Entenda quando a recusa alimentar é um sinal de alerta biológico e como a genética explica a seletividade
A frase “ele não come nada” costuma vir acompanhada de um julgamento social rápido: é birra, falta de limites ou “frescura” (Foto Arquivo)
Ver o prato cheio voltar para a cozinha intocado é uma das maiores frustrações de pais e cuidadores. A frase “ele não come nada” costuma vir acompanhada de um julgamento social rápido: é birra, falta de limites ou “frescura”.
No entanto, reduzir a rejeição alimentar a um problema puramente comportamental é uma leitura perigosa e simplificada.
A medicina contemporânea aponta para um dado central: o corpo humano, especialmente na infância, possui mecanismos de defesa que funcionam antes mesmo da consciência racional.
Muitas vezes, a criança não come porque seu organismo identificou aquele alimento como uma ameaça.
O corpo fala antes da criança
A ideia de que a criança recusa alimentos apenas para testar limites ignora a biologia. O organismo infantil é altamente sensível e reage a estímulos que, para os adultos, podem passar despercebidos.
Segundo o Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, pós-PhD em Neurociências e especialista em Genômica, essa recusa pode funcionar como um marcador biológico.
“O organismo não rejeita sem motivo; ele aprende, por vias neuroquímicas e sensoriais, o que lhe causa desequilíbrio”, explica o especialista.
Isso significa que a aversão ao brócolis ou ao leite pode não ser um capricho, mas uma resposta neurobiológica de proteção.
Eixo intestino-cérebro
Essa comunicação interna acontece através de uma via complexa conhecida como eixo intestino-cérebro.
Mediados pelo nervo vago e por núcleos do tronco encefálico, o sistema digestivo e o cérebro “conversam” o tempo todo.
Neurotransmissores como a serotonina e a dopamina entram em cena para associar a comida ao prazer ou à aversão. Se o corpo detecta perigo, a ordem química é clara: não coma.
Quando não é frescura: 5 causas fisiológicas
A literatura médica sustenta que a rejeição alimentar persistente deve ser encarada como um sinal de alerta fisiológico.
Existem fatores genéticos e anatômicos que tornam o ato de comer desconfortável ou até doloroso para a criança.
1. Predisposição genética e intolerâncias
Você sabia que nem toda reação negativa a alimentos é uma alergia clássica? Existem polimorfismos genéticos (variações no DNA) que afetam a função renal, a inflamação intestinal ou o metabolismo de proteínas.
Essas condições geram desconfortos “subclínicos”. A criança não sabe explicar que sente um mal-estar sistêmico, mas o corpo dela sabe.
Como resultado, ela evita o alimento associado a essa sensação ruim, mesmo sem entender o porquê.
2. Hipermobilidade e deglutição
Crianças que estão no espectro da hipermobilidade apresentam uma elasticidade maior nos tecidos do corpo. Isso inclui a musculatura da boca, da garganta (orofaringe) e do esôfago.
Essa característica pode dificultar a deglutição, causando a sensação de que a comida “não desce” ou gerando engasgos frequentes.
Nesse cenário, parar de comer é um mecanismo instintivo de autoproteção contra o sufocamento.
3. Sensibilidade sensorial aumentada
Em perfis neurodivergentes, é comum haver alterações no processamento sensorial. Áreas do cérebro como o córtex insular e o tálamo podem apresentar hiperatividade, por exemplo.
Para essas crianças, texturas (como purês ou pedaços de carne), temperaturas e odores são percebidos de forma muito mais intensa.
O cheiro de um refogado pode ser insuportável, não por escolha, mas por uma sobrecarga neural real.
4. Dificuldades digestivas funcionais
O sistema digestivo da criança pode apresentar imaturidade enzimática ou baixa produção de bile.
Isso dificulta a quebra de gorduras e proteínas. O resultado? O sistema digestivo sinaliza “estresse” toda vez que esses alimentos são ingeridos.
A resposta comportamental imediata é a evitação do prato que causa essa digestão difícil.
Inflamação silenciosa: um inimigo invisível
Outro ponto crucial levantado pelo Dr. Fabiano de Abreu é a inflamação de base genética.
Crianças que rejeitam comida e, simultaneamente, apresentam cansaço excessivo ou alterações na pele podem estar inflamadas.
Essa “fadiga metabólica” tira o apetite e aumenta a seletividade. O corpo está ocupado tentando combater a inflamação e economiza energia na digestão.
A inteligência genética como aliada
Para auxiliar pais e médicos a distinguirem o que é comportamento do que é biologia, a ciência tem avançado na análise de dados.
O GIP (Genetic Intelligence Project) surge como uma ferramenta de apoio à parentalidade consciente. A partir da análise genética, é possível identificar predisposições metabólicas e sensoriais que explicam comportamentos atípicos.
A proposta não é rotular a criança, mas sim traduzir biologicamente o que o comportamento dela já está gritando. Adotar a estratégia de “entender antes de corrigir” evita traumas na hora das refeições.
Além disso, previne o uso de coerção desnecessária (o famoso “vai comer à força”) e direciona para tratamentos personalizados.
Sinais para buscar ajuda
Se você suspeita que a rejeição alimentar do seu filho tem base fisiológica, observe o conjunto da obra.
Não olhe apenas para o prato, mas para a saúde geral da criança.
Sinais de alerta que exigem investigação:
– Diarreia ou obstipação frequentes;
– Sinais de refluxo (pigarro, vômitos);
– Manchas na pele ou eczemas;
– Dores abdominais recorrentes;
– Fadiga ou desânimo excessivo.
Se a recusa vier acompanhada desses sintomas, procure um pediatra ou nutricionista pediátrico.
A investigação fisiológica é o primeiro passo. Lembre-se: reduzir tudo à frescura é ignorar a sabedoria do corpo infantil. Muitas vezes, ele sabe antes o que a ciência só vai confirmar depois.