Levantamento aponta setor de transportes como o mais crítico em fatores relacionados ao estresse ocupacional e à saúde mental
Longas jornadas, pressão por horários, trânsito intenso e pouca previsibilidade fazem parte da rotina de milhares de motoristas.
No Dia do Motorista, celebrado em 25 de julho, especialistas chamam atenção para um aspecto que tem ganhado cada vez mais relevância dentro das empresas: os riscos psicossociais enfrentados por esses profissionais e seus impactos na saúde mental, na segurança e na produtividade.
Um levantamento realizado com 245 empresas revelou um retrato preocupante desses fatores. A pesquisa, considerada a primeira do país a reunir e publicar dados globais sobre riscos psicossociais no ambiente de trabalho, aponta o setor de transportes como o mais vulnerável entre todos os segmentos avaliados.
Conduzido pela Aventus Ocupacional com base na metodologia internacional HSE-IT, o estudo avaliou empresas dos setores de serviços (50%), comércio (19%), transportes (17%) e indústria (14%).
Piores resultados
O setor de transporte apresentou os piores resultados nos domínios analisados, tornando-se o segmento com maior nível de exposição aos fatores de estresse ocupacional.
Mais de 70% dos trabalhadores avaliados nesse setor são motoristas de fretados e transporte escolar, profissionais que convivem diariamente com jornadas fragmentadas, longos períodos ao volante, pressão pelo cumprimento de horários e o isolamento característico da função.
Segundo o médico do trabalho Dr. Marco Aurélio Bussacarini, especialista em Medicina Ocupacional e CEO da Aventus Ocupacional, esses fatores vão além do desconforto e representam riscos concretos à saúde dos trabalhadores e ao próprio funcionamento das empresas.
“Quando falamos em motoristas, não estamos tratando apenas de um profissional que permanece muitas horas sentado. Estamos falando de pessoas submetidas diariamente a alta carga de atenção, responsabilidade constante, pressão por horários, trânsito imprevisível e, muitas vezes, pouca autonomia sobre sua rotina. Esse conjunto de fatores favorece o desgaste emocional e aumenta significativamente os riscos psicossociais”, afirma.
Impactos vão além da saúde mental
Além do adoecimento psicológico, especialistas alertam que o estresse crônico e a fadiga podem comprometer diretamente a segurança no trânsito.
Dificuldade de concentração, irritabilidade, redução da capacidade de tomada de decisão e aumento da probabilidade de erros estão entre as consequências mais frequentes.
Segundo o especialista Dr. Marco, a natureza da profissão também dificulta a adoção de hábitos saudáveis. Horários irregulares, alimentação inadequada, poucas oportunidades para pausas e descanso e a permanência prolongada em ambientes de alta tensão contribuem para o agravamento do quadro ao longo do tempo.
Responsabilidade das empresas
A discussão ganha ainda mais relevância após a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a exigir das empresas a identificação, avaliação e gerenciamento dos riscos psicossociais presentes no ambiente de trabalho.
Na prática, organizações dos mais diversos setores precisam demonstrar tecnicamente como monitoram fatores relacionados ao estresse ocupacional e quais medidas adotam para reduzir o adoecimento dos trabalhadores.
Para Bussacarini, isso representa uma mudança importante na forma como a saúde ocupacional é tratada.
“Durante muito tempo, questões como estresse, pressão e sobrecarga eram encaradas como parte natural da profissão. Hoje sabemos que esses fatores podem ser identificados, avaliados e prevenidos. A gestão dos riscos psicossociais deixou de ser apenas uma ação de bem-estar e passou a fazer parte da estratégia de prevenção, segurança e conformidade das empresas”, afirma.
Proteção ao motorista
O especialista destaca que, no caso dos motoristas, investir na prevenção significa não apenas proteger a saúde dos profissionais, mas também contribuir para operações mais seguras, redução de afastamentos, menor rotatividade e melhoria da qualidade dos serviços prestados.
“Quando a empresa compreende os fatores que geram desgaste e atua para reduzi-los, ela protege o trabalhador, melhora o desempenho operacional e fortalece a segurança de toda a cadeia de transporte”, conclui.