Conheça a história de Manoel Valim, o homem que começou a igreja N. S. Aparecida

  • Robson Leite
  • Publicado em 13 de novembro de 2025 às 09:00
compartilhar no whatsapp compartilhar no telegram compartilhar no facebook compartilhar no linkedin

O resgate feito pelo artista Marcelo Fradim devolveu feições a Manoel Valim e reacendeu a rica memória de Franca

Por anos, o rosto de Manoel Valim, ex-escravo cuja promessa a Nossa Senhora Aparecida deu origem à Capelinha, habitou a história de Franca (SP) como um vulto.

Restavam apenas dois vestígios frágeis: um recorte do início do século passado publicado num semanário francano e uma fotografia da inauguração da capelinha, em péssimo estado.

Foi a partir da junção técnica e cuidadosa desses dois fragmentos que o artista e pesquisador Marcelo Fradim reconstituiu as feições de Manoel Valim e, com elas, devolveu à cidade um símbolo.

“Não é só uma imagem: é um gesto de reparação da memória”, resume Fradim, que desde 2012 se dedica a restauração, recomposição iconográfica e colorização de acervos públicos e particulares de Franca, sempre com cruzamento documental e respeito ao contexto histórico.

Por que isso importa

Franca cresceu acostumada a celebrar seus feitos econômicos, da pecuária à indústria calçadista, mas nem sempre guardou com a mesma nitidez a face dos seus protagonistas populares.

A figura de Manoel Valim, reconstruída a partir de métodos digitais e pesquisa em acervos do Museu Histórico Municipal “José Chiachiri” e do Arquivo Municipal “Capitão Hipólito”, recoloca no centro um personagem cuja devoção moldou um território afetivo inteiro.

Valim fez um voto: se a filha fosse curada, ergueria uma capelinha em honra a Aparecida. Cumpriu. A primeira construção tinha cerca de 1,50 m por 3,00 m, pequena na escala, imensa no significado. Vieram as festas populares, a sociabilidade de bairro, o leilão de parte do terreno quando as contas não fecharam.

Anos depois, os Padres Agostinianos Recoletos, sob liderança de Frei Gregório Gil, adquiriram a área e levantaram o Seminário de Nossa Senhora Aparecida. A cidade, até hoje chama tudo de Capelinha, um topônimo nascido de gratidão.

Um método que combina ciência e sensibilidade

O retrato apresentado agora nasce de um processo que não inventa histórias; restitui o que o tempo e a umidade apagaram.

Fradim reuniu fontes, alinhou proporções craniofaciais, comparou luz e grão entre os dois registros, e aplicou técnicas de restauração digital e colorização criteriosa para devolver verossimilhança ao rosto de Valim, sem suavizar a aspereza do documento, sem “embelezar” a história.

“Meu compromisso é com o que a imagem pode provar e com aquilo que a documentação sustenta”, diz o pesquisador. “A cor, aqui, não é mero adorno; é ferramenta de leitura.”

Significado cívico

Há algo de cívico e pedagógico em ver a cidade reconhecendo o seu rosto escondido. O resgate de Valim amplia o cânone local, ilumina a contribuição de pessoas negras na formação do espaço urbano e reconecta Franca às suas camadas invisíveis: fé, trabalho, festejo, partilha.

Quando uma comunidade se lembra com precisão, ganha também ferramentas para planejar com justiça. Preservar imagens não é nostalgia: é política pública de memória.

Como nasce um resgate (em 5 passos)

1. Localização e autorização do acervo:  garimpo em museus, arquivos e coleções familiares, com créditos e consentimentos formais.

2. Diagnóstico técnico: leitura do dano (rasgos, fungos, prateação, subexposição) e plano de intervenção não destrutivo.

3. Cruzamento documental: checagem de datas, pessoas e contexto em periódicos, almanaques, atas e depoimentos.

4. Restauração e recomposição iconográfica: reconstrução de lacunas com referências internas à própria imagem; nada é “inventado do nada”.

5. Colorização crítica: paleta baseada em padrões históricos e material de época, deixando explícito que se trata de reconstrução interpretativa.

Uma série que vai além de um retrato

O projeto não se encerra em Manoel Valim. A cada peça restaurada, Franca vai recebendo novas camadas de leitura: cenas da Mogiana, o Jardim de Cima e o Jardim de Baixo (as atuais Praça Nossa Senhora da Conceição e Praça Barão), o ciclo industrial com suas fábricas e oficinas, além de personalidades que moldaram a vida cívica, cultural e econômica da cidade.

Esse mosaico iconográfico reordena a cronologia urbana, corrige mitos, devolve protagonismos e restabelece a trama de lugares, nomes e datas.

A cada nova imagem cresce também um pacto de responsabilidade. É essencial citar as fontes, credenciar os acervos e não descontextualizar a obra.

Sem esses cuidados, a cidade perde o fio condutor do próprio passado. O resgate não é um fim em si; é um compromisso público com a verdade histórica, com a educação e com o direito à memória.

Chamado à sociedade

Franca possui memória espalhada em gavetas, baús e caixas de sapato. O retrato de Manoel Valim prova que uma fotografia “perdida” pode mudar a narrativa.

O convite é claro: famílias, paróquias, escolas e antigos estúdios fotográficos, abram seus arquivos. Digitalizem em alta resolução, anotem nomes, locais e datas, preservem negativos e ampliem o acesso. O que está esquecido pode estar faltando na história oficial.

Sobre o autor do resgate

O trabalho de Marcelo Fradim ultrapassa fronteiras municipais. O método de restauração, recomposição iconográfica e colorização crítica já possibilitou descobertas e reatribuições em Franca e também no Nordeste e no Norte do Brasil, no Rio de Janeiro e em acervos internacionais de Estados Unidos, França, Inglaterra, Noruega e Finlândia, em projetos realizados a pedido de empresas e museus locais.

Foram casos de créditos corrigidos, datas retificadas, identificação de pessoas e lugares e reintegração de acervos a projetos educativos.

Em Franca, esse mesmo trabalho é feito de forma altruísta. As peças restauradas são compartilhadas gratuitamente no grupo Amo Franca, no Facebook, acompanhadas de contexto histórico e créditos dos acervos. A escolha é pedagógica e cívica: democratizar a memória e educar para o uso responsável da imagem pública.

Se a cidade aprende a ver-se com precisão, tem melhores condições de planejar-se, cuidar de seus marcos e reconhecer seus protagonistas. Esse é o valor maior do resgate iconográfico: devolver rosto, lugar e tempo àquilo que nos constitui.


+ Artes