Levantamento aponta setor de transportes como o mais crítico em fatores relacionados ao estresse ocupacional e à saúde mental
Longas jornadas, pressão por horários, trânsito intenso e pouca previsibilidade fazem parte da rotina de milhares de motoristas.
Especialistas chamam atenção para um aspecto que tem ganhado cada vez mais relevância dentro das empresas: os riscos psicossociais enfrentados por esses profissionais e seus impactos na saúde mental, na segurança e na produtividade.
Um levantamento realizado com 245 empresas da Região Metropolitana de Campinas (RMC) revelou um retrato preocupante desses fatores.
A pesquisa, considerada a primeira do país a reunir e publicar dados globais sobre riscos psicossociais no ambiente de trabalho, aponta o setor de transportes como o mais vulnerável entre todos os segmentos avaliados.
Quem fez a pesquisa?
Conduzido pela Aventus Ocupacional com base na metodologia internacional HSE-IT, o estudo avaliou empresas dos setores de serviços (50%), comércio (19%), transportes (17%) e indústria (14%).
O setor de transporte apresentou os piores resultados nos domínios analisados, tornando-se o segmento com maior nível de exposição aos fatores de estresse ocupacional.
Mais de 70% dos trabalhadores avaliados nesse setor são motoristas de fretados e transporte escolar, profissionais que convivem diariamente com jornadas fragmentadas, longos períodos ao volante, pressão pelo cumprimento de horários e o isolamento característico da função.
O que diz o médico?
Segundo o médico do trabalho Dr. Marco Aurélio Bussacarini, especialista em Medicina Ocupacional e CEO da Aventus Ocupacional, esses fatores vão além do desconforto e representam riscos concretos à saúde dos trabalhadores e ao próprio funcionamento das empresas.
“Quando falamos em motoristas, não estamos tratando apenas de um profissional que permanece muitas horas sentado”, diz o médico.
“Estamos falando de pessoas submetidas diariamente a alta carga de atenção, responsabilidade constante, pressão por horários, trânsito imprevisível e, muitas vezes, pouca autonomia sobre sua rotina”, acrescenta.
“Esse conjunto de fatores favorece o desgaste emocional e aumenta significativamente os riscos psicossociais”, afirma.
Impactos vão além da saúde mental
Além do adoecimento psicológico, especialistas alertam que o estresse crônico e a fadiga podem comprometer diretamente a segurança no trânsito.
Dificuldade de concentração, irritabilidade, redução da capacidade de tomada de decisão e aumento da probabilidade de erros estão entre as consequências mais frequentes.
Segundo o especialista Dr. Marco, a natureza da profissão também dificulta a adoção de hábitos saudáveis. Horários irregulares, alimentação inadequada, poucas oportunidades para pausas e descanso e a permanência prolongada em ambientes de alta tensão contribuem para o agravamento do quadro ao longo do tempo.
NR-1 amplia responsabilidade das empresas
A discussão ganha ainda mais relevância após a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a exigir das empresas a identificação, avaliação e gerenciamento dos riscos psicossociais presentes no ambiente de trabalho.
Na prática, organizações dos mais diversos setores precisam demonstrar tecnicamente como monitoram fatores relacionados ao estresse ocupacional e quais medidas adotam para reduzir o adoecimento dos trabalhadores.
Para Bussacarini, isso representa uma mudança importante na forma como a saúde ocupacional é tratada.
“Durante muito tempo, questões como estresse, pressão e sobrecarga eram encaradas como parte natural da profissão. Hoje sabemos que esses fatores podem ser identificados, avaliados e prevenidos”, afirma.
Para o médico, “a gestão dos riscos psicossociais deixou de ser apenas uma ação de bem-estar e passou a fazer parte da estratégia de prevenção, segurança e conformidade das empresas”.
Operações mais seguras
O especialista destaca que, no caso dos motoristas, investir na prevenção significa não apenas proteger a saúde dos profissionais, mas também contribuir para operações mais seguras, redução de afastamentos, menor rotatividade e melhoria da qualidade dos serviços prestados.
“Quando a empresa compreende os fatores que geram desgaste e atua para reduzi-los, ela protege o trabalhador, melhora o desempenho operacional e fortalece a segurança de toda a cadeia de transporte”, conclui.