Embora os dispositivos tragam tranquilidade para algumas pessoas, para outras eles aumentam a ansiedade em relação à saúde
Entenda como a obsessão por dados do smartwatch pode ativar o mecanismo de alerta do cérebro e desencadear crises de ansiedade (Foto Arquivo)
Milhões de pessoas utilizam dispositivos como o smartwatch para monitorar os níveis de atividade física, a qualidade do sono e a frequência cardíaca.
Embora esses aparelhos sejam úteis para a promoção da saúde, pesquisadores e especialistas começam a notar consequências indesejadas no bem-estar de alguns usuários. O acesso imediato a dados vitais pode, em certos casos, transformar uma sensação de pleno bem-estar em pânico instantâneo.
Um caso recente ilustra bem essa dinâmica: após uma longa caminhada, um usuário que se sentia perfeitamente bem resolveu checar seu relógio inteligente.
Ao se deparar com uma frequência cardíaca de 130 bpm, o homem entrou em crise de ansiedade. Cerca de 30 minutos depois, compreendeu que o aumento se devia à altitude do local, mas o impacto psicológico da leitura já havia se instalado.
O fenômeno não é isolado; muitos usuários têm abandonado os dispositivos devido ao aumento do estresse.
O Mecanismo de Previsão do Cérebro
A neurociência explica que a ansiedade gerada por esses aparelhos reside em uma incompatibilidade entre a expectativa interna e a indicação do visor.
O cérebro humano funciona como uma máquina de previsão, gerando continuamente um modelo mental do ambiente e dos estados corporais. Passa-se o dia com uma referência interna de como a pulsação e a respiração devem se comportar.
Quando o dispositivo apresenta um dado que diverge desse modelo — como um batimento mais acelerado —, o cérebro gera um “erro de previsão”.
Normalmente, o corpo resolve esses erros de forma automática e inconsciente. Contudo, como as leituras dos relógios parecem claras e objetivas, o indivíduo tende a dar mais peso a elas, iniciando um ciclo involuntário de preocupação, mesmo quando se sente fisicamente bem.
O Ciclo Vicioso da Hipervigilância
Estudos conduzidos na área revelam que essa preocupação atinge especialmente pessoas propensas à ansiedade, que já possuem uma tendência natural a hiperfocar nos sinais internos do corpo.
Durante a pandemia de Covid-19, pesquisas apontaram que indivíduos mais ansiosos monitoravam seus estados corporais com mais frequência por meio de medidas objetivas, como a medição constante da temperatura.
Essa hipervigilância, que surge como uma tentativa de proteção e busca por segurança, acaba alimentando um ciclo bidirecional: prestar mais atenção aos estados corporais eleva a ansiedade, e a ansiedade aumenta o foco nos sinais físicos.
Um estudo realizado com cerca de 500 usuários de smartwatches confirmou que o padrão de dependência e frustração ao esquecer o aparelho está diretamente associado a picos de ansiedade quando os dados parecem anormais.
Equilíbrio e Moderação
Os impactos dos dispositivos vestíveis, contudo, não são universais. Para uma parcela da população, ter acesso a esses dados funciona como um fator de tranquilidade e segurança. Os especialistas apontam que o limiar entre o cuidado e a obsessão está na moderação.
O monitoramento excessivo pode se tornar mal-adaptativo, sendo prejudicial também em casos de distúrbios alimentares.
A recomendação para quem percebe que está se preocupando mais com os gráficos do relógio do que com o próprio bem-estar é fazer um teste: deixar o dispositivo desligado por um dia ou ocultar as notificações de feedback constante.
Praticar a escuta do próprio corpo e confiar no que se sente, sem intermediários tecnológicos, pode ser o primeiro passo para quebrar o ciclo do estresse digital.