Padre Donizetti, um dos nomes mais conhecidos da igreja, viveu em Franca

  • Cesar Colleti
  • Publicado em 22 de novembro de 2019 às 12:52
  • Modificado em 8 de outubro de 2020 às 20:03
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Em julho de 2006, a revista Enfoque publicou uma reportagem sobre a vida do padre Donizetti em Franca

Franca está diretamente ligada a dois fatos religiosos importantes que elevam a cidade ao status de terra dos milagres, dada a crença de sua gente e a fé de seu povo ordeiro. 

Primeiro foi o milagre atribuído à Santa Gianna Beretta Molla, que por sua intercessão divina teria garantido a continuidade da gravidez de Elisabete Comparini Arcolino, que deu à luz a Gianna Maria. 

O milagre reconhecido pelo Vaticano canonizou Santa Gianna no dia 16 de maio de 2004.

Depois foi a vez de Madre Rita Amada de Jesus, também reconhecido pelo Vaticano e cujo milagre aconteceu em Franca, na vida de Isméria Taveira Cintra, salva de um problema grave de saúde com a ajuda divina da religiosa portuguesa. 

A história de Franca está intimamente ligada a outro religioso de peso, com reconhecidas virtudes: o de padre Donizetti Tavares de Lima. 

Para quem ainda não se deu conta, padre Donizetti, o religioso caipira, viveu parte de sua vida em Franca, e sua história está mais próxima de nós do que se imagina.

Morto há mais de 40 anos, Padre Donizetti é considerado um mito e atrai milhares de fiéis a Tambaú, cidade de 25 mil habitantes, que fica a 1h35 minutos de Campinas.

Processo de beatificação foi aberto em maio de 1991

Padre Donizetti é considerado um fenômeno em popularidade. Para se ter uma ideia, até 1999 pelo menos 2 milhões e 700 mil brasileiros foram registrados com o nome de Donizetti em sua homenagem. 

No Vaticano, tramita um processo para a sua beatificação e mais de 400 pessoas foram entrevistadas, segundo o pesquisador Paulo Rogério Rocco, sobre milagres que teriam acontecido por seu intermédio.

Um desses milagres teria se dado em Franca, de acordo com o livreto Novos Milagres em 1956 do Padre Donizetti Tavares de Lima, publicado pelos vereadores da Câmara Municipal de Tambaú, por ocasião do pedido de abertura do processo de beatificação do religioso, em 25 de maio de 1991.

O milagre francano narrado na publicação e que foi para o Vaticano teria se dado com Antônio Cândido de Souza, que morava na Rua Francisco Marques. 

O próprio narrou que seu filho, Alberto Luiz de Souza, voltou à vida após estar morto durante 10 minutos, pela invocação do nome de Nossa Senhora Aparecida e do Padre Donizetti. 

A criança, ainda de acordo com o livreto, esteve com angina durante 12 horas, foi tratada sem sucesso por um médico da cidade, e teria morrido depois de aplicada uma injeção em uma das farmácias da cidade. 

Testemunharam a morte e a ressurreição: Emilio Peres, dona Mariana, vizinha do declarante, o farmacêutico Paulo e o Francisco Fernandes, todos de Franca. Como se vê, a história de padre Donizetti está mais ligada a Franca do que se imagina.

Religioso morou em Franca e estudou no extinto Liceu

Mineiro de Cássia, distante 55 quilômetros de Franca, padre Donizetti mudou-se com a família para cá quando ainda era pequeno, em 1886. 

Aqui, de acordo com os relatos, fez o curso primário e iniciou o curso secundário no extinto Colégio “Liceu Franciscano”. 

Uma das dificuldades está em localizar os documentos do padre pertencentes à época. Segundo o escritor, professor, historiador e advogado Alfredo Palermo, o Liceu é uma das instituições de ensino mais antigas de que se tem notícia e se justifica aí a dificuldade em se localizar documentos.

Para se ter uma ideia, o Colégio Nossa Senhora de Lourdes surgiu em 1889; o Colégio Champagnat, outra instituição histórica, nasceu em 1909. Padre Donizetti estudou em Franca bem antes disso.

Outros fatos evidenciam que Padre Donizetti viveu na cidade e aqui passou parte de sua vida. 

De acordo com o escritor José Wagner Cabral de Azevedo, em seu livro Padre Donizetti de Tambaú, após residir em várias cidades de Minas Gerais – Cássia, Carmo do Rio Claro, Muzambinho e Cabo Verde – os pais de Donizetti, Tristão Tavares de Lima, advogado, e Francisca Cândida Tavares de Lima, professora primária, tiveram que se transferir para Franca para criar todos os filhos. 

O casal teve no total 16 filhos, dentre aqueles que faleceram ainda pequenos. 

Atingiram a idade adulta Rita de Cássia, Rossini, Coleta, Donizetti, Tristão Bellini, Mozart, Verdi e Modesto. Um dos irmãos do pai do religioso, maestro Joaquim Tristão de Almeida, morreu em Franca em 1929. 

O padre famoso ainda tem descendentes que residem na cidade.

