Cães e gatos de estimação: por que não podem receber os mesmos cuidados de saúde?

  • Nene Sanches
  • Publicado em 22 de agosto de 2026 às 20:00
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Diferenças no metabolismo, na alimentação, no comportamento e na resposta aos medicamentos exigem abordagens veterinárias específicas

Eles dividem o sofá, disputam a atenção dos responsáveis e ocupam um espaço cada vez maior nas famílias brasileiras. A convivência pode ser harmoniosa, mas cães e gatos pertencem a universos biológicos distintos.

Da alimentação ao comportamento, da forma de demonstrar afeto à maneira de metabolizar medicamentos, cada espécie reúne características que pedem cuidados específicos.

“Cães e gatos possuem necessidades nutricionais, comportamento, metabolismo e, principalmente, respostas aos medicamentos muito particulares. Quanto maior o conhecimento dos responsáveis sobre essas diferenças, melhor a qualidade de vida dos animais e mais seguros e eficazes se tornam os tratamentos”, explica a médica veterinária e consultora da DrogaVET, Dra. Farah Ramalho.

Biologia e comportamento

Originados dos ancestrais de lobos, os cães passaram por um longo período de domesticação e desenvolveram intensa capacidade de convivência social e de interpretação de sinais humanos.

Os gatos descendem do gato-selvagem-africano (Felis silvestris lybica) e se aproximaram das comunidades humanas atraídos pelos roedores presentes nas áreas agrícolas. Como seguiram uma trajetória diferente, conservaram maior autonomia e forte instinto de caça.

Essas diferenças permanecem na rotina. Cães tendem a buscar interação com mais frequência; gatos costumam valorizar previsibilidade, controle do ambiente e locais de refúgio. São tendências, não regras: idade, personalidade, experiências anteriores, saúde e manejo influenciam cada animal.

Na alimentação, cães são onívoros com forte adaptação ao consumo de alimentos de origem animal e conseguem utilizar nutrientes de fontes variadas quando recebem uma dieta completa e equilibrada.

Diferenças

Gatos são carnívoros estritos e dependem de nutrientes encontrados em tecidos animais, como taurina, arginina, ácido araquidônico, vitamina A pré-formada e niacina.

A hidratação também merece atenção: muitos felinos ingerem pouca água espontaneamente e podem produzir urina mais concentrada. Diferentes pontos de água, recipientes limpos e alimentos úmidos, quando indicados pelo médico veterinário, podem favorecer o consumo hídrico.

A comunicação segue códigos próprios. Cães combinam vocalizações, postura, cauda, orelhas e expressões faciais. Gatos emitem sinais mais sutis, como piscadas lentas, mudanças na posição das orelhas e das vibrissas (bigodes), vocalizações específicas e o hábito de esfregar o corpo em objetos e pessoas. Interpretar esses sinais reduz o estresse e fortalece o vínculo com o responsável.

Na farmacologia, espécie não é detalhe

A forma como cada organismo absorve, distribui, metaboliza e elimina um medicamento varia entre as espécies. Medicamentos seguros para cães podem representar riscos graves para gatos, e o contrário também é verdadeiro.

Mesmo quando apresentam doenças semelhantes,  cães e gatos podem necessitar de princípios ativos, doses, intervalos e formas farmacêuticas diferentes. Peso é apenas um dos fatores: idade, condição clínica e outros medicamentos em uso também interferem na segurança do tratamento.

A ivermectina, por exemplo, é contraindicada para algumas raças caninas e seus cruzamentos, filhotes com menos de seis meses, fêmeas gestantes ou lactantes, cães com determinadas doenças hepáticas e neurológicas e animais com variantes no gene MDR1/ABCB1, pois apresentam maior risco de neuro toxicidade com determinadas doses de algumas lactonas macrocíclicas.

Pode ou não pode

Para os felinos, há usos específicos, mas a margem de segurança depende muito da dose e da indicação. Formulações muito concentradas ou doses inadequadas podem causar intoxicação neurológica, com sinais como desorientação, falta de coordenação, tremores, alterações visuais, convulsões e redução do nível de consciência. A apresentação e a dose prescritas para outro animal nunca devem ser reaproveitadas.

O diclofenaco, anti-inflamatório comum na medicina humana, pode provocar lesões gastrointestinais e renais graves em cães e gatos. Não deve ser administrado sem prescrição veterinária. Já o carprofeno é empregado principalmente em cães.

Seu uso em felinos é mais limitado e exige dose e intervalo específicos, pois dose, repetição e condição renal, hepática ou gastrointestinal podem aumentar o risco de reações adversas.

