Especialistas alertam que o consumo excessivo de vídeos rápidos pode afetar atenção, memória e desenvolvimento emocional das crianças
Mais de 50% das crianças assistem a vídeos curtos no YouTube e TikTok. Neuropediatras e pediatras alertam: o excesso pode causar dependência digital e prejudicar o desenvolvimento cerebral (Foto Arquivo)
Um levantamento da Hibou Pesquisas e Insights revelou que 54% das crianças passam a maior parte do tempo assistindo a vídeos curtos no YouTube e 41% no TikTok. Plataformas como Netflix e Disney+ — focadas em conteúdo mais longo — vêm perdendo espaço.
Segundo Ligia Mello, diretora da Hibou, essa mudança mostra que as telas dos celulares estão substituindo a TV. “Esses vídeos rápidos são viciantes e exigem mais controle dos pais sobre o tempo de uso”, alerta.
Cérebro viciado em dopamina
O pediatra Daniel Becker explica que o design dessas plataformas é feito para criar dependência. O algoritmo mostra o que mais prende a atenção e estimula o usuário a continuar rolando.
A neuropediatra Marcela Freitas, da Academia Brasileira de Neurologia, explica que o cérebro ativa o sistema de recompensa com a dopamina — o mesmo mecanismo envolvido em vícios. Isso faz com que as crianças sintam prazer imediato e busquem repetir o comportamento.
Atenção fragmentada e “névoa mental”
Pesquisas apontam que o consumo de vídeos muito curtos pode causar “névoa mental”, reduzindo a capacidade de concentração e processamento de informações.
Segundo Freitas, “a criança entra em um estado de dispersão, o que impede o foco em uma única tarefa por mais tempo”. Essa atenção fragmentada compromete a memória e o aprendizado, essenciais para o desenvolvimento cognitivo.
Conteúdos sem filtro e sem reflexão
Outro problema é o tipo de conteúdo consumido. Becker alerta que vídeos curtos raramente estimulam raciocínio, reflexão ou empatia. “Ali não há narrativa, herói, conflito ou moral da história. Tudo é passivo”, diz.
E o algoritmo pode piorar o cenário: para prender a atenção, ele frequentemente exibe conteúdos inadequados, como misoginia, violência, preconceito e padrões de beleza irreais.
Limites e alternativas mais seguras
Os especialistas recomendam que pais prefiram o uso de TV e streaming, onde há curadoria e classificação indicativa, em vez do uso livre de redes sociais. “Quando precisar recorrer a uma tela, ligue a televisão. É mais seguro”, aconselha Becker.
Uma pesquisa da Hibou também mostrou que 77% dos pais acreditam que o celular próprio só deve vir após os 12 anos — um aumento em relação aos anos anteriores.
Conexão, não isolamento
Becker reforça que o uso precoce e excessivo das telas substitui experiências reais fundamentais, como brincar, interagir e desenvolver empatia.
“Um adolescente de 12, 13 anos pode ter um celular básico, só para chamadas e SMS. As redes sociais podem esperar. É uma questão de proteger o cérebro em formação”, conclui.