Antes de escolher as espécies, é preciso avaliar a compatibilidade com a região para que não sofram com baixas temperaturas e geadas intensas
Neste projeto com paisagismo de Catê Poli, o espelho d’água está cercado de falso-íris, espécie resistente ao inverno, além de papiro, guaimbê e jabuticabeira (Projeto de arquitetura: Gilda Meirelles | Foto: Evelyn Muller)
Assim como uma pessoa se adapta melhor ao calor e a outra diz viver melhor nas épocas de frio, as plantas também carregam suas preferências.
E por que é importante conhecer essas características das espécies? Experientes, os paisagistas Catê Poli e João Jadão afirmam que o comportamento delas diante do clima predominante em uma região determinará o resultado do seu cultivo.
Com as baixas temperaturas, especialmente nas regiões Sul e Sudeste, é preciso saber quais são as plantas mais ou menos resistentes ao inverno para dedicar a atenção necessária nesse período, além de entender os cuidados que pede a estação.
Ecossistema
Os paisagistas Cate Poli e João Jadão no Jardim da Alameda assinado por eles para a CASACOR São Paulo 2025 (Foto: Renato Navarro)
Para Catê Poli, as árvores brasileiras, capazes de se desenvolver naturalmente em todo o território nacional, se saem melhor no frio quando comparadas aos arbustos vindos de uma região específica.
“Essa é uma questão muito interessante e facilmente compreensível, uma vez que as nativas estão mais alinhadas ao seu habitat de origem e podem passar por algumas dificuldades quando inseridas dentro de outro ecossistema”, explica.
Entre as árvores que suportam o frio extremo ela enumera os ipês, a cerejeira-do-Rio-Grande e a araucária, espécies extremamente adaptadas às condições climáticas encontradas nos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. “Aliás, a araucária é milenar e tornou-se símbolo da região sul“, relata João.
Sobre os arbustos, que alcançam alturas de pequeno e médio porte e trazem uma folhagem mais densa e espessa, os paisagistas contam que o capim-barba-de-bode, o capim-setária e o capim-dos-pampas crescem bem em regiões climas gélidos, enquanto espécies como a neve-da-montanha, neomarica caerulea (falsa-íris azul), caliandra e manacá-de-cheiro resistem ao frio, desde que não sejam afetadas por geadas intensas.
Qual a importância de conciliar a espécie com a região?
De acordo com João, essa atenção torna o paisagismo sustentável e ressalta que os arbustos, apesar das limitações, podem ser complementados por ornamentais não nativas como azaleias, hortênsias, sálvia leucantha e capim-do-Texas, especialmente importados de climas frios da Europa, Ásia subtropical e África do Sul.
Ele indica que esse processo de misturas de espécies torna a composição dos projetos de paisagismo mais viável em regiões frias. Cate reforça essa mensagem: “mesmo que se use poucas opções nativas de arbustos, priorizar árvores brasileiras adequadas ao clima já representa uma excelente harmonia com o meio ambiente“.
Legalmente, projetos de reflorestamento exigem 100 % árvores nativas — arbustos entram apenas em processos regenerativos com menor impacto na compensação ambiental.
É importante lembrar que, por sermos um país tropical, a maioria das plantas nativas tolera temperaturas de até cerca de 15 °C (algumas até 10 °C), mas abaixo disso e em geadas, poucas resistem ao rigor do inverno.
A entrada é contornada por falso-íris, que resiste bem ao inverno | Projeto paisagismo Catê Poli (Projeto de arquitetura: Gilda Meirelles | Foto: Evelyn Muller Fotos: Evelyn Muller)
Cuidados com as plantas no Inverno: dicas de ouro de Catê Poli e João Jadão
No inverno, o jardim entra em dormência e assim as plantas não se desenvolvem. Caso sejam plantadas nesse período, o crescimento acontecerá a partir de setembro.
Por ser uma estação mais seca, é preciso prestar atenção à rega. Em invernos mais úmidos, é preciso cuidado para não exagerar na rega e deixar que as plantas fiquem apodrecidas, uma vez que o sol não é suficiente. Se estiver muito ressequido, é preciso complementar com água e, se estiver muito úmido, cuidado com o excesso, pois demora para evaporar devido à falta de Sol.
No inverno, é tempo de fazer podas estéticas, não as drásticas, porque a planta não vai crescer ainda. Tudo o que for realizado deve acontecer no fim do inverno pensando na preparação do jardim para primavera e verão. Por exemplo, no final da estação fria é indicada a adubação das plantas, pois com o calor e a chuva que acontecem na primavera, elas responderão maravilhosamente.
Nessa época, não há crescimento e a formação de novos brotos – pelo contrário, a planta pode secar e será preciso podar. Isso é algo que acontece como uma lei da vida e da natureza.
Dentro de casa é importante avaliar se o local onde o vaso está incide no local. Caso a resposta seja não, é indicado mudá-lo de lugar.
Em caso de viagens, é preciso pedir para alguém cuidar da rega.
Sobre Catê Poli
Arquiteta paisagista formada pela FAUUSP, com pós-graduação em Comunicação pela ESPM. Com mais de três décadas de atuação no mercado, iniciou sua trajetória profissional em 1990 e, desde 2000, comanda o próprio escritório.
Especializada em projetos de paisagismo residencial de alto padrão, atua em todo o território nacional e já assinou trabalhos internacionais em países como Estados Unidos, Angola e Austrália.
Participou de diversas edições da CASACOR São Paulo e Rio de Janeiro e foi colunista do site Casa e Jardim. Para Catê, o compromisso ambiental é indissociável da prática do paisagismo.
Sobre João Jadão
Paisagista com especialização em Arquitetura da Paisagem e ampla atuação em projetos para residências, condomínios, áreas corporativas, espaços públicos e privados.
Com sólida trajetória no setor, reúne participações em importantes mostras e premiações nacionais e internacionais.
Atualmente, ocupa o cargo de vice-presidente da Associação Nacional de Paisagismo (ANP), reforçando seu compromisso com o fortalecimento e a valorização da profissão no Brasil.