O número de mulheres diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) após os 30 ou 40 anos cresceu; entenda os preconceitos históricos que causaram esse atraso
Um número cada vez maior de mulheres tem recebido o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) na maturidade (Foto Correio Brasiliense)
Nos últimos anos, as redes sociais e os consultórios de psicologia registraram um fenômeno marcante. Um número cada vez maior de mulheres tem recebido o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) na maturidade.
Para muitas, essa descoberta tardia traz um misto de alívio, autoconhecimento e validação de uma vida inteira cheia de incompreensões.
Falta de encaixe social, esgotamento mental inexplicável e hipersensibilidade sensorial costumam acompanhar essas pacientes desde a infância.
Mas afinal, por que a identificação demorou tanto para acontecer?
O erro histórico nos primeiros estudos sobre o autismo
Para compreender o atraso nos diagnósticos, precisamos olhar para o passado da ciência.
Os primeiros estudos sobre o autismo, realizados na metade do século XX, focaram quase exclusivamente em meninos.
Os pesquisadores da época acreditavam erroneamente que o TEA era uma condição que afetava apenas o sexo masculino, na proporção de quatro homens para cada mulher.
Essa herança médica fez com que os critérios de diagnóstico fossem baseados nos comportamentos dos meninos. Entre eles, o isolamento total e o interesse obsessivo por objetos mecânicos.
Como a apresentação do autismo nas mulheres costuma ser diferente, milhões de meninas foram completamente invisibilizadas pelos sistemas de saúde e de educação por gerações.
Mitos sobre o autismo que prejudicam as mulheres
A desinformação ainda é uma grande barreira para o diagnóstico correto. Muitas pessoas acreditam no mito de que o autista é incapaz de demonstrar afeto, manter contato visual ou ter uma vida independente.
Esse estereótipo ultrapassado afasta as mulheres da busca por ajuda especializada.
Outro mito comum é achar que o autismo se manifesta sempre da mesma forma. O TEA é um espectro amplo.
Mulheres autistas frequentemente possuem uma excelente capacidade de comunicação verbal e podem manter relacionamentos e carreiras profissionais de sucesso. No entanto, o sofrimento interno delas permanece invisível para a sociedade.
O fenômeno do masking e a descoberta na maturidade
A principal resposta para o diagnóstico na vida adulta atende pelo nome de masking (ou camuflagem social).
Desde a infância, as mulheres são socialmente pressionadas a serem gentis, comunicativas e expressivas. Para se adaptarem, as meninas autistas passam a copiar de forma consciente os comportamentos das outras pessoas.
Elas forçam o contato visual, imitam expressões faciais e decoram roteiros sociais inteiros para parecerem neurotípicas.
Esse esforço diário consome uma quantidade gigantesca de energia. Na vida adulta, o peso de gerenciar carreira, maternidade e relações amorosas faz essa máscara cair.
O esgotamento extremo, conhecido como burnout autista, costuma ser o gatilho que as leva a buscar respostas e, finalmente, encontrar o diagnóstico correto.