Cresce a adesão a creches e hotéis para pets como estratégia para evitar ansiedade, agressividade e dificuldades de convivência
A ausência de socialização adequada nos primeiros meses de vida pode resultar em transtornos sérios de comportamento em cães e gatos, como fobias, agressividade e ansiedade de separação.
O alerta vem de especialistas da área pet, que observam um aumento significativo na busca por espaços coletivos planejados, como creches e hotéis, voltados ao desenvolvimento emocional e comportamental dos animais.
Estudos da American Veterinary Society of Animal Behavior (AVSAB) recomendam que o processo de socialização ocorra entre a terceira e a décima segunda semana de vida dos filhotes.
Nesse período, estímulos positivos com pessoas, outros animais e ambientes diversos são decisivos para moldar a resposta emocional do pet ao longo da vida.
No Brasil, onde o número de animais de estimação ultrapassa 149 milhões, segundo o Instituto Pet Brasil (IPB), cresce a conscientização sobre a importância da socialização orientada como parte fundamental do bem-estar animal.
Características
É certo que cães e gatos se beneficiam da socialização precoce, porém os processos são diferentes em função das características naturais de cada espécie.
Cães, por serem animais sociais por natureza, precisam de estímulos frequentes com pessoas, outros cães e ambientes variados para desenvolver habilidades de convivência.
Já os gatos, que tendem a ser mais territoriais e seletivos, se beneficiam de socializações mais graduais e controladas, preferencialmente dentro de seu território ou em espaços bem adaptados.
Interação
Segundo a American Veterinary Medical Association (AVMA), enquanto cães respondem melhor a interações em grupo, os gatos tendem a formar vínculos mais fortes com poucos indivíduos e precisam de tempo para aceitar novas presenças ou ambientes.
“Gatos não são cães pequenos. O manejo, a socialização e o tempo de adaptação devem respeitar suas particularidades. Forçá-los a interações indesejadas pode gerar retraimento ou comportamento defensivo”, afirma André Faim.
Em ambos os casos, no entanto, o estímulo positivo durante a fase de desenvolvimento é decisivo para prevenir distúrbios como agressividade, fobia social e estresse crônico.
“Quando falamos em socialização, estamos falando de saúde mental. Animais que não aprendem a conviver com o mundo à sua volta se tornam mais reativos, inseguros e até perigosos em determinados contextos”, afirma André Faim, empresário do setor e cofundador da rede Lobbo Hotels e da plataforma Trabalhe pra Cachorro.
Pânico canino
Segundo ele, é comum que tutores procurem ajuda apenas quando os problemas já se manifestaram de forma intensa. “Recebemos cães com dificuldade até para usar coleira, com pânico de barulhos simples ou aversão a contato físico. Tudo isso poderia ter sido prevenido com estímulos adequados na fase certa”, diz.
Nos hotéis da rede Lobbo, o processo de integração é gradual e supervisionado. Os animais são divididos em grupos conforme seu perfil comportamental e passam por atividades diárias com foco em estímulo físico e cognitivo. A rotina inclui momentos de socialização, descanso, brincadeiras coletivas e contato com diferentes pessoas.
“Temos uma rotina estruturada para promover interações positivas e seguras. O objetivo não é apenas entreter, mas formar animais mais confiantes e equilibrados”, explica Faim.
A escolha de um ambiente coletivo adequado, no entanto, exige atenção dos tutores. A estrutura física, a capacitação da equipe e a metodologia adotada são determinantes para que a experiência seja positiva. “Socialização não é colocar vários cães juntos num mesmo pátio. Exige planejamento, leitura de sinais, respeito ao tempo do animal e, principalmente, intervenção profissional”, reforça.
Estímulos humanos
Outro ponto destacado pelo empresário é que o processo de socialização deve incluir estímulos humanos variados.
“É importante que o animal esteja acostumado com adultos, crianças, idosos. Isso o prepara para situações cotidianas, como visitas em casa, idas ao pet shop ou até passeios em locais movimentados. Quanto mais repertório ele tiver, mais seguro será seu comportamento”, explica.
A prática também traz benefícios diretos à rotina dos tutores. Cães e gatos socializados tendem a apresentar menos episódios de estresse, latidos excessivos, comportamentos compulsivos ou destrutivos. Além disso, tornam-se mais receptivos a comandos e a intervenções de adestramento, o que facilita a convivência familiar e o manejo em espaços públicos.
“O tutor percebe a diferença no dia a dia. Um animal tranquilo, que se adapta bem a mudanças e lida melhor com estímulos externos, contribui para uma convivência mais harmoniosa. É um investimento que retorna em forma de tranquilidade para toda a família”, avalia Faim. “E quanto antes começar, melhor. A primeira infância dos pets é uma janela que não volta.”
Pets sofrem de ansiedade
A Fundação Getulio Vargas (FGV), em estudos sobre comportamento organizacional adaptados ao universo pet, também aponta que estímulos positivos e frequentes são capazes de reduzir significativamente comportamentos indesejados.
A ausência desses estímulos pode agravar quadros de ansiedade e comprometer o bem-estar mental dos animais.
O crescimento da demanda por socialização e serviços comportamentais reflete uma mudança no perfil do tutor brasileiro. Cada vez mais, cães e gatos são vistos como membros da família, e o cuidado vai além das necessidades físicas.
“O mercado pet está em um novo estágio. Não se trata mais apenas de oferecer comida e abrigo. Estamos falando de vínculos afetivos, de saúde emocional e de um olhar mais responsável sobre a vida desses animais”, conclui Faim.