O pai de Donizetti, um republicano, de acordo com um estudo do neto, Chopin Tavares de Lima, na qualidade de promotor público, assinou, juntamente com João de Faria, delegado de polícia, Francisco Martins Ferreira Costa, José Guerner d’Almeida, Luiz Augusto Ferreira, Juiz de Direito, um texto que foi impresso, e era dirigido Aos Habitantes da Comarca de Franca, em 19 de novembro de 1889, quando Donizetti tinha sete anos e residia em Franca. 

O texto informava, entre outras coisas, que a República iria permitir, como estão alguns desordeiros dizendo pela roça, o casamento de um homem com muitas mulheres, que iria prejudicar a propriedade dos particulares, obrigaria o trabalhador a contratar seus serviços por baixo preço. E acrescentava: isso é mentira! (sic).

Um dos coroinhas de padre Donizetti foi José Chiachiri

A ligação de Padre Donizetti com Franca é tão grande que pelo menos um de seus filhos ilustres teve um contato direto com ele. 

José Chiachiri, idealizador e organizador do Museu Histórico de Franca, foi um dos coroinhas de Padre Donizetti quando ele atuava na Igreja de Santana, em Vargem Grande do Sul.

Uma das fotos que pertencem ao museu, cedida pelo historiador e professor José Chiachiri Filho, mostra seu pai, junto com outros seis coroinhas, acompanhados por Padre Donizetti, na Igreja Santana, demolida entre 1920 e 1926. 

A foto foi um presente do próprio Padre Donizetti a José Chiachiri, que a cedeu ao museu no ano de 1959. “Meu pai conviveu com Padre Donizetti, o religioso que vivia cercado de crianças”, pontua Chiachiri.

Outro documento que prova a atuação da família em Franca é datado do começo do século passado. 

Em 11 de agosto de 1921, o então juiz de Direito da Comarca de Franca, José Máximo Pinheiro Lima, encaminhou um ofício timbrado com o brasão da República ao padre Donizetti, então vigário da cidade de Vargem Grande do Sul, pela morte do pai, que teve grande atuação na advocacia francana quando Donizetti recebia os seus primeiros ensinamentos.

Cássia ainda não despertou para a importância do fato

Mesmo tendo sido berço natal do padre famoso, a cidade de Cássia engatinha para reconhecer definitivamente o assunto e tornar público o fato. 

Um dos poucos passos dados foi a mudança do nome da antiga Rua da Praia, onde o padre nasceu, para o nome do religioso. 

Em meados da década de 90, quando procedeu a mudança do nome, José Wagner lançou o seu livro simultaneamente em Tambaú e na vizinha cidade mineira. 

Um grande movimento tomou conta da cidade, que abrigaria até um museu com objetos pessoais do filho ilustre. A idéia não saiu do papel até hoje.

A ligação da cidade mineira também é religiosa. Padre Donizetti foi batizado na cidade, pelas mãos do padre Marciano Pereira da Fonseca, em 22 de janeiro de 1882, e teve como padrinhos João Baptista de Mello e Anna Cândida de Mello e Souza, ela neta do Barão de Cambuí, que dá nome à principal praça da cidade, localizada no centro.

Padre morreu em Tambaú aos 79 anos 

Padre Donizetti estudou música e piano com o pai. Depois de estudar em Franca, até 1900 cursou o colégio Monsenhor João Soares, em Sorocaba (SP). 

Foi contratado, depois disso, por intermédio do bispo Dom Néry, como organista e professor do Seminário São Paulo.

Padre Donizetti frequentou o curso preparatório da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. 

Ordenado em 1908, foi designado vigário em Vargem Grande do Sul e transferido depois para a paróquia de Jaguariúna, perto de Campinas. 

O religioso chegou a Tambaú apenas em 1926, quando assumiu a paróquia de Santo Antônio, e lá construiu a sua fama religiosa. 

Morto em 1961, aos 79 anos de idade, seu túmulo recebe a visita de milhares de fiéis anualmente.

Resgatar a importância da vida de Padre Donizetti em Franca caberá às futuras gerações e também depende de vontade e de conhecimento. 

Mais que a sua importância religiosa, cuja santidade ainda poderá ser reconhecida pelo Vaticano, vale o peso histórico.

Um dos milagres está ligado a Joelmir Betting

Os milagres atribuídos a Padre Donizetti Tavares de Lima são inúmeros. Um deles envolve um personagem famoso do jornalismo brasileiro. 

O jornalista, economista e comentarista Joelmir Betting, tambauense, que, a exemplo de José Chiachiri, foi coroinha do religioso, era completamente gago. 

Não completava duas frases sem gaguejar. Segundo testemunho do próprio jornalista à EPTV, Padre Donizetti chamou-o e tomou uma sopa de quiabo com o então garoto. 

O jornalista conta que o padre o convidou para rezar um Pai Nosso. Até hoje, Joelmir Betting fala corretamente, sem problema algum de dicção.

O primeiro milagre do padre, segundo o pesquisador Rocco, teria acontecido com um vendedor de vinhos de Poços de Caldas (MG). 

Ele foi impedido de andar, por causa de um problema de reumatismo nos joelhos, e foi procurar pelo padre, que o recebeu na Casa Paroquial. 

Retornou do mesmo jeito para a cidade mineira, mas na viagem de volta, no meio do caminho, pediu que parassem o carro e caminhou pela estrada. 

Suas pernas ganharam força. Padre Donizetti teria operado o seu primeiro milagre, em março de 1954.