Risco

A permetrina, presente em alguns antiparasitários exclusivos para cães, é outro alerta. Em gatos, a exposição pode desencadear tremores, convulsões e alterações neurológicas potencialmente fatais.

O risco inclui a aplicação indevida no felino e, conforme o produto, o contato próximo com um cão recém tratado antes da secagem da área de aplicação.

“Esses exemplos mostram por que nunca se deve compartilhar medicamentos entre espécies. Mesmo quando os sinais clínicos parecem semelhantes, o que é seguro para um cão pode representar um risco importante para um gato”, alerta Farah.

Tratamento sob medida

Com o aumento da expectativa de vida dos animais de companhia e da convivência cada vez mais próxima com as famílias, cresce também a necessidade de tratamentos veterinários personalizados e seguros.

Quando há prescrição e viabilidade farmacotécnica, a manipulação permite ajustar concentração, apresentação e sabor para facilitar a rotina.

Biscoitos medicamentosos, molhos flavorizados, pastas orais, cápsulas, suspensões, sachês, géis transdérmicos e soluções dermatológicas, otológicas e oftálmicas estão entre as possibilidades. Nem toda via é adequada para qualquer princípio ativo; a decisão cabe ao prescritor, com avaliação técnica da farmácia.

Em situações selecionadas, diferentes princípios ativos podem ser reunidos em uma formulação, desde que exista compatibilidade e indicação clínica. A estratégia pode reduzir o número de administrações e favorecer a adesão, especialmente entre pacientes idosos ou com doenças crônicas.

O que diz a veterinária

“A adesão começa muito antes do efeito do medicamento. Ela começa no momento em que o animal aceita receber aquela medicação sem transformar cada dose em um momento de estresse para toda a família”, destaca a veterinária.

Na medicina veterinária moderna, a individualização do tratamento considera não apenas a espécie, mas também idade, peso, condição clínica, doenças associadas e resposta individual de cada paciente.

Para os responsáveis, a orientação é simples: não compartilhar medicamentos, não adaptar doses por conta própria e procurar atendimento diante de sinais clínicos, suspeita de intoxicação ou dificuldade para administrar o tratamento.

Embora cães e gatos compartilhem o ambiente doméstico, eles apresentam diferenças biológicas profundas que exigem abordagens específicas na prevenção, no diagnóstico e no tratamento. Reconhecer essas particularidades é um dos pilares da medicina veterinária segura.

BOX  

Cães Gatos
  • Metabolizam diversos medicamentos com maior rapidez
  • A deficiência natural de enzimas hepáticas altera o metabolismo de vários fármacos
  • Fármacos mais perigosos: ibuprofeno, paracetamol, diclofenaco, ácido acetilsalicílico e orfenadrina/cafeína
  • Fármacos mais perigosos: ibuprofeno, paracetamol, diclofenaco e permetrina
  • Geralmente aceitam melhor medicamentos por via oral
  • Costumam apresentar maior resistência à administração oral
  • Biscoitos, molhos e outras apresentações mastigáveis costumam ter alta aceitação
  • Géis transdérmicos, pastas orais e formulações altamente palatáveis podem facilitar a adesão
  • Preferência por sabores de carne, bacon, churrasco, fígado e frango
  • Melhor aceitação de sabores como atum, sardinha, salmão e frango

NUNCA FAÇA ISSO

Erros que ainda acontecem com frequência nos lares brasileiros:

Compartilhar medicamentos entre cães e gatos.

Utilizar medicamentos humanos sem orientação veterinária.

Dividir comprimidos “no olho” para ajustar doses.

Interromper tratamentos assim que os sinais clínicos desaparecem, não conforme a prescrição.

Aplicar antiparasitários destinados a cães em gatos.

Alterar doses ou horários por conta própria.

Na medicina veterinária, o medicamento certo depende da espécie, do paciente e do diagnóstico.

PERGUNTAS FREQUENTES

Cães e gatos podem tomar os mesmos medicamentos?

Não. Mesmo quando apresentam doenças semelhantes, diferenças metabólicas podem tornar um medicamento seguro para uma espécie e perigoso para outra.

Por que gatos são mais sensíveis a alguns medicamentos?

Porque apresentam particularidades na biotransformação e na eliminação de diversos medicamentos, incluindo menor capacidade para algumas reações de conjugação hepática, que influenciam a forma como determinados princípios ativos são processados.

Medicamentos manipulados podem facilitar o tratamento?

Sim, quando prescritos pelo médico veterinário e manipulados com formas farmacêuticas e sabores atrativos podem facilitar a administração e melhorar a adesão. Além de serem manipulados exatamente para o peso do animal, o que oferece ainda maior segurança.


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