Na prática, a queda da economia significa que as pessoas estão produzindo e comprando menos
A pandemia do novo coronavírus resultou em um tombo histórico de 9,7% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro no segundo trimestre (abril, maio e junho) deste ano.
Isso significa, na linguagem dos economistas, que o país entrou em recessão, uma vez que registrou duas quedas consecutivas: no primeiro semestre, o PIB tinha caído 2,5%.
Os dados, comparados com o semestre imediatamente anterior, foram divulgados nesta terça-feira (1º/9) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
No entanto, o que essa queda registrada no PIB – que é a soma de todos os bens e serviços produzidos no Brasil – representa para as pessoas?
O professor de finanças do Ibmec-DF William Baghdassarian explica que o resultado do PIB diz muito do passado, mas também funciona como um indicador para o presente e o futuro.
Por outro lado, isso também significa redução no número de pães adquiridos pelas pessoas, o que os economistas chamam de poder de compra – o IBGE fala de “consumo das famílias”.
Ou seja, se antes o seu Joaquim comprava cinco pães por dia, ele passou a comprar três, uma vez que agora tem menos dinheiro, pois teve parte do salário cortado na pandemia.
Essa queda na demanda pode ser atestada com um outro dado do IBGE: o consumo das famílias caiu 12,5% no segundo trimestre deste ano em comparação com o período anterior.
Essa é também a maior queda de toda a série histórica do IBGE, iniciada em 1996. Até então, o recorde tinha sido no terceiro semestre de 2001, há quase 20 anos, quando o consumo das famílias baixou 3,2%.
“Esse número do consumo das famílias retrata exatamente isso: as famílias ficaram sem renda”, explica William Baghdassarian, em conversa com o Metrópoles.
“O consumo das famílias não caiu mais porque tivemos programas de apoio financeiro do governo. Isso injetou liquidez na economia”, completou Rebeca Palis, do IBGE.
E o que esperar nos próximos meses? “A economia é como uma bicicleta, quanto mais lenta, mais instável fica”, explica o economista William Baghdassarian.
O professor de finanças públicas entende que o país já começa a se recuperar, mas a passos lentos. Ele destaca, no entanto, que o país vai voltar “pior do que já estava”.
“A gente já entrou na crise fragilizado. A sensação que tenho é de que vamos sair mais fragilizados ainda”, afirma. “[Mas] A recuperação pode mostrar que a economia é um sistema vivo. Do mesmo jeito que sofre um choque, reage muito rápido”, complementa.
A ideia destoa da apresentada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, que disse que o país está se recuperando, agora, em forma de V – expressão usada para se referir à rápida recuperação econômica após a queda abrupta.
“Hoje todas as estimativas são de uma queda entre 4% e 5%, ou seja, praticamente a metade do que esse som que está chegando agora de um passado distante”, afirmou.
“Como a velocidade da luz é diferente do som: você vê um raio muito cedo, e o som chega depois. É a mesma coisa com a economia”, prosseguiu o ministro da Economia.