O autismo ou transtorno do espectro autista (TEA) reúne diferentes condições marcadas por alterações no desenvolvimento neurológico
O Dia Mundial de Conscientização do Autismo é celebrado neste domingo, 2 de abril – foto Arquivo
O Dia Mundial de Conscientização do Autismo, celebrado neste domingo (2), destaca a importância do diagnóstico adequado, do acompanhamento especializado e da inclusão social.
O transtorno do espectro autista (TEA) reúne diferentes condições marcadas por alterações no desenvolvimento neurológico relacionadas a dificuldades de relacionamento social.
Estima-se que em todo o mundo cerca de 1 em cada 100 crianças tenha autismo.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), essa estimativa representa um valor médio, e a prevalência relatada varia substancialmente entre os estudos.
Algumas pesquisas controladas, no entanto, relataram números substancialmente mais altos. Além disso, a prevalência do autismo em muitos países de baixa e média renda é desconhecida.
No Brasil, os estudos de prevalência da condição são escassos. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) incluiu uma pergunta sobre autismo no questionário da amostra do Censo Demográfico 2022. No entanto, os resultados ainda não estão disponíveis, segundo o instituto.
De acordo com o Ministério da Saúde, os sinais de impactos no neurodesenvolvimento da criança podem ser percebidos nos primeiros meses de vida, com o diagnóstico estabelecido por volta dos 2 a 3 anos de idade. Além disso, a prevalência do distúrbio é maior entre indivíduos do sexo masculino.
O termo “espectro” é utilizado para englobar situações e apresentações muito diferentes da condição, que vão de níveis leves a graves.
Entre os sinais estão dificuldade de comunicação por deficiência no domínio da linguagem e no uso da imaginação para lidar com jogos simbólicos, dificuldade de socialização e padrão de comportamento restritivo e repetitivo.
“Atualmente, mais precisamente desde 2013, utilizamos o termo transtorno do espectro autista, ao invés de somente autismo, visto que há uma diversidade de sinais e sintomas e níveis de intensidade desses, diferentes em cada indivíduo portador do quadro”, explica Leandro Gama, neurologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, de São Paulo.
Especialistas em saúde mental e infantil alertam que a identificação de atrasos no desenvolvimento bem como o diagnóstico oportuno permitem a realização de intervenções comportamentais e apoio educacional de maneira precoce, levando a melhorias na qualidade de vida a longo prazo.
As causas do transtorno do espectro autista ainda permanecem desconhecida. Evidências científicas apontam que não há uma causa única, mas uma interação de fatores genéticos e ambientais.
Aperfeiçoamento do diagnóstico
Aspectos no neurodesenvolvimento da criança podem ser percebidos nos primeiros meses de vida, sendo o diagnóstico estabelecido na primeira infância, entre 2 e 3 anos.
Os sintomas incluem dificuldades no aprendizado ou no uso da linguagem, aparente indiferença aos cuidadores, agitação sem explicação clara e comportamentos repetitivos ou estranhos, como balançar-se para a frente e para trás ou criar rotinas específicas para momentos triviais como as refeições, por exemplo.
Quando essas rotinas são quebradas, a pessoa pode apresentar reações que parecem incompreensíveis ou desproporcionais para quem está acompanhando.
O diagnóstico da condição é essencialmente clínico, feito a partir das observações da criança, entrevistas com os pais e aplicação de instrumentos específicos, como explica a neuropediatra Christiane Cobas, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.
“O diagnóstico do transtorno do espectro autista é clínico, não é preciso nenhum exame laboratorial para confirmar o diagnóstico”.
“Se o paciente apresenta algumas características clínicas, o médico está autorizado a fechar o diagnóstico de transtorno do espectro do autismo”.
“Hoje, são considerados dois critérios. O primeiro é dificuldade na comunicação e interação social. O segundo critério envolve comportamentos restritos e repetitivos, como alguma rigidez cognitiva, ter que seguir uma rotina muito rígida senão a pessoa se desorganiza e seletividade alimentar, por exemplo”, afirma.
Segundo os especialistas, não há consenso se há um aumento dos casos da doença ou na detecção da condição.
“Particularmente acredito que esse número está aumentando sim. O motivo não sabemos, existem causas genéticas, mas também existem causas ambientais que podem aumentar a incidência do autismo”, complementa Christiane.
Ao longo das décadas, a identificação do espectro do autismo foi aperfeiçoada. Agora, é mais fácil identificar a condição na infância e essa descoberta tem sido mais frequente, de acordo com a fonoaudióloga Fernanda Dreux Miranda Fernandes, professora associada livre-docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
“O desenvolvimento das pesquisas e dos estudos em linguagem, educação e psicologia levou ao desenvolvimento de técnicas e de métodos que proporcionam um bom desenvolvimento de um potencial que antes não era considerado para essas crianças”, diz.
O relato da família acerca de alterações no desenvolvimento ou comportamento da criança, por exemplo, tem correlação positiva com confirmação diagnóstica posterior.
Segundo a fonoaudióloga da USP, o principal desafio para os pais é a questão da comunicação. Entre as preocupações estão os possíveis impactos da condição sobre a capacidade de fala, de relacionamento e de autonomia.
Tratamento
O Sistema Único de Saúde (SUS) conta com uma rede de apoio e assistência a pacientes com a condição. Na Atenção Especializada da Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência, por exemplo, as pessoas com TEA e seus familiares contam com Centros Especializados em Reabilitação (CER), que são pontos de atenção ambulatorial especializada em reabilitação, responsáveis por diagnóstico, tratamento, concessão, adaptação e manutenção de tecnologia de apoio.
Os tratamentos indispensáveis incluem intervenções educativas, socioeducativas e reabilitativas.
Há ainda o tratamento médico e psiquiátrico para as limitações funcionais e de linguagem, a agitação, a limitação motora e, como muitas vezes acontece, o tratamento de outro diagnóstico que pode vir acompanhado com o autismo, como o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).