Pequenos negócios podem aproveitar a tendência “Brazil core”, mas devem ficar atentos para não comprometer o caixa, diz economista
A empreendedora Mirian Cristina Braga (@mirian.lacos_) trabalha com artesanato em resina e acessórios infantis há cinco anos e está sempre atenta às tendências.
Mas, este ano, foram os clientes que levaram a novidade até ela: eles começaram a pedir peças nas cores verde e amarelo, para celebrar o Brasil na Copa do Mundo.
“O pessoal começou a fazer encomendas e quer tudo assim, verde e amarelo. Até tentei fazer azul e amarelo, mas não tem procura”, conta Mirian, que montou um espaço dedicado ao Brasil em seu ateliê.
A Copa do Mundo 2026 está revivendo a cultura do verde e amarelo, que aparece em roupas, acessórios, itens infantis e até peças para pets.
Gira em torno da Copa do Mundo
É o “Brazil core”, tendência que foi além dos uniformes de torcida e passou a integrar coleções, vitrines e campanhas publicitárias.
Quem também viu uma oportunidade foi a artesã Cilene Rios (@cilene_artes), cujas roupas para pet já fazem sucesso. “A chegada do frio e a Copa do Mundo ajudaram nas vendas”, diz.
Para o professor de Economia da Universidade Anhembi Morumbi, integrante do Ecossistema Ânima, Denis Medina, o pequeno empreendedor deve enxergar essa onda principalmente como uma ferramenta de fortalecimento de marca.
“Minha orientação é usar o evento para atrair e fidelizar clientes por meio de uma experiência de atendimento diferenciada”, diz Medina.
Movimento sazonal
Na avaliação do economista, a oportunidade existe, mas precisa ser tratada como um movimento sazonal. Para quem trabalha com produtos, como roupas, acessórios, itens personalizados ou peças temáticas, o cuidado deve estar no volume de compras e de produção.
A demanda, segundo ele, está diretamente ligada ao desempenho da Seleção Brasileira durante o Mundial, por isso, nada de manter grandes estoques.
“O planejamento de compras de matéria-prima deve ter ‘gatilhos de parada’. Se a Seleção avançar, tem continuidade; se for eliminada, a produção deve ser congelada imediatamente para liquidação do saldo existente, evitando perdas de margem”, orienta.
A recomendação é diferente para negócios de serviços e alimentação, como bares, restaurantes, cafeterias e docerias. Nesses casos, a onda verde e amarela pode ser usada para criar experiência, atrair clientes nos dias de jogos e estimular o retorno depois da Copa.
Mercado competitivo
Decoração temática, pratos sazonais, vitrines, uniformização temporária da equipe, promoções casadas e ações em redes sociais podem gerar identificação imediata com baixo investimento.
“O empreendedor deve ter em mente que em mercados altamente competitivos e sazonais, a agilidade operacional e a segurança de caixa valem muito mais do que a busca por vendas de oportunidade”, diz.
Segundo Cacau Claudia Martins, professora de Design de Moda da Universidade Anhembi Morumbi, o avanço do verde e amarelo também ajuda a explicar por que a tendência deixou de aparecer apenas nos dias de jogo.
“Uma das características do movimento atual é justamente a adaptação das referências esportivas para situações que não estão diretamente ligadas aos jogos. As marcas estão montando looks para que as pessoas possam trabalhar, passear e realizar as atividades do dia a dia. Não são apenas peças destinadas aos momentos de torcida, mas roupas que lembram o Brasil, a Copa e os jogadores”, afirma.
Identidade e pertencimento
A tendência pode ser entendida como uma releitura global e comercial de símbolos que já faziam parte da cultura e do vestuário do país, mas que adquiriram novo valor ao serem vistos como linguagem de moda.
Além dos looks, o fenômeno também abre discussões sobre identidade nacional, futebol, consumo e a forma como a imagem do Brasil é apresentada e comercializada.
Brasil afora, artesãs e confecções também pegaram a onda e contribuem para ampliar a tendência, criando peças autorais a partir de um dos principais símbolos do futebol.
Preferências individuais
“É interessante observar o movimento das artesãs que trabalham o crochê e o artesanal nas camisetas. Existe um reconhecimento dos consumidores não apenas pelas marcas, mas também pelo trabalho desenvolvido por elas”, explica Cacau.
Para a professora, as roupas também cumprem uma função simbólica durante a competição. Além de expressarem preferências individuais, elas ajudam a criar uma identificação entre pessoas que compartilham o apoio ao país.
“A moda é uma forma de expressão individual. Fala sobre quem a veste, mas também proporciona uma sensação de pertencimento coletivo, especialmente quando as pessoas estão torcendo pelo país”, avalia.