) Tomar um café reforçado. Nada de ficar beliscando durante o dia todo.

4) Arrumar a bagunça da casa: se você mora com crianças ou não, basta colocar as coisas no lugar, nada muito elaborado ou suado. Somente para ter a sensação de organização. Para que a bagunça não se escancare o tempo todo em seus olhos e te impeça de ser produtivo.

5) Começar a trabalhar: simples mais efetivo. Primeiro passo sempre mais complicado, mas após dado, os demais virão em cadência.

Esse, confessamos, é nosso ritual toda manhã.

Demos o primeiro passo, estamos devidamente trajados e a casa está minimamente organizada, só que o trabalho está emperrado, as ideias não fecham, o pensamento não ajuda, e juro, meu colega está produzindo horrores, fazendo várias lives, reuniões importantes, conteúdo jurídico, e eu aqui nessa inércia.

Sabe-se que o trabalho em tempos de pandemia sofreu alterações, seja no modo de fazer, seja na quantidade, seja na qualidade. Pois não estamos 100% com nossa saúde mental (afinal temos uma pandemia para lidar), não estamos no lugar mais produtivo, e, sinceramente, meus colegas de trabalho não ajudam.

O que fazer?

Há profissionais trabalhando como nunca, se reinventaram com a crise, estão, como dizia outrora, na crista da onda, todavia, há aqueles que estão apenas fazendo o essencial pra não parar.

Todos os modos são válidos em tempos de crise. Lembre-se, estamos lidando com nossos problemas cotidianos em meio a uma pandemia. Tudo bem se sentir perdido.

Sabe-se que há profissionais que são produtivos em qualquer circunstância, que conseguem continuar a produzir conteúdo jurídico, conseguem gerenciar seu escritório à distância e manter a equipe consonante e produtiva.

É raro, mas é possível. E não vamos dar o segredo dessa magia, pois sinceramente, não sabemos qual é.

Mas há aqueles que estão fazendo o possível, nos encaixamos aqui, a produtividade não é das melhores, a comunicação com a equipe está ruim e a formas impostas pelo isolamento está prejudicando muito a capacidade de criar.

Essa situação é mais comum, e é a realidade de muitos profissionais.

Como sabemos que a pandemia está longe de seu fim. Sabemos também, que o trabalho em home office terá que ser aperfeiçoado dia a dia, pois dependemos dele para pagar as contas.

Não obstante, temos que encarar que o trabalho em casa pode ser a nossa nova realidade de trabalho na segunda década do século XXI, pois apesar dos perrengues, temos vários benefícios que devem ser extraídos, deveremos adaptar nossa capacidade de criar, mesmo não estando em um ambiente corporativo.

Complicado, eu sei. Mas será necessário.

Entendemos que, a primeira coisa que muitas pessoas relatam quanto optam por trabalhar em casa é a criação de rituais, cada qual a sua maneira, para que se consiga ultrapassar a barreira estar em casa, para trabalhar em casa.

A tecnologia deve e tem ser usada a exaustão. Esse é primeiro grande segredo, que é não é secreto de ninguém.

Há de haver familiarização com a tecnologia disponível para desenvolver seu mister. Aqui fazemos um parêntese. Ponto essencial para o trabalho é essa tal tecnologia. Impossível viver em pleno século XXI sem estar ao menos familiarizado com a tecnológica disponível.

Os processos são em sua grande maioria digitais.

Algumas audiências serão em ambiente digital. Os contatos são em sua maioria via internet.

Estando em dia com a tal tecnologia, é hora de se concentrar em fazer o trabalho.

Isso não é, reiteramos, segredo.

Deve-se começar o trabalho como se estivesse na empresa.

Nossa dica é sempre começar pelo mais simples e mais rápido, isso gera uma onda de “cumprimento de tarefas” que estimula o cérebro a manter o ritmo, pois os resultados (resolução da tarefa) são palpáveis. E isso, é uma recompensa ao cérebro.

Além do mais, se você trabalhar com uma equipe, a resolução de pequenas tarefas, poderá gerar novas tarefas ou resolver tarefas de toda a equipe, e por tabela, manter a produtividade de todos.

Feitas todas as pequenas tarefas, é hora de se concentrar nos peixes grandes. Essas tarefas mais complexas e mais desafiadoras são difíceis de encarar em qualquer ambiente. Seja no escritório, ou seja, em casa.

Nossa dica é dividir a tarefa em pequenas tarefas. Ao dividir em partes menores, terá a dimensão do que tem que ser feito. Um exemplo: uma contestação de uma inicial que tem 20 pedidos e mais 40 teses. Um Everest a ser escalado, diga-se de passagem, mas, segundo o que praticamos, divida o que deverá ser contestado. Faça tópicos de cada uma das argumentações a serem enfrentadas. Esquartejamos a inicial e será mais fácil contestá-la.

Esse exemplo pode ser aplicado em todos os grandes peixes.

Esses são alguns drops de como as coisas podem funcionar, não há fórmula mágica para o sucesso do seu home office, há apenas meios que podem ser empregados para que se consiga alguma produtividade e não enlouquecer ou ir à falência.

Mas não perca de vista: A pandemia não deu a largada numa corrida por produtividade. Tudo bem não conseguir criar um milhão e meio de novas teses jurídicas, não conseguir conciliar os trabalhos de casa com os prazos, não conseguir se destacar. A pandemia não se serve para isso.

Temos, hoje, apenas que lidar com o dia a dia. Tentando não adoecer com vírus e nem adoecer nossa saúde mental. Temos que, sem falsas promessas, nos concentrar no que dá para ser resolvido. E, deixar para o nosso “eu do futuro” (que positivamente acreditamos que estará numa melhor condição de saúde física e mental) resolver o que não for urgente, o que não tiver prazo, o que puder esperar.

Rafaela Pinto da Costa Bezerra Cunha Sousa.

OAB/SP 321